25 abril 2018

Querido esporte, voltei



Eu não imaginava que um dia eu voltaria a sentir a mesma sensação de quando colocava os dois pés na quadra pra jogar handebol. Eu devia ter entre oito e nove anos quando conheci o esporte pela primeira vez. Entrei na natação querendo ganhar o mundo. Competia com minha irmã pra ver quem tirava o melhor tempo. Me superei aos poucos, subi de turma três vezes e desisti das águas geladas em um desses invernos.

Mas, ainda criança, eu voltava pra casa com a sensação de liberdade e leveza. Mais de 12 anos depois descubro que tudo isso é culpa do esporte. Dos nove para os dez conheci o vôlei e o handebol, e me arriscava feio no futsal. Tive professores incríveis, além de amigos que me empurraram e me ajudaram a passar um pouquinho mais de tempo em quadra.

Quando arremessei a primeira bola de handebol, descobri o que era extravasar. E parecia que era aquilo que eu iria fazer para o resto da vida. Mas, mais uma vez, em um desses anos de vestibular, desisti até das aulas de educação física. O mundo me dizia que a teoria era o mais importante naquele momento, mas todos os dias eu lamentava o fato de não ter apoio na escola para crescer no esporte.

Quando aprendi a fintar, no primeiro dia de aula com professor Tim Maia – não o cantor, o treinador magnífico que, infelizmente, se foi – machuquei o dedo. Entendi que o esporte tem suas glórias e tristezas. Mas em todas as vezes que eu entrava em quadra, me envolvia de uma sensação difícil de explicar. Uma mistura de satisfação com, mais uma vez, leveza. A sensação era de voar em cada arremesso. E de ultrapassar todas as dificuldades em cada finta que eu conseguia concluir.

Aos 23 anos não faço mais natação, nem jogo mais handebol. Passei anos tentando me encontrar novamente na atividade física. Sempre repetia que era no esporte que eu me satisfazia. Nunca encontrei o momento perfeito pra voltar para eles. Talvez porque não tivesse mesmo que continuar a nadar ou estufar a rede. Mas quando eu participei da minha primeira corrida entendi que o esporte nunca sai da gente.

Sempre amei a sensação que a corrida de rua me proporcionava. Nada mais pode me abalar quando termino de correr. Sou capaz de enfrentar tudo o que o meu dia tiver pra me oferecer, seja coisas boas ou ruins. Quando aceitei o desafio dos primeiros cinco quilômetros, voltei aos oito, nove anos, quando a professora marcou o meu tempo pela primeira vez na natação.

Completei a prova e a vontade era de voltar a correr naquele mesmo instante. Cruzar a linha de chegada foi como roubar a bola e fazer um contra-ataque sem chances para a goleira, atingindo um impulso que raras vezes tive oportunidade. Concluir a prova foi ouvir o apito da professora de natação, seguido do relógio marcando meu tempo. Foi um pouco de superação, porque todo mundo que se aventura em algo novo, se supera. Foi uma bela redescoberta. Do esporte e do que meu corpo ainda é capaz de me oferecer. Entendi que até na corrida de rua o esporte é coletivo. Precisamos uns dos outros. As vezes do silêncio, as vezes do incentivo, as vezes só do apoio na hora da dor que, sim, também chega sem avisar. Foi o meu retorno não às quadras, nem à piscina, mas às ruas.

Dani Fechine

20 dezembro 2017

#DiárioDeLeitura: Correr - o exercício, a cidade e o desafio da maratona


No dia 7 de dezembro decidi desafiar o meu corpo, o meu fôlego e a minha disposição. Instigada por um 2018 imprevisivelmente diferente, resolvi traçar metas com vários objetivos diferentes: sonhos, saúde, solidariedade e saudades. Um conjunto de "s" que vão me realizar enquanto ser humano. Então comecei ainda em 2017. Chamei o amigo mais disposto que conheço, coloquei o tênis e fui. A meta é completar uma corrida de, pelo menos, 5km.

Um dia depois, me agarrei a Drauzio Varella. Já havia me encantado por ele em "Prisioneiras" - livro que devo comentar em breve -, mas em "Correr" eu me apaixonei. Não apenas por começar a mergulhar em mundo semelhante ao que ele escreve, mas principalmente por admiração e respeito. "Cinquenta anos. Idade em que tem início a decadência do homem". Essa frase vai te acompanhar durante toda a leitura, ainda que não apareça com tanta frequência. Drauzio resolveu iniciar a sua vida aos cinquenta, depois de ser praticamente afrontado com essa frase. Tornou-se corredor de rua e o objetivo não era tão pequeno quanto o meu: transformou-se em maratonista. E está aí a beleza do seu livro.

Médico mas, antes de tudo, um ser humano incrível, ele conseguiu. Superou desafios e fez da corrida o seu estímulo diário, o seu escape, a calmaria e o remédio necessário para aguentar a batalha árdua do dia com bom humor e concentração. A cada leitura, o meu objetivo parecia ganhar mais foco. Por mais que você não queira ser um corredor de rua ou maratonista, leia. "Correr" é um livro sobre coragem. Além disso, se quer conhecer um pouquinho do mundo, o livro de Drauzio é uma boa entrada. 

O fato é que, como somei a minha prática com a leitura, tudo foi muito prazeroso. Eu entendi, guardadas as devidas proporções, todas as questões abordadas por ele. E aprendi. Apreendi. Conheci. Drauzio me apresentou lugares lindos como Blumenau, Nova York, Chicago, Boston, Tóquio, Miami. No Brasil, percorreu maratonas que marcaram a sua vida de corredor de rua. 

Criei um fascínio pelo encanto que deve ser correr em ruas de lugares desconhecidos. Conhecer cidades através da corrida de rua e decorar na memória cada esquina, cada viela, para voltar com segurança. Se a beleza dos lugares me foi vistosa demais por meio da leitura, imagina se faço isso realmente? "Correr" foi o empurrão que eu precisava. 

Em 2016 estive em São Paulo pela primeira vez. Diferente de tanta gente, fiquei maravilhada pela cidade que não para, pelos prédios altos, os bairros arborizados e os parques enormes que transmitem, facilmente, a sensação de paz. Drauzio Varella descreve alguns percursos que faz em São Paulo como treinamento para correr suas maratonas. Ele fez renascer em mim a vontade de voltar. Mas dessa vez observando, sem correria, mas correndo.

Dani Fechine

15 dezembro 2017

#DiárioDeLeitura: O casamento

Nas minhas andanças por congressos na área de jornalismo, conheci uma pessoa que me fez apaixonar, cada vez mais, pela profissão. Com reportagens literárias, em profundidade e subjetivas, fiz de Fabiana Moraes não apenas uma grande inspiração, mas também objeto do meu trabalho de conclusão de curso. Pelo Jornal do Commercio, em Pernambuco, se destacou como repórter especial, produzindo séries e grandes reportagens que marcaram a sua carreira de jornalista e a vida de pessoas que se dispuseram a ler essas empreitadas.

Um desses especiais ganhou o título de A Vida é Nelson, em agosto de 2012. Essa frase ecoa sempre, para onde quer que eu vá. Fabiana precisava encontrar histórias reais que, de tão absurdas, pareciam ficção. Foi quando descobri esse especial, agora em 2017, que resolvi me agarrar de vez a esse grande, que vez ou outra me prende a alguma história mirabolante. Já estava lendo "A vida como ela é", volume I, mas uma amiga me enviou - sem saber dessa ligação atual com Nelson Rodrigues - o livro "O casamento", o qual ela já havia terminado de ler e estava me emprestando. O livro viajou de Fortaleza a João Pessoa, mas terminei mais rápido que o percurso que ele deve ter enfrentado.

"O casamento" é uma bela viagem a uma festa que você não foi convidado, mas está a espreita, observando tudo de longe. Fico fascinada com essa capacidade inata de Nelson Rodrigues de transformar um dia, em um livro. Sem spoiler, a história se passa na véspera do casamento de Glorinha e Teófilo. E todo o livro acontece em 24h. Nelson consegue falar sobre a vida, sem imitá-la, sem entregá-la à monotonia ou clichês. 

Sempre me chamou muita atenção a recorrência de casos de traição, morte e vingança nos contos de Nelson Rodrigues. Em "A vida como ela é" as histórias estão recheadas de adultérios. Quando comecei "O casamento" tive a impressão de encontrar muitas diferenças. Uma crônica expandida sempre dá margem para muitas mudanças durante o seu enredo. Não posso dizer que o livro é mais do mesmo, porque Nelson sempre surpreende, nunca decepciona. Mas existe nele a marca da sua escrita: o toque de realidade em uma ficção mascarada pelas mentiras e intempéries da vida. 

"O casamento" nos deixa extasiado, vidrado, prontos para acompanhar um desfecho massacrante em uma festa matrimonial bem marcada e prestes a acontecer. Começá-lo nos dá uma boa vontade de terminá-lo, pois a impressão que fica é que, quando paramos a leitura, paramos também o dia. E retornamos, logo depois, de onde estávamos, como se do lado de cá da realidade as horas também não passassem. Essas extravagâncias de Nelson é que me fazem vidrar nas folhas do livro. Recheado de paixões, desarranjos e desencontros, "O casamento" não fica para trás das crônicas humanas e agoniadas de "A vida como ela é".

Quando encerrei o último capítulo, a única frase que ainda vinha a minha mente era: a vida é Nelson. Isso tudo tem a ver com pertencimento. Com sentir-se parte e carne durante a leitura. Com transportar-se para a história, imaginar cenas e cotidianos que não são os nossos e se envolver em tragicomédias até certo ponto inacreditáveis. A vida é Nelson.

Dani Fechine

28 maio 2016

Dona Ivone voltou a ser criança

Foto: Evandro Pereira

Ivone Pereira Portela, que demonstra um rápido impulso no olhar quando é chamada de Didi, tem 84 anos, mas não se reconhece mais. O olhar silencioso mostra a sua mente vagando em algum espaço que ainda está à procura. É composta de corpo, alma e coração, mas o passado não habita mais a sua vida. Há mais ou menos 15 anos Dona Ivone convive com a doença de Alzheimer e recebe de graça o amor e o carinho da filha Clarinda, que largou a própria vida e se entregou a viver mais uma: a da mãe.

Didi é vaidosa, os olhos verdes combinam com a estampa da blusa. Seu cheiro é de gente que tem saudade de si e da vida, mas que não é infeliz por isso. De pernas cruzadas, com as mãos no joelho, Dona Ivone brinca com os chinelos vermelhos combinados com a saia. Tudo isso é obra de Clarinda que, sem deixar faltar amor, cuida da mãe como se fosse filha.

De início, Ivone se perdeu duas vezes na rua e não sabia como voltar para casa. “A primeira vez uma colega minha trabalhava perto da lagoa e percebeu que ela estava sozinha e desorientada, então colocou ela dentro de um ônibus para casa. A segunda vez ela foi à casa de uma amiga e não acertou voltar”, conta Clarinda Pereira. Depois desses episódios, Dona Ivone passou a guardar os objetos em lugares completamente diferentes dos habituais. A partir desse momento, os profissionais entraram em cena. “Acho que a pessoa com Alzheimer não deve ser tirada do lar e mamãe insistia em ir embora para Patos. Ela foi e lá percebi que eu tinha que tomar conta. A pessoa com Alzheimer fora do seu lugar fica mais perdida”, Clarinda explica.

Foi quando, por amor, por carinho e por gratidão, abriu mão da própria vida. Cursava Ciências Contábeis e, mais ou menos na metade do curso, parou. Clarinda agora cuida de uma criança de oitenta e quatro anos. “Ela é minha mãe. É o meu tudo”, a filha não precisa de explicações para se dedicar à saúde de Ivone. O amor basta para as duas que, desde sempre, estiveram juntas. “Só nós duas”, Dona Ivone às vezes diz a Clarinda, que acredita ser uma missão e está à disposição para cumpri-la até o fim.

Ivone começou a esquecer até o que havia comido. Ganhou peso e mais alguns esquecimentos. Adorava passear no comércio aos sábados e, depois do Alzheimer, a senhora de olhos verdes não queria mais entrar nas lojas. Inevitavelmente, a memória de amor que guardara até o último momento, foi se perdendo. Não reconhecia mais os filhos, gravou apenas o nome do mais velho e da mais nova. Clarinda nunca esperou por isso. Não imaginava que sentiria o coração desfalecer antes do tempo. Mas quando Dona Ivone não a reconheceu mais, parecia que a morte havia chegado antes do tempo. “Foi quando eu senti mais. Isso pra mim foi a morte”, conta.

Clarinda agora é mãe e filha ao mesmo tempo. Dona Ivone acorda às oito horas e vai logo tomar um banho, lavar o corpo e esfriar a memória. Em seguida, toma a sua vitamina e descansa o resto do dia na poltrona que fica na sala. Brinca com os chinelos e o lençol, enquanto Clarinda faz os seus consertos de roupa. “Pra não enlouquecer eu inventei de fazer costura, pra ver gente e fazer alguma coisa. Só consigo trabalhar pela manhã, que ela está dando o cochilo dela”, relata.

Clarinda deixa claro e é fácil concordar com ela. Cuidar de uma pessoa com Alzheimer requer conhecimento. De causa e interior também. É preciso conhecer os detalhes, as vontades, as necessidades e o limite do outro. É realmente como se fosse uma criança que não fala, não anda e não consegue pedir o que deseja. A mãe precisa ter calma, prestar atenção e entender. Além de manter uma rotina constante, uma atenção diária, uma observação que não cessa. Com o tempo, a linguagem torna-se fácil e já é imediata a atenção que a criança recebe. É preciso tempo para conseguir tamanha sintonia. Profissionalmente, Dona Ivone recebe a visita de uma fisioterapeuta dois dias na semana e de uma fonoaudióloga, para exercitar a voz e melhorar a alimentação.

Clarinda nunca apanhou na vida, muito menos da mãe. Mas hoje, como uma criança chateada nos braços da mãe, Dona Ivone dá tapas no rosto da filha, mas já com pouca força. “No início quando eu ia fazer a higiene dela, apanhava muito na cara”, Clarinda conta sorrindo. “Quando ela percebe que eu estou mandando, ela faz por pirraça. É um menino mesmo, só faz o que quer. Tem hora que ela sabe o que está fazendo”, completa. Dona Ivone nasceu agora e ainda está aprendendo a lidar com esse mundo que não a compreende. Mas já reconhece nos braços da mãe – ou da filha – o aconchego que precisa.

O olhar de Clarinda é com amor. Mas um amor que ultrapassa patologias. Um amor que reconhece no outro apenas a necessidade de ajuda. Um amor sincero que não vê doença. “Se você for olhar a doença, você chora, entra em desespero. Uma pessoa com Alzheimer precisa, principalmente, de muito amor”, diz. E isso não falta para Ivone. Transborda em abraços, em beijos, poemas e carinho. Transborda em cuidado, em atenção e saudade, mesmo na presença, mesmo ao lado. E é recíproco. Dona Ivone só quer carinho. E não é poupada disso.

“Os idosos com Alzheimer são muito carentes, porque todos se afastam”, Clarinda relata. Mas, ainda assim, Dona Ivone que prefere ser chamada por Didi, sorri e parece gostar das brincadeiras de Clarinda. Ela pode, inclusive, não se reconhecer ao se olhar no espelho, mas se alegra com os pequenos detalhes, porque felicidade não requer sentido.

Dona Ivone sempre foi muito dinâmica, sempre procurou fazer alguma coisa. Clarinda, inclusive, herdou dela o gosto pela costura. Mas, de repente, foi deixando os seus costumes e hoje é a filha que assume a casa. Clarinda costuma dizer que Dona Ivone não é mais a mesma. É o corpo dela que está sentado na poltrona. “Cadê mainha? Mainha já se foi. Acho que ela só está cumprindo o tempo dela”, desabafa. A saudade chega antes mesmo da partida.


Tudo isso se chama agradecimento, não cuidado. Clarinda já foi a filha acalentada nos braços de Dona Ivone, mas hoje é ela que embala os sonhos da mãe. Como uma gravidez às avessas, filha e mãe trocam de papel.

Dani Fechine (originalmente publicado no Jornal A União)

Gregório Duvivier, um autor-ator

Autor-ator, ator-autor. Não se sabe. Gregório Duvivier é uma mistura inteligente de fazer graça com as palavras. Escreve com tanta personalidade como quando atua. Seus passos em paco são palavras embaralhadas, improvisadas. As linhas do texto são cenas protagonizadas em ensaio.
Gregório Duvivier é um ator, mas também humorista, roteirista e escritor. Ficou conhecido pelo seu trabalho no cinema e no teatro e, desde 2012, tornou-se o Gregório do Porta dos Fundos, canal de humor no youtube. É autor dos livros A partir de amanhã eu juro que a vida é agora, Ligue os pontos – Poemas de amor e Big Bang, Put Some Farofa e Percatempos – tudo que faço quando não sei o que fazer. Gregório Duvivier também assina uma coluna semanal na Folha de S. Paulo.
No dia 22 de novembro, o escritor participou do evento Campus Festival, falando sobre a sua vida profissional, bem como declarando opiniões a respeito de determinados temas que costuma tratar em suas colunas, como a religião e a legalização da maconha. Vem conferir e conhecer mais um pouco desse cara!

Dani Fechine: Como foi a sua carreira até atingir esse momento que você vive hoje?
Gregório Duvivier: Sou ator, antes de mais nada. Comecei a fazer tetro com nove anos de idade, então sou apaixonado por teatro, é isso que me define. Mas aos poucos fui descobrindo o prazer de escrever, inclusive, para teatro. Porque eu acho que o autor consegue dizer o que pensa e o ator não. O ator só diz o que pensa através dos trabalhos que ele escolhe. Então eu senti a vontade de dizer o que eu pensava e comecei a escrever para teatro, fazer vídeos. O Porta dos Fundos veio exatamente para isso. A gente queria ser autor-ator, gênero que eu acho muito legal. De modo geral tenho escrito e atuado por aí.

DF: Quando foi que nasceu o Gregório ator, humorista, e o Gregório escritor?
GD: O Gregório humorista nasceu no tablado, no teatro mesmo. Quando comecei a fazer teatro eu vi o poder do riso e isso é viciante. Supre uma carência de todos nós, eu acho, de aprovação, de afeto. Em geral o humorista não se declara humorista, as pessoas é que o declaram. Só quando subi no palco foi que eu percebi que as pessoas estavam rindo de mim.

DF: Qual foi o momento mais decisivo da sua carreira?
GD: Foi quando eu saí da Globo para fazer o Porta. Nós [a equipe do Porta] éramos contratados da Globo e escolhemos sair daquela emissora, que era um emprego seguro, para fazer o nosso próprio negócio. Foi um momento bem decisivo.

DF: Quem são seus grandes inspiradores?
GD: No humor, tem o Millôr Fernandes, com um humor das antigas, escrito e desenhado. Como ator, o Pedro Cardoso, que é um cara que eu amo, Fernanda Torres também acho genial, brilhante. A gente tem no Brasil essa tradição de bons atores-autores, como o Pedro e a Fernanda. Atores que escrevem muito bem ou autores que atuam muito bem. Lá fora, claro, destaco Woody Allen. Gosto muito das pessoas que fazem humor com drama. Chaplin, por exemplo, acima de tudo. Pessoas que fazem humor com poesia, sobretudo, acho que isso é muito fundamental.

DF: Você se imaginava chegar até onde você chegou?
GD: Sim, mas eu imaginava na verdade coisas muito maiores. Quando eu era pequeno eu imaginava que eu ia ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Eu tinha ambições muito maiores que essa. Achei que com 29 anos já teria morado em oito países diferentes e nem saí do Brasil praticamente, nem nunca morei fora. Achei que eu fosse ter resolvido vários problemas internacionais, e eu não fiz nada.

DF: Você acha que é possível quebrar o lado conservador da mídia?
GD: Sim, eu acho que é função de todos nós escrevermos, empurrarmos as fronteiras. Porque as pessoas falam sempre que não pode. O jornal está dizendo o tempo todo a maneira como você tem que escrever. Na faculdade de jornalismo você aprende o tempo a pirâmide invertida. Eu acho que é tarefa nossa dizer: “quem falou que é assim?” O jornalismo sabe mesmo fazer? Os donos dos jornais estão falindo, então você querem dizer pra gente como é que faz? Então, de modo geral, tem-se muito a aprender com quem está escrevendo hoje, os jovens principalmente, e os jornais têm que aprender com eles. O modelo antigo do jornalismo, inclusive vinculado a grandes empresas e interesses privados, está caindo, está decadente. Os grandes jornais estão sempre ligados a grandes famílias de poder no Brasil. Isso eu acho criminoso, é sinal que nós somos um país muito atrasado em relação à liberdade de imprensa. E acho que a internet está mudando isso. Nós temos uma imprensa mais livre, eu acredito muito no poder da internet quando se trata disso.

DF: Os seus textos da Folha, geralmente, causam muitos debates na mídia. Como você lida com o confronto de opiniões?
GD: Eu acho que a competição é muito necessária. É muito importante as pessoas discordarem de você. Particularmente, eu não gosto muito de me envolver em brigas na internet, porque eu acho que elas são pouco frutíferas. Acho bom os diálogos interessantes. Me incomoda os diálogos ofensivos, que te desautoriza e parte para taques pessoais. Esses eu nem leio, porque sei que vou me magoar.

DF: Quais dificuldades você encontra para defender as suas bandeiras sociais e políticas?
GD: Eu acho que a gente vive num país que está com a democracia ainda muito verde, começando. As pessoas não estão acostumadas a discordar. Me incomoda que o Brasil ainda seja um país muito conservador. Um país onde nunca houve uma grande revolução, apenas golpes. E os golpes no Brasil não vieram para mudar a estrutura social, vieram para dar continuidade. Então, de modo geral, o Brasil é um país que não sabe mudar e não quer mudar. Penso que nós somos muito retrógrados e antigos. O aborto no Brasil, por exemplo, nem está sendo discutido direito. As drogas, ninguém fala de drogas sem preconceito. Os Estados Unidos são também um país conservador, mas eles já perceberam que algumas batalhas já se perderam e que é melhor regulamentar do que fazer a guerra às drogas. Além disso, ninguém vai conseguir acabar com o aborto, ele vai continuar sendo feito, mas de forma perigosa para a mulher. Então tem que liberar exatamente para que ele seja mais seguro.

DF: Como você acha que a internet, o humor, a arte, podem ajudar no debate político da sociedade?
GD: Eu acho que a internet possibilita você a ter diálogos mais horizontais. Eu acho que assim as coisas se resolvem melhor. Vertical é o que o jornal faz, é uma pessoa que diz o que você vai ler todos os dias. É uma relação de poder. E na internet é uma relação horizontal, você escolhe o que você vai ler. Você está falando de igual para igual com o leitor. Jornalista e leitor são semelhantes e isso é muito poderoso. Você passa a ter outro tipo de relação entre conteúdo e leitor, entre produtor e conteúdo, entre consumidor e conteúdo. Você vai ter relações mais livres. E eu acredito muito nisso: internet livre, conhecimento livre. Acho que isso é muito utópico, mas é muito bonito acreditar nisso.

DF: De quem surgiu a ideia de colocar no Porta dos Fundos os debates religiosos, sociais, políticos?
GD: A gente sempre gostou disso. Porque eu acho que o tabu é uma grande inspiração para a comédia. O humor bebe muito no risco, no proibido. Por isso é tão comum crise de riso em velório, enterro e, de modo geral, aquilo que você não pode rir é a coisa mais engraçada que tem. Então a gente se alimenta muito de tabu, com certeza. E acreditamos muito que a piada é muito poderosa. Acreditamos no poder do humor.

DF: E quais são os planos daqui pra frente?
GD: Continuidade, acima de tudo. O problema da internet é que as pessoas fazem tudo achando que é um hobby e não leva a sério, não continua. E a gente quer, sobretudo, continuar fazendo o que a gente faz. E eu quero continuar escrevendo, continuar atuando. Esse ano teve a peça do Porta, ano que vem o filme. Tem sempre outros braços que a gente vai esticando.


Futebol é a gente



"Futebol é um fato social total". Ouvia isso desde o primeiro ano de curso, na UFPB. Passei um ano e meio pra escutar a frase da boca do autor. De início, ouvia sem pretensões. Não analisava muito bem. Depois, tudo passou a ser mais importante que o jogo em si.

Sempre tenho muito receio de escrever qualquer parágrafo sobre futebol. Parece que meu facebook tá repleto de olheiros. Mas preciso aqui dizer algumas coisas. Uma delas é que em uma arquibancada minha atenção vez ou outra recai por instantes decisivos sobre a torcida. É nesse momento que começo a entender o sentido da frase lá de cima. Presto atenção em gente tanto quanto presto atenção no jogo. Mas certas coisas são capazes de desviar de vez o meu olhar.

A senhora, por exemplo, que carrega embaixo do braço uma bandeira do Brasil com escudo do Belo. Vovó, sinta-se abraçada por mim. Você representa o futebol como fato social.

A família que não poupou esforços pra ver o time jogar. Esses eu não consigo me conter. Um casal, uma filha e ao lado uma criança no bebê conforto completando a multidão de espectadores. Vocês representam o futebol como fato social.

A criança que implorou ao pai ou a mãe pra vestir o uniforme completo para ir ao estádio ver o jogo. Calção, camisa, chuteira. Esse pra mim já é um artilheiro ou um zagueiro arretado. Você, assim como muitos outros que não citei, representa o futebol como fato social.

Além disso, nessa arte bonita da bola, quem é do meu time parece me conhecer de criança. Acordo cedo, visto a camisa, o tênis, vou embora pegar ônibus. Dou de cara com um sorriso escancarado do cobrador fazendo sinal positivo. Meu dia parece que vai ser bom. Passo o cartão. Giro a roleta. "Vai hoje?", "Vamos", respondo. Já me sinto completamente acolhida por aquele olhar. "Oito e meia, né?" e ele se despede de alguém que sequer conhecia, mas já adquiriu simpatia enorme só pela estrela vermelha estampada no peito.

Por último vem a declaração de alguém que não é tocedora, mas que ama uma torcida. Vem a paixão de uma menina que ama futebol, mas não se apega tanto assim ao time (exceto o Brasil - sem julgamentos). Vem também a admiração de uma espectadora que não se importa em vestir a camisa de um time que conhece ainda muito pouco, afinal, ali, naquele momento, ela era gente como eles. Era uma torcedora de gritos, pulos e ansiedades. Era família. Futebol é a gente.

Dani Fechine

05 outubro 2015

Saudade de domingo

Ilustração: Puuung

A saudade mais bonita é a mais simples. Eu a chamo de “saudade de domingo”. E por isso, ela é toda tua. É a saudade que não machuca, não dói nem desespera quem sente. É a saudade que faz estar presente o amor que se sente, o carinho que se tem, o companheirismo que não se perdeu. A saudade de hoje. É essa a saudade mais simples. E é tão bonita quanto qualquer outra. É a saudade logo após a despedida. A saudade que fica depois de tanta presença. A saudade que se mata rápido, mas que fica grudada na gente em forma de amor.

O domingo da saudade é o mais domingo de todos. A pele branca, macia, que as mãos escorrem facilmente, não se tem ao lado para acariciar. Os cabelos que permitem penetrar os dedos também se ausentaram. No domingo da saudade as pernas não se entrelaçam, o tempo passa mais devagar, o jogo é menos interessante, a leitura é a saída e, de novo, a saudade é companhia. Não é necessidade. Apenas vontade, de tudo isso que falo, de tudo isso que se faz.

Sentir saudade, nesses casos, é confortante. É saber que ama, é ter certeza do que quer. De quem se quer. Essa saudade não é caos, é paz, tranquilidade. É saber que existe um oásis logo ali, ainda que ausente no momento. Nesses casos, sentir saudade é deixar sorrir na boca um sorriso tímido, que não mostra os dentes, mas resume tudo que se diz no coração. É ver o tempo passar devagar, enquanto o coração acelera por um abraço. Um aconchego. Um cheiro no olho.

A saudade de domingo você encontra no olhar. O olhar que pede pra ficar ou que não entende a despedida. O olhar que pede sono, sonho. Mas não pede adeus. É a saudade que fica mesmo quando tudo está ali. Mesmo quando nada parece ter fim, quando o dia parece não mais acabar. Mas que, uma hora, acaba. E o sorriso que antes era frouxo, vez por outra vai perdendo a força. As brincadeiras começam a se esgotar, mas não por cansaço, não por tristeza, e sim por saudade. Do último minuto. Da discussão de quem canta pior. Do pênalti que não aconteceu. Do filme que poderia ter sido melhor. 

A saudade que fica pelos ares é o que eu chamo de saudade de domingo. Tem cheiro de amora, é doce como um vento de primavera e acomoda, relaxa, tranquiliza como uma rede a balançar num campo verde. A saudade de domingo às vezes é a saudade da vida toda. A saudade que não se mata, mas que se renova. A saudade que mantém vivo o coração que derrama de amor. Essa saudade, acho que posso afirmar, é aquela que não machuca. Apenas emudece. Pede bis. Pede abraço. Pede aconchego. Pede um pouquinho, eu sei, de eternidade. 

A eternidade mais efêmera é ainda a companhia mais duradoura. É achar que não existirá fim e aproveitar como se houvesse. E que vai haver, claro, mas a gente não precisa saber. Não precisa esperar. Basta sentir no último minuto e voltar, do portão, para abraçar mais uma vez. Porque parece meloso, parece romântico demais, utopia até. Mas é só saudade de domingo. Saudade das pernas esticadas, dos cochilos sincronizados e das faltas não marcadas. Saudade de domingo é saudade de rotina. De amor. No domingo, ame o máximo que puder. 

Dani Fechine

14 maio 2015

carta a um conhecido desconhecido


O vazio me ocupou inteiramente desde o seu sumiço. Não um vazio qualquer, mas um vazio de dor no peito e lágrima nos olhos. Um vazio de verdade. Ao longo do seu sumiço, tive gratas surpresas, quis como nunca que você estivesse presente, mesmo na ausência, quis que você fosse o primeiro a saber, como sempre foi. Tenho certeza de que você ficaria muito feliz. O tempo, aquele que eu amaldiçoei ao longo de muitos meses, passou. E passou rápido. Voando. Mas levou um pouco de você. De mim. Levou um pouco de nós. Aos poucos, levou tanto que hoje já não se tem. Agora, sinto a dor te ver ir embora quando tudo era tão perto. Como dói te ver sair de fininho, com explicações vãs que não condizem com aquele exemplo de lealdade de tempos atrás. Como dói perceber que você não me deu a chance de inverter as formas, de me deixar sumir ao invés de te ver ir. Dói saber que ao longo desses caminhos tortos, você priorizou os errados circunstanciais de mim ao invés das conquistas mais bonitas de nós. Dói não ter você do outro lado. Ouço uma música, de uma banda que estava na lista das coisas legais que descobri esses dias. Ela me soa como súplica. Não consegui terminá-la: machucava a cada nota. Fiz como você, interrompi abruptamente. Hoje, não quis ouvir o "come back to me" do refrão. Sabia como seria o final: dolorosamente sem você. Do lado de cá, o meu irmão casou, comprei um exemplar do grande mentecapto e obtive uma grande conquista. Você se orgulharia bastante, e eu sinto tanto por não poder ver a tua felicidade como reflexo da minha... Do lado de cá, a tua ausência tem doído como nunca. Do lado de cá, vejo as coisas do passado sem perspectiva de futuro. Do lado de cá, me vejo mortificada ao constatar que os recortes mais bonitos da minha vida são impedidos de sair por culpa da tua ausência, do teu não estar. Fomos sorrisos. Somos saudade. E eu juro juradinho: que saudade!

Elisa Damante

02 maio 2015

Meu cárcere é minha escrita



Eu não queria ser dependente da escrita. Escrever por necessidade é depender de si mesmo, depende da sua coragem, da sua disposição e até da sua energia. É depender de que você não vai chorar ou, simplesmente, também não vai largar o barco. Eu não queria viver presa na minha própria imaginação.

Quando falo desse cárcere, é apenas no sentido do desabafo. Do jogar pra fora. Deixar no lixo. Falo do escrever para não implodir. Até porque, se eu dependesse da escrita para viver, não tenho dúvidas que a minha vida seria exatamente como esperei que fosse: frenética, multicor e sem monotonia. Mas falo da incapacidade de falar. De explodir com as palavras verbais, de gesticular, chorar no ombro do outro. Escrever para não explodir, isso eu não consigo. 

Não. Eu não queria estar presa na minha escrita. Não queria fazer dela o meu único escape de leveza. Embora me sinta muito bem quando coloco o último ponto final – e seria um grande egoísmo se eu não assumisse isso – não gostaria de ter que recorrer sempre ao papel, ao computador, ao celular, ou que quer que seja material, físico, para que eu me libertasse de mim mesma. Não queria depender da minha própria liberdade literária para sentir-me livre. 

É difícil estar presa a si mesma. É difícil confiar apenas numa folha de papel em branco. E, aliviando os mais próximos, posso dizer que a questão da confiabilidade é o mínimo dos problemas. O peso mesmo está comigo. Está no fato de achar que ninguém merece ouvir os meus problemas, as minhas queixas, os meus lamentos ou até as minhas alegrias – e não merecem mesmo. Assim como eu, cada ser humano tem a sua vida pra cuidar, pra resolver, pra se preocupar, pra se alegrar, pra se queixar, pra fazer o que bem entender com ela. Não é dever meu ocupá-la com mais uma.

Então, o que faço – e não estou dizendo que isso é o certo, até porque, nesse caso, certo/errado é um contexto relativo – é resolver comigo mesma. As vezes é até mais rápido e sim, sempre dá um resultado mais satisfatório. Infelizmente sou do tipo de pessoa que não gosta de conselho, quiçá pitaco. Se, eventualmente, desabafo com alguém da espécie humana, deixo um recado no final: não precisa dizer nada, eu só precisava falar.

E não deixa de ser uma escrita às avessas. O papel, por exemplo, não me responde. Eu me auto medico. Quando faço esse apelo a algum amigo (a) é como se o papel estivesse em minha frente – e, claro, isso também não é um menosprezo. É que a necessidade de liberar o que tem dentro de mim com palavras, é muito maior do que com uma conversa. Dependo muito mais de mim, do que da escuta do outro. 

Talvez seja uma breve avaliação que, dessa forma, consigo fazer do meu problema. Escrevendo – e isso falo com propriedade – tudo clareia um pouco. É possível até recorrer aos escritos e avaliar melhor a sua fúria de palavras. Aquele emaranhado de frases, muitas vezes desconexas, deve dizer alguma coisa. E olha que incrível: é você mesmo que está dizendo isso, involuntariamente. 

Não é por outro motivo, é justamente por esse, que agora eu termino esse texto. Pela precisão de expor essa necessidade infeliz de mim mesma. Do papel. Da escrita. Das palavras. Da literatura. Penso que nunca conseguirei me distanciar disso -  e não quero. Escrever é o meu carma e, ao mesmo tempo, minha sorte, meu destino. Escrever movimenta: a mente, o coração, a razão e a emoção. É o calabouço com o maior número de respostas. Eu não queria necessitar da minha escrita para não implodir, mas que já que é assim, então coloco o ponto final nesse texto. Desabei intrinsecamente. E sou tão mal agradecida que escrevo um texto reclamando dessa solução infalível que é desabafar ao papel. 

31 março 2015

Alícia


“Desisto de ser feliz”. Foi pronunciando essa frase que Alícia entendeu o quanto é fácil desistir de qualquer coisa, mas também o quanto dói querer desistir da própria felicidade. Percebeu de imediato o quanto a frase, ainda que dita mentalmente, podia destruir seu coração. E o quanto, também, não queria dizer aquilo. Mas estava infeliz e disso Alícia não tinha dúvidas.

O noivado já não lhe trazia os mesmos risos leves de antes. Sentia-se presa na sua tentativa de ser feliz simplesmente por ter alguém ao seu lado que a fizesse sentir única e admirável. O noivado não lhe trouxera os desejos que havia feito na juventude. Sentia-se só, mesmo com ele ao lado. E, ainda pior, sentia-se incapaz de ser compreendida. Evitava a fadiga e se apegava ao silêncio. Ela fala como ninguém sem pronunciar uma única palavra. Gritava por dentro. Derretia-se em lágrimas quando dava. Mas não se conformava: não podia ser infeliz. 

Seu emprego não lhe deixava entusiasmada. Esquecera o sonho profissional com tantos desencontros na carreira que escolheu. Não podia, mas não podia de maneira nenhuma permanecer o resto da vida num lugar que não lhe trouxesse sequer um sorriso por dia. Precisava gargalhar e ali não conseguia mais. Queria sair de casa sabendo que encontraria no outro lado da cidade a realização do que seria a profissão da sua vida. Mas até nisso não era contente. 

Ela mesma já não se fazia feliz há meses. Gorda ou magra, não importava, poderia ter o corpo de Gisele Bündchen, a boca de Angelina Jolie e os cabelos escorridos de Cameron Diaz. Estaria infeliz, porque sabe que não é seu corpo que devolverá os seus sorrisos. É a sintonia dele com sua alma. Alicia não gostava mais do espelho. Com um rabo de cavalo simples no cabelo ia pra qualquer lugar. A calça rasgada fazia companhia ao blusão. Abandonara o carmim e o rímel.

Alícia precisava desistir. Mas desistir de boicotar a própria felicidade. Era seguir em frente de cabeça erguida que a faria sorrir da vida que tem. Se não está feliz, tenta. Para. Pensa em si. “O que é melhor pra você, Alícia?” Ouvia diariamente do amigo que contratara para ser seu fiel conselheiro: o papel. De tanto escrever, entendeu. 

Entendeu que a sua vida era ela mesma que pintava. E era ela, também, que escolhia se seria feliz ou não. Alícia demorou, mas entendeu que não adiantava sentar na cama e pensar no porquê. Era preciso fazer melhor: levantar da cama e falar “por que não?” E assim o fez. Acordou querendo conquistar o mundo. E conquistou. Conquistou o seu próprio mundo. Entregou a si mesma o presente de viver uma vida satisfatória e largou tudo que lhe fazia enterrar-se num mundo sem cor e sem graça.

Do preto e branco que pintava a vida, só ficaram as roupas em dois tons que não largava por nada. De resto, resolveu pegar do arco-íris todas as cores e salpicar em sua rotina todas elas numa mistura clara. E bonita. Do que deixou pra trás, não nos diz respeito. Se continua tentando ser feliz no seu relacionamento, também é uma questão que só Alícia deve tratar. Se largou o emprego, não importa. O que vale narrar e escrever é que Alícia resolveu acordar do pesadelo de que a vida é do jeito que lhe entregam e que nada mais se pode fazer. O que importa mesmo, o que vale, é que a gente tem a vida que a gente quer. E se a felicidade for cláusula obrigatória, é assim que ela vai ser: feliz. Chega de reclamar, Alícia agora vive. 

Dani Fechine

01 fevereiro 2015

Com você



Eu tinha saudades de você antes mesmo de te conhecer. Saudades de chegar em casa e ter alguém pra conversar, de sentir tua mão passando nos meus cabelos e de ter o teu abraço como proteção. Antes de te conhecer eu já tinha saudade do teu jeito livre e ao mesmo tempo preso a um amor que tenta caminhar dia a dia no caminho certo. Antes, quando nossos destinos ainda não haviam se cruzado, eu sentia falta dos teus sorrisos, dos teus trejeitos e de toda essa simplicidade que encanta.

Antes de te conhecer tudo era espinho. As roseiras pouco floresciam e as folhas sempre estavam secas. O chão não molhava com a chuva, o frio não cessava e o calor quando chegava também não amenizava. Antes de você tudo era calmaria, silêncio e um caderno de páginas em branco. O céu quase sempre nublado, o pôr-do-sol sem cor e o amanhecer sem nenhum pássaro para cantarolar pelas janelas do quarto.

Quando tudo era indiferente, você disparava sorrisos. Quando o ranger de dentes era maior, você trazia abraços. Quando tudo era preocupação, você era a calma. Quando nada parecia dar certo, você era a conquista. Enquanto tudo caía, você me levantava. E me reerguia. Quando o mundo pesava demais, você segurava a minha mão. Estávamos juntos, mesmo que não lado a lado. Enquanto eu andava me equilibrando no meio fio, você me puxava para si e colocava-me novamente em órbita. E quando tudo era barulho, você foi silêncio. Eu explodia e você juntava os cacos. 

Depois que você chegou todas as roseiras floresceram e o que era chuva, agora brilhava em raios de sol. Depois de você a vida ficou mais fácil e mais bonita. Nas contradições, nós éramos unidos demais. Você era futebol e eu era poesia. Você era campo, eu era a folha. Você era a bola e eu o lápis. Enquanto você chutava, eu escrevia. Se você era a trave, eu era as linhas. E se você era jogador, eu era personagem. Quando você era técnico, eu era escritora. E nessas dissonâncias todas, éramos um. Você também era poesia e foi pela tua multiplicidade que eu me apaixonei.

Depois que você cruzou o meu caminho ele nunca mais foi o mesmo, sequer ficou reto. Nossas linhas foram tão tortas que vivem se cruzando por aí e não desenrolam mais. Aliás, se elas não fossem tão tortas nunca teriam se encontrado. E é por isso que hoje eu sou dividida no antes e depois de você. Antes o coração sequer batia, hoje ele acelera cada vez que te vê sorrir. Antes eu era poesia triste, hoje falo de um amor que deu certo. Antes eu escrevia pra mim, hoje estou aqui e escrevo pra você. 

Dani Fechine

22 janeiro 2015

Liza



Um anjo que foi colocado no mundo para amar. A moça foi feita para espalhar o amor e senti-lo como ninguém. Era serena. Mas transbordava paz. E compaixão. E sensibilidade. Solidariedade também era uma marca daquela que tanto deu de si e quase nada recebeu. Esqueceu-se de ser solidária consigo mesma. Era o amor tomando conta do seu corpo. Ele tem desse poder avassalador de nos tirar do mundo.

Amou. Ah, como amou! Poderia doar esse sentimento para esse mundo que tanto precisa dele. Mas, nas histórias de amor, amar significa sofrer. A moça de cabelos negros não media sentimentos. E era bela por isso. Era bela porque não rotulava o seu amor, nem menosprezava o que pulsava em seu coração.

Doía hoje. Doía muito. Rasgava o peito, perfurava a alma. Mas acordava viva no outro dia. Disposta. O sol a chamava sempre pra ser feliz. E ela ia. Não importava como, de óculos escuros ou inteiramente maquiada, desfilava pelas calçadas reluzindo o dia com seu sorriso de quem tem Deus muito presente no coração.

A moça, se você ouvir seus causos, vai parecer fraca. Mas era firme. Sustentava-se no seu próprio presente, sabia que hoje talvez não desse certo, mas amanhã ela seria capaz de mudar o mundo. Era forte. E isso todos viam de longe. Seus olhos amendoados transpareciam certeza. Certeza de que a vida sempre teria algo de bom para presenteá-la. Fosse um amigo, fosse um livro. Era segura. Juntava uma mão na outra e era capaz do mundo cair ao seu redor e ela não perceber. Era segura num Deus que não abandonara jamais. E nunca iria. Era segura também de si. Era maior do que as quedas que a vida poderia lhe dar.

Essa menina, que tem muito mais de mulher do que de moça é feliz. Ela sorri porque acredita que a beleza do seu dia estará ali, naqueles dentes a mostra, naquele hálito de quem acaba de acordar e que não aceita mau humor. Ela é feliz porque além de não dispensar as energias positivas da sua vida, também não dispensa as pessoas certas para despertarem no seu íntimo novas sensações que descobre diariamente. Ela é feliz porque consegue, sem máscaras, sem filtros, ser ela mesma. Consegue, sem sequer ter dificuldade, não desvirtuar de quem é de verdade.

Essa moça, essa menina, essa mulher, não precisa de alguém para fazê-la feliz, porque isso ela já consegue com os passos que dá na vida. Ela precisa é de alguém para dividir essa alegria, porque, como falei, é generosa, é solidária, e isso a faz feliz, realizada. Essa moça precisa de um amor para dividir o seu, um amor que compartilhe da vida e dos prazeres que o sorriso largo no rosto oferece. Essa moça que ama como ninguém, tem o direito de ser amada. E é!

Dani Fechine

21 janeiro 2015

Casamento



Dez e meia. Não havia mais ansiedade que fizesse meu coração disparar. A igreja encantava aos olhos de todos e os meus já não aguentavam mais segurar as lágrimas. Ela entrou deslumbrante. Triunfante, eu diria. Simples, como sempre foi. O nude marcando a boca e o vermelho pulsando no coração. Ele passava as mãos uma na outra. Estava nervoso. A distância entre eles nunca foi tão grande. Queria estender a mão para encurtar o caminho, mas decidiu admirar, aquela que seria a mulher da sua vida, deslizar pelo tapete. Ele. Ela. Casando, os dois. Difícil acreditar. 

Eu estava em pé, bem ao lado do altar dos noivos. Fui escolhida pra ser madrinha e nada mais bonito que testemunhar o amor de dois grandes amigos. Logo eu. Eu que tanto torci por eles. Eu que presenciei desde a infância a união de duas crianças que, quando adultos, tornariam-se um só. Eu que hoje tento conter a emoção de ver o sorriso largo no rosto dela e os olhos brilharem nas feições dele. 

Os dois estavam lindos, juntos. Ao beijá-la a testa na chegada ao altar pude perceber a felicidade escorrer pelos olhos dele. Naquele instante eu sabia o que felicidade significava. E era amor. As mãos foram cruzadas e parecia que nem mesmo um grande vendaval fosse capaz de desgrudá-las. Tanto tempo esperando por esse momento, enfim, realizaram o que seria um sonho a dois. 

Ela, numa beleza cândida, era capaz de reluzir o mais obscuro lugar. Ele, ainda sem acreditar que seus sonhos estavam sendo escritos, transparecia satisfação. Os pais, compartilhados durante os anos juntos, não se continham. Os filhos estavam voando para um só ninho. Acabavam de se despedir de uma vida para começar uma nova. E, embora fosse difícil entregá-los a outras pessoas, os quatro exalavam a confiança necessária para que seus filhos proferissem o “sim” sem preocupação.

Eu, que daria a minha felicidade para vê-los sorrindo como estão, abaixo a cabeça numa forma de agradecimento. Não peço mais nada. Minhas preces já foram atendidas: enfim, trocaram as alianças. Mas rogo para que nada se dissipe, tudo se engrandeça. Sorrio disfarçadamente, sem mostrar os dentes, respondendo a tudo que estava acontecendo a minha volta. Pisco os olhos devagar. Sinto que minha missão chegou ao fim. Estou feliz.

E, como um selo do amor eterno, o beijo que deram pela primeira vez ainda na escola foi refeito doze anos depois. O que eu via eram duas crianças na inocência do primeiro encontro. Dessa vez, se iniciava o começo do resto de suas vidas. Ele. Casando. Com ela. Descobri a felicidade.

(...)
A vida prega peças. (...) A vida é quem dita as regras.


Dani Fechine

28 dezembro 2014

Maria Helena


Helena. Sempre achou que esse nome fosse escandalosamente forte. Registraria assim a sua filha se esse não fosse já o seu registro. Nome de mulher que luta. Batalha. Nome de mulher que chora, mas não se destroça. Helena é nome de mulher, não de menina. Pedra por fora, estranhamente delicada por dentro. Esse nome é digno de fortaleza. De compreensão. De força. Helena é nome de mulher guerreira, serena, que não se abala (facilmente). Mas Helena, em nome, em letras, grafada em papel, é apenas a casca de Maria. Maria Helena.

Por dentro, Helena é outra. Helena é Maria. Maria que luta todos os dias, Maria que acorda cedo, que trabalha, que tem filhos, que é casada, que tem casa, que ama, que sofre. Mas que vive. E não é menos forte por ser mulher. Não é menos forte por ser mãe. Não é menos forte do que ninguém. Mas Maria chora. Maria sofre. Maria se entristece. Maria se enclausura no seu próprio mundo, porque todo mundo precisa de um pouco de solidão na vida. Maria tenta viver a Helena que queria ser, mas foi com a grande Maria que a vida lhe presenteou.

Maria pensa. Maria reflete. Maria conversa. Meticulosamente centrada nas suas próprias decisões. São centenas com o seu nome, mas Maria é Helena. Maria é única.  Nos seus trejeitos, na sua peculiaridade de ser Maria, de ser mulher, de ser Helena, ela é especial. É uma, no meio de tantas cópias projetadas para fazer o mundo girar no sentido correto da rotação. Maria vai contra. Prefere acompanhar a translação. Prefere viver ao contrário. Prefere nadar contra a corrente, porque se não for difícil, ela diz, “não há reconhecimento, nem mesmo o meu”. Tudo, até as nossas próprias conquistas, só são devidamente reconhecidas se o esforço for proporcional à vitória. Maria sabia disso. E preferia lutar.

Mas era frágil. Frágil no sentido de amar. Amava como ninguém. Era capaz de amar o inimigo. Maria como Helena não se encontra facilmente. De pulso forte e de um coração que transborda compaixão, solidariedade, honestidade e paixão pelas pessoas. Esperança pela humanidade. Fé numa vida que não é a melhor que poderia ter, mas é a melhor que consegue. E não se preocupa com isso. É feliz. Helena como Maria é mais batalhadora que muita gente. É brasileira. E só para por carinho.

Helena também é Maria. E é incrivelmente inteira, não se faz nunca em pedaços, não se desmancha no ar. Busca em livros o resgate da monotonia, o aprendizado que não lhe foi suficiente e a coragem para repassar cada ensinamento aos seus filhos. Maria escreve. Mas escreve poesias. É na rima de cada verso que se faz realizada. Parece que não, mas Maria pode sempre te surpreender. Seus cadernos cheiram às rosas do seu jardim, roseiras vermelhas e cor de rosa, porque é lá que encontra inspiração. Puxa um banquinho, senta ao lado e escreve com o grafite que se faz suficiente. Às vezes cruza as pernas e é no chão mesmo que sente a natureza se fazendo em palavras. Maria é poesia. Helena é poema.

Assim, como numa canção de Chico Buarque, como na voz de Caetano ou de Gil, temos Maria Helena. Que cantarola esses mestres durante todo o dia, porque, felizmente, foi na poesia que se criou. Ela se criou. Não deixa de ser Maria porque é Helena, mas passa a ser Maria Helena quando é de fortaleza que estão falando. Ela é o pilar da própria vida. 

Dani Fechine

26 novembro 2014

Clara



Na multidão silenciava, na introspecção se divertia. Clara era aquela que ninguém conhecia, mas que carregava consigo um amor inabitado. De livro nas mãos andava pelas suas e onde parava abria na página em que terminara na última vez. Não perdia a progressão. Tinha uma memória larga e um pensamento vasto. Nos momentos de intervalo de uma leitura a outra, Clara imaginava o que poderia vir nos próximos capítulos. Criava os seus próprios personagens para que fossem logo quebrados nas linhas seguintes. 

Sobre ela? Ah, Clara era personagem do seu próprio mundo desconhecido. Amara em silêncio aquele que já a amou em voz alta. Era impedida por ela mesma de voltar atrás. O orgulho sempre foi maior que o seu coração. Esse é um defeito seu que ainda não aprendeu a superar. Nem suas leituras diárias e repletas de vidas interligadas e entrepostas na sua foram capazes de mudar um pouco o individualismo vaidoso que carregou 22 anos da sua vida. 

Clara amava como ninguém. Era da moda antiga. E infinitamente capaz de entregar-se ao sentimento. Mas não ao homem a quem deveria receber esse amor. Clara era dela e somente dela. Vivia habitada no seu mundo meio cinzento e espalhava o seu amor aos quatros cantos. Do quarto. Perdeu a crença nas pessoas. Tanta leitura, tanta imaginação. O seu mundo pessoal e introspectivo parecia mais interessante do que a gritaria lá de fora. Não deixou de recriá-las. Ouvia Chico Buarque no banho, mas pela melodia, pela poesia. A melosidade nunca lhe agradou. Era feita de espinhos internos onde a subjetiva entrava rasgando tudo. 

Escrevia. Mas escrevia para si. Não era sua intenção explodir o mundo inteiro com palavras que nunca foram ditas. Nunca quis ocupar as pessoas com seus questionamentos e suas teses infantis, mas racionais. Se tinha uma coisa que Clara tinha certeza é que ela sabia. Sabia do que sentia. E sentia exatamente o que sabia. Seus apontamentos nunca desviaram a linha da verdade. Como toda mulher, Clara sabia. E vivia muitas vidas por isso, no sentido de escrever várias delas. Criava. E com isso se recriava.

Clara era amor em palavras. Mas rancor em sentimentos próprios. Era mágoa. Lembranças. Marcas de histórias remendadas e mal acabadas. Clara era uma vida não vivida. Era composta por amores inesquecíveis. E dos que podia esquecer fazia questão de lembrar. Suas caixas sempre foram seus tesouros martirizados. Vez ou outra tirava do esconderijo o que os olhos não alcançavam. Só o coração era capaz de atingir.

Clara era isso tudo e não era nada. Mas tinha amor. Embora guardado. Embora contido. Embora só seu. Era amor. E era disso que se alimentava. As vezes espalhava em palavras. As vezes em verbos mal posicionados. Mas era amor. E habitava nela de alguma forma. Clara ninguém viu, ninguém sabe, ninguém cogita traduzi-la. Ela é amor e nem disso sabe. Clara é oca para o mundo. Mas transborda para si mesma. 

Dani Fechine

31 outubro 2014

Diário de uma neta



Poderia se chamar “diário de uma jornalista” ou “diário de uma catadora de história”, afinal, foi exercendo o melhor lado da minha profissão que eu vi a vida por outro ângulo. Esse relato não é sobre uma manhã ao lado de crianças com câncer. É sobre a presença da minha avó em todo esse percurso, mesmo que de longe, mesmo que tão longe. Eu vou escrever sobre sentimento e do quanto dói, às vezes, sentir muito.

Cheguei com espírito de jornalista. Eu me fiz forte, rígida, serena. Cheguei a falar:

"Acho que nesse momento não seria tão difícil visitar essas crianças."

Até o momento da saída realmente não foi. Em casa, a ficha caiu.

A garotinha fragilizada não sai da minha mente. Ela, que quase sem forças, acenou com a mão na esperança de conseguir soltar um beijo, ficar de pé, brincar, correr, abraçar. A menina que lentamente piscava os olhos, expressava em seus gestos falhos uma tentativa de registrar uma passagem rápida de três jovens completamente despedaçadas por dentro, mas sorridentes e confiantes por fora. “Tudo vai dar certo”, eu imaginava enquanto fechava a porta do quarto para visitar outra paciente. Espero, ansiosamente, notícias daquela que me fez chorar por dentro – depois em lágrimas – mas que me mostrou que a luta deve sempre superar a dor. Que a esperança deve sempre superar a derrota. Que o amor deve, obrigatoriamente, superar a tristeza.

A mãe emocionada não me deixa parar a cabeça. O filho se encontrava em sua última sessão de quimioterapia. Tratado, recuperado e agora completamente feliz, saudável, procurando a nova fortaleza. O garoto de pele alva e corpo rechonchudo já queria brincadeiras. A mãe, aliviada pelo fim da batalha, só desejava chorar. Chorar e agradecer. Ele chegou ao hospital lamentando, querendo voltar pra casa. Hoje, enfim, ele retorna sorrindo.

A porta que fez meu mundo desabar – e está aqui o motivo do título – era enfeitada por uma plaquinha com o seguinte dizer: Dr. Dalva. Depois de andar o hospital por todos os corredores em busca da minha personagem encantada, encontrei-a no lugar menos provável. Comecei na pediatria e terminei na porta da médica que tratou a minha avó (nunca havia visitado o local). Encostei-me na parede, respirei fundo e pensei comigo mesma:

“Não pode ser”.

Os olhos lacrimejaram. A garganta fechou. Uma única imagem sobrevoava minha mente. E um único desejo pulsava em mim: sair o mais rápido possível daquela porta. Parece pequeno. Parece uma lembrança inútil. Mas sabe o que é? A saudade dói. E perfura o mais duro coração. Desde o momento, tudo que eu queria era chegar em casa e contar à minha avó como havia sido minha ida ao hospital em que ela tanto falava, agradecia e adorava, embora as lembranças não fossem das melhores. Queria entrar correndo pelo portão e contar a história de cada criança que vi e ouvi. Falar do pianista e dos seus causos incríveis. Dizer o quanto eu queria ajudar aquelas pessoas e o quanto eu sou fraca diante das fragilidades. Mas aí, num passe de mágica, a ficha resolve cair: vovó não está aqui.

Ela se orgulharia de mim pelo projeto tão humano que venho fazendo com minha amiga (ou irmã). Iria querer ler cada história, cada fala, ver todas as fotos e dizer o quanto isso é bonito e leve e gratificante e generoso. Ninguém é menos importante por ouvir ou não as minhas experiências. Mas essa... Essa em especial deveria ser dedicada à minha avó. E o que vier por aí terá todo meu coração entregue à história e a ela.

Infelizmente não vai dar pra contar a experiência mais leve e bela da minha vida. Mas deu – e isso foi feito com maestria – pra colocar todo meu coração, pra sentir saudade, pra sentir amor, sentir carinho, compaixão. E senti tudo isso com exagero. Senti muito. Saí outra pessoa do hospital de combate ao câncer. E entro em casa ansiosa, mas ciente de que a minha saudade não acaba aqui. Minha saudade começa quando as lembranças terminam. A ficha cai. As lágrimas também.

Dani Fechine

08 outubro 2014

Hoje seriam 73



Hoje seriam 73. 73 anos de uma beleza graciosa. De uma generosidade infinda. De uma paciência incomparável. De um amor que se multiplicava. De uma paz que fazia reinar. De um chamego que trazia bem querer. De um carinho com jeito de quero mais. De uma mulher com garra, com força e com luta nas veias. Hoje seriam 73 anos de uma senhora que carregou consigo, a vida inteira, o amor, a alegria e o poder de união que talvez nem ela mesma soubesse que possuía. 

Hoje é 8 de outubro e assim como o dia 14, é um momento de lembrança ainda maior. É um dia composto pela ausência e pela recordação. Marcado pelo que já não mais se faz, pelo que já não mais se ver, pelo que não mais se toca, não mais se esbarra, não mais se tem. Mas um dia emocionalmente marcado pelo sentimento: hoje se sente mais que ontem, a saudade abraça mais forte e vem devagarzinho, rasteira, até que gruda no nosso coração. Dias como hoje a gente não necessariamente chora, mas a gente lembra. Sorri com as tantas memórias, mas também se entristece por serem tão boas. 

Saudade é um bicho contraditório. Ela vem por um bom motivo: o amor. E ela fica, atormenta e machuca pela mesma razão. A parte boa e ruim da nostalgia, das memórias, das lembranças e da saudade são frutos de uma mesma flor: o amor. É por isso que não ligo, não me importo, não reclamo. Não bato o pé por sentir saudade. É amor guardado, amor contido, amor nostálgico. Amor que poderia ser mais e por algum motivo foi menos. Amor que poderia se expor e por algum motivo se guardou. Amor que me encheu de orgulho a vida inteira, mas que por algum motivo se conteve. 

Hoje seriam 73, minha vó. E nesse dia marcado pela ausência da rotina, eu te escreveria um cartão bonito, ou até um cartaz colado na porta no teu quarto. Mainha te compraria um presente e nós te daríamos com o maior orgulho do mundo, sabendo de início o quão difícil é/era fazer a senhora gostar de qualquer que fosse. Não importava o pacote, o laço bonito de fita, o cartão com a minha melhor letra. Era o abraço de bom dia que eu queria te dar, era o “obrigada, obrigada, obrigada” que eu gostaria de ouvir, era a tua voz que eu queria ter presente. 

Infelizmente, nós não temos as pessoas para sempre. Infelizmente, as pessoas não vivem para sempre. E também não escolhem o dia que se vão. Não escolhem também se já querem ir, se mais alguns dias é preciso, se ficar seria o mais apropriado. A gente não escolhe quem quer ter pra sempre. Exceto no coração. Eu escolhi levar a minha avó para onde eu for. Eu escolhi torná-la presente em qualquer parte da minha vida, da minha história. Escrevendo eu consigo eternizá-la. Escrevendo eu consigo trazê-la de volta. É escrevendo que eu a sinto cada vez mais perto. Escrever a torna presente. 

Em mais ou menos um mês serão 20. Os meus 20. E, mais uma vez, não serão os mesmos. Não a terei aqui novamente. Não sentirei a data tão importante como eram antes dos 18. A graça se dissipou. A saudade de cada cheiro, voz e toque tomou lugar cativo. Hoje seriam 73. 73 primaveras. 73 carnavais. 73 anos da Fechine mais incrível. E ao invés de 73, hoje temos quase 2 anos. O tempo passa. Os anos correm. E as lembranças parecem rastejar. A saudade cresce. E o amor não muda  e não acaba nunca. 

Dani Fechine

25 setembro 2014

Novo lar



Entrei devagar sem a pretensão de mostrar que ali eu estava. Não queria fazer tumulto, não queria que minha presença fosse notada, muito menos que o estrago fosse grande. Eu entrei ainda de cabeça baixa, mas sempre olhando um pouco pra frente, tentando enxergar se o futuro tinha algo a me dizer. Não, ele não tinha. Me mandava seguir sem pensar muito nele.

Quando cheguei não quis ser feliz de imediato. Nem procurei paz, amor e carinho no primeiro olhar. Quis conhecer a nova casa, o novo lar. Aproveitar o cômodo novo para me fazer nova também. Quis me aconchegar um pouco na poltrona velha, mas confortável. Eu fui entrando de fininho, sem chinelos, de ponta de pé. Sem samba nem rock. Fui sem música e sem melodia pra não atrapalhar. Fui convidada a entrar e entrei ainda pedindo licença. “Com licença, moço, posso entrar? É que a bagunça pode ser maior do que você imagina.”

E entrei. Cada passo foi uma nova forma de conhecer o mundo por outro lado: o ângulo do “deixa estar”. Entrei pra viver cada dia como o único da minha vida, até que chegasse o tempo de começar a entendê-lo como o início de alguma etapa. Eu entrei no meu novo lar divagando pelos móveis. Queria conhecer cada lugarzinho daquele espaço. Queria fazer parte dessa outra vida, ser necessária, ser uma só. Quando fui convidada a entrar não pensei muito. Casa nova, vida nova. Fui com o pé direito e me (ar)risquei no novo assoalho de madeira.

Quando eu pude recuar, eu já não queria mais. Já havia tomado conta de mim toda a mobília da casa. A decoração era de uma engenhosidade magnífica, inquebrável também. Mas se mostrada rígida. Imutável. Parecia que eu vivia numa loja de antiguidades. O mogno impecável. Os espelhos sem ferrugem. Os vasos translúcidos. Mas faltava vida. E faltava eu me sentir em casa. 

Eu risquei o chão com o pé e quis que aquele novo piso fosse o meu novo sustento. Passei as mãos nas paredes para me certificar de que eu estaria debaixo de ótimas estruturas. Mas precisei comprar algumas grades e travas: haveria de me sentir segura, cuidada e protegida. No meu novo lar coisas lindas me faziam companhias. Me senti leve pra sorrir sem preocupação. Mas ele ainda era recheado de obstáculos. Não dava pra se fazer escolhas. A casa era antiguada e não iria mudar. Afinal, essa foi a condição. “Te entrego um novo lar, mas você há de convir que o costume é por sua conta.” Eu tentei me acomodar.

Como falei, gostei da poltrona velha. A TV também era um retrô maravilhoso. Mas a cama estava meio desforrada, as garrafas de água vazias e os pratos ainda para serem lavados. Os quadros eram também antigos. Não se mexia em nenhum deles. Eu queria colocar minha cara, meu jeito, no meu novo lar. Mas não era tão fácil mudar as coisas de lugar. 

Quando conheci meu novo lar, eu nem bati na porta, mas a abri sem fazer barulho. Caminhei até a sala de estar, da sala de estar pra sala de jantar, da sala de jantar para a cozinha, da cozinha para o quarto e fui conhecendo tudo que eu podia da minha nova vida. Mas pra poder morar de fato na casa nova eu não precisava ter tirado os chinelos. Deveria ter entrada calçada, me sentindo dentro do que já era meu. Mas eu os tirei. E agora eu estou tentando lembrar onde deixei-os. Na porta da frente não está. Preciso calça-los. Preciso pisar firme e com familiaridade do meu novo lar. O lar a gente inventa. E é feliz com essa fantasia. 

Dani Fechine