Pois é, você é uma das poucas
coisas do mundo velho que ainda restam nesse paraíso, porque permanece por todos os
lugares. Hoje saí pra trabalhar a pé, para sentir um pouco a brisa fria da
manhã de junho e, algo incrível aconteceu: durante os 15 minutos de caminhada
até o escritório, recebi cinco cumprimentos de bom dia. Agora todos se
cumprimentam na rua, mesmo que não se conheçam. Acenam, sorriem e as vezes até desejam coisas boas pra gente, sem se importarem com quem estão falando. Chamaram essa prática de
educação. Achei fantástico e estão até ensinando nas escolas.
Lembra-se dos noticiários
sanguinários que você detestava? Faliram. Pouco se vê de violência por aqui.
Todos me parecem humanos, diferentemente do mundo antigo, onde a briga diária
por bens materiais, pela vida e pela paz alheia, era pauta principal de quase
todos os jornais da cidade. Agora a gente sai pra beber um vinho durante a
noite e não nos assusta mais deixar o carro em casa e caminhar um pouco até o bar. Voltamos alegres, pisando
as poças d’água, sem disparar o coração ou sermos surpreendidos com algum
assalto a mão armada. E quando raramente isso acontece, esses cidadãos um pouco
desvirtuados das coisas boas que a vida pode nos dar, são reabilitados em casas
especializadas nesse tipo de problema. Recebem a chance de voltar ao mercado de trabalho e
passam a viver novamente como nós. Quem diria, hein, que essa paz seria
possível? O segredo foi investir na prevenção do mal. Remediar se tornou obsoleto.
Uma novidade digna de comemoração
é que preconceito pouco se conhece por essas bandas de cá. Comemos bananas e
ninguém nos chama de macaco, por exemplo. Não somos todos iguais, mas nos
respeitamos igualmente. Não temos a mesma origem, mas somos um mesmo povo. Não
fomos criados da mesma forma, mas lutamos para uma mesma causa. Não gostamos das mesmas coisas, mas compartilhamos nossos saberes. Não nos
ensinaram como seguir, nós simplesmente seguimos. E fizemos o certo.
Por falar nisso, aqui sobra honestidade. Se esse mundo para o qual escrevo ainda houvesse
salvação, mandaria um pouco dentro desse envelope. Quem não tem nada, o pouco
já é suficiente. Políticos a gente também tem, sabe? Mas como diria Thomas Hobbes,
esse governo é um mal necessário para conter o caos. Alguém tinha que pôr ordem
nisso tudo e, por incrível que pareça, está dando certo. Educação não nos
falta, meu amigo. As crianças estudam sustentadas pelo governo e estas são as
melhores escolas do nosso país. Há briga para conseguir matrícula. Abastados ou
não, todos frequentam o mesmo colégio. A saúde gratuita também virou acesso
fácil e eficiente. Os médicos aqui gostam de trabalhar e o fazem por amor.
Nenhum cidadão morre em cima de uma maca no corredor da emergência. Nenhum
idoso perde sua vida por recusa de atendimento. Somos todos prestativos. E
fazemos isso porque queremos o mesmo em troca.
E por fim, meu caro, aqui o
respeito é mútuo. Das crianças aos idosos, todos fazem parte de uma mesma massa
regida pela educação. Alguns ainda não descobriram seus destinos, mas todos
sabem que a base para construí-los está no que plantamos por aqui: respeito. A
dignidade, a coragem de seguir em frente e o sucesso da realização nós
cultivamos pouco a pouco e acreditamos que no fim seremos cada vez melhores. É
com uma saudade imensa de você que me despeço de uma vez por todas. O mundo que
ficou não mais nos pertence e dele não queremos nem uma folha para plantar por
aqui. O mal se dissemina com uma frequência maior que o bem e é isso o que
menos queremos no nosso planeta que não mais se chama Terra. Um abraço saudoso e
repleto de boas energias. Quem sabe não nos encontremos em outro mundo.”
Dani Fechine
Dani Fechine
