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25 setembro 2014

Novo lar



Entrei devagar sem a pretensão de mostrar que ali eu estava. Não queria fazer tumulto, não queria que minha presença fosse notada, muito menos que o estrago fosse grande. Eu entrei ainda de cabeça baixa, mas sempre olhando um pouco pra frente, tentando enxergar se o futuro tinha algo a me dizer. Não, ele não tinha. Me mandava seguir sem pensar muito nele.

Quando cheguei não quis ser feliz de imediato. Nem procurei paz, amor e carinho no primeiro olhar. Quis conhecer a nova casa, o novo lar. Aproveitar o cômodo novo para me fazer nova também. Quis me aconchegar um pouco na poltrona velha, mas confortável. Eu fui entrando de fininho, sem chinelos, de ponta de pé. Sem samba nem rock. Fui sem música e sem melodia pra não atrapalhar. Fui convidada a entrar e entrei ainda pedindo licença. “Com licença, moço, posso entrar? É que a bagunça pode ser maior do que você imagina.”

E entrei. Cada passo foi uma nova forma de conhecer o mundo por outro lado: o ângulo do “deixa estar”. Entrei pra viver cada dia como o único da minha vida, até que chegasse o tempo de começar a entendê-lo como o início de alguma etapa. Eu entrei no meu novo lar divagando pelos móveis. Queria conhecer cada lugarzinho daquele espaço. Queria fazer parte dessa outra vida, ser necessária, ser uma só. Quando fui convidada a entrar não pensei muito. Casa nova, vida nova. Fui com o pé direito e me (ar)risquei no novo assoalho de madeira.

Quando eu pude recuar, eu já não queria mais. Já havia tomado conta de mim toda a mobília da casa. A decoração era de uma engenhosidade magnífica, inquebrável também. Mas se mostrada rígida. Imutável. Parecia que eu vivia numa loja de antiguidades. O mogno impecável. Os espelhos sem ferrugem. Os vasos translúcidos. Mas faltava vida. E faltava eu me sentir em casa. 

Eu risquei o chão com o pé e quis que aquele novo piso fosse o meu novo sustento. Passei as mãos nas paredes para me certificar de que eu estaria debaixo de ótimas estruturas. Mas precisei comprar algumas grades e travas: haveria de me sentir segura, cuidada e protegida. No meu novo lar coisas lindas me faziam companhias. Me senti leve pra sorrir sem preocupação. Mas ele ainda era recheado de obstáculos. Não dava pra se fazer escolhas. A casa era antiguada e não iria mudar. Afinal, essa foi a condição. “Te entrego um novo lar, mas você há de convir que o costume é por sua conta.” Eu tentei me acomodar.

Como falei, gostei da poltrona velha. A TV também era um retrô maravilhoso. Mas a cama estava meio desforrada, as garrafas de água vazias e os pratos ainda para serem lavados. Os quadros eram também antigos. Não se mexia em nenhum deles. Eu queria colocar minha cara, meu jeito, no meu novo lar. Mas não era tão fácil mudar as coisas de lugar. 

Quando conheci meu novo lar, eu nem bati na porta, mas a abri sem fazer barulho. Caminhei até a sala de estar, da sala de estar pra sala de jantar, da sala de jantar para a cozinha, da cozinha para o quarto e fui conhecendo tudo que eu podia da minha nova vida. Mas pra poder morar de fato na casa nova eu não precisava ter tirado os chinelos. Deveria ter entrada calçada, me sentindo dentro do que já era meu. Mas eu os tirei. E agora eu estou tentando lembrar onde deixei-os. Na porta da frente não está. Preciso calça-los. Preciso pisar firme e com familiaridade do meu novo lar. O lar a gente inventa. E é feliz com essa fantasia. 

Dani Fechine

09 setembro 2014

O que você fez com a vida dela


Hoje ela tem 25, mas oito anos não se esquecem facilmente. Aliás, até que se evaporam, mas quando o tempo esfria aquilo ali se transforma em orvalho e não tem quem a faça pegar um casaco e se esquentar: ela sabe que a noite vai ser longa e que não há cobertor que dê jeito. Hoje ela cresceu e amadureceu, mas não esqueceu o que a fez se tornar essa mulher incrível. Você pensa que ela é quem você pensa que é? Ledo engano, moço.

Olha, ela caiu, levantou, tropeçou, depois caiu de novo e dessa forma ela foi vivendo num ciclo vicioso onde você era o hospedeiro definitivo. Tropeçava, caía e levantava. Rapaz, você não imagina o quanto ela mudou com isso. Eu sei que até hoje você não se esqueceu da última viagem que fizeram juntos, mas também ainda lembra-se do último término. Eu sei o quanto você ainda a ama, mas amar todas as outras ainda parece mais fácil. Sei que é complicado pra você aceitar isso, afinal, ela te esqueceu. E foi exatamente esse ponto que o fez perceber a mulher que você tinha em mãos: ela se entregou de corpo, alma e com o coração na mão, te entregando pra cuidar. Você ficou com o corpo e largou o coração no primeiro apoio que encontrou no caminho.

Ela ainda se lembra de você, mas não se anime não, moço. Tu és recordação de aprendizagem, não de saudade. Ela ainda guarda uma foto, não posso te negar isso. Dia desses encontrei-a perdida em uma dessas caixas malucas que ela guarda de tudo um pouco. Mas normal, né? Que mulher não quer guardar lembranças do seu passado? Ficou uma carta também e algumas lembrancinhas, mas nada que a deixe nostálgica quanto a você. Ela te olha e sabe o que ela pensa? “Não mudou nada”. E se orgulha de ter te deixado. Mas essa mulher é tão incrível, moço, mas tão incrível que ela quer o teu bem quanto o de qualquer outra pessoa. Ela quer que você mude! Que seja bom, íntegro, honesto. Ela quer que você seja homem, pra que seja feliz de verdade algum dia. Ela lembra de você e agradece por tudo que viveu. Hoje ela é mulher, mas lamenta você ainda ser um menino.

Rapaz, me desculpa, mas te falo tudo isso porque você realmente precisa de um choque. Eletricidade não adianta, ia te deixar ainda mais desconectado do mundo. Ela não fala mais em você e isso já vem acontecendo há alguns anos. Ela está feliz, alegre, sorridente e contente. A vida dela vai muito bem, ela conseguiu emprego na agência que tanto queria e está quase dando entrada num carro. A estante dela duplicou. Isso não muda pra você, mas para o mundo ela acrescenta e muito com essa bagagem literária que ela tem. Parece que depois de você a vida dela deu uma engrenada que, ó, você merece até os parabéns por tudo que aprontou. Já dizia as beatas: Deus sabe o que faz, viu?

Mas agora olha só pra você. Os livros estagnados na metade, o copo ainda cheio de vodka, a cabeça vazia e um corpo sempre pedindo um pouco mais de corpo a corpo, de mulheres novas, pessoas novas. Você não muda, hein, cara? Não merecia mesmo a mulher que perdeu. Mas, ó, se preocupa não. Todo mundo cai em si um dia. Ela demorou alguns anos pra se encher de si e perceber o tamanhão dela diante de você, e depois de oito anos ela pôde agradecer por cada erro cometido no passado. Não precisava tantos traumas, mas valeu um pouco a pena. Hoje, tenho que concordar, ela ficou um pouco ranzinza e desacreditada. Mas nada como um novo amor para sempre amolecer o coração dela. No fundo, bem lá no fundo coração, essa mulher que você perdeu sabe que amar é a única salvação e, infelizmente, ela também sabe que era ela a mulher da tua vida. Moço, rapaz, cara, seja lá como eu te chamei, escuta só mais uma coisa: vai amar, vai. 

Dani Fechine

16 agosto 2014

Entre ele e a escrita


Olha só, é dia vinte e nove, e a gente não se vê há anos. Que ironia do destino a nossa de se encontrar na rua num dia memorável como esse. Um dia que já foi marcado no calendário, já foi data comemorativa, balões dentro do carro e cartões bem expressivos. Meus Deus, mas olha só... Que coincidência a nossa se bater num lugar tão bem frequentado por nós anos atrás e agora cada uma na sua vida, feliz do seu jeito, crescidos a partir dos erros e dos acertos. Vividos, também, a partir das idas e vindas, a partir das lágrimas e dos sorrisos. Que bonito, cara, que lindo ver o mundo girar, ver as coisas mudarem e perceber que nada é pra sempre. 

Olha, rapaz, sua namorada é linda, mas ela não escreve. Eu queria te dizer que não me arrependo de nada. Te larguei pra namorar com a minha liberdade criativa e olha, eu tô bem demais. Sua namorada é simpática o quanto pode, chega até a enjoar. Mas, olha só, ela tem medo de escrever algumas verdades. Não a culpo, jamais. Escrever é ter coragem, meu amigo. E eu te deixei pra expor ao mundo a minha alegria explosiva em colocar pra fora o que a imaginação grita aqui dentro. É que não dá, cara. Peço até desculpas por isso, mas não dá pra conviver com quem não se importa com a minha arte. 

Rapaz, preste atenção. Veja bem, não me peça pra voltar, não. Eu tô feliz demais com a minha imaginação exacerbada. Eu tô é muito satisfeita por estar feliz somente por escrever. Às vezes me magoa um pouco, não sai uma linha sequer, acredita? Mas é só questão de música boa aos ouvidos, uns filmes inspiradores ou alguns goles de cerveja. Um vinho até cai bem também. E aí quando aquele texto sai da gente feito um furacão, ah, você não imagina. Não imagina o quanto a gente que escreve fica em êxtase. E por dias. É uma droga alucinógena e potente demais. Impregna no nosso corpo, nos deixa vulneráveis a comentários e estamos cada vez mais buscando palavras, novos textos. Quem sabe até um livro, hein, rapaz. Você compraria, eu sei. Viria na maior cara de pau pedir dedicatória pra tua namorada, né? Te conheço, cara. Sem problemas! Tô aqui pra ser lida mesmo. 

Rapaz, já faz tantos anos, né? E a gente se encontrar logo hoje, vinte e nove. O destino é um moleque danado mesmo, viu? E eu gosto, mas gosto muito de dar umas gargalhadas com ele, por que, vá lá, só você mesmo pra me fazer escrever desse amor incontrolável, esse desejo incessante, essa loucura que consome, essa paixão milenar pela escrita. Eu troquei um amor por outro. Um homem por textos. Já pensou que loucura? Mas é porque você desleixava o que eu fazia com prazer. Assim não dava, né? Você aí, leitor, pense bem antes de namorar uma escritora. Na primeira banalizada sua a um texto dela, já era. Esqueça o casal. Ela vai pensar em te deixar. Pra mulher que escreve os seus textos são pedaços dela mesma. É como arrancar lá de dentro cada pedacinho que incomoda ou que grita para ser repaginado.

Você, por exemplo, foi repaginado dos pés a cabeça. Te remodelei, recriei e reinventei um cara que bem que poderia ter existido. E sabe o melhor? Você nem percebeu. Nem os outros. Dizem que os sonhos são desejos reprimidos, né? Lembro que você dizia isso quando narrava minhas viagens noturnas. Pois pego essa gancho e digo logo que os textos são personagens misturados. João não é só João e Maria não é só Maria. Em João existe José, que existe Matheus, que existe Lucas e por aí vai. Em Maria existe todo um desejo pessoal, toda uma expectativa feminina ou experiências de Ana, de Helena, de Tereza. A gente nunca tá sozinho quando escreve. 

Hoje eu tô aqui sem norma culta e sem gramática pra te falar da maneira mais simples que existe no português que a minha arte, que eu chamo de escrita, é primeiríssimo lugar na minha vida. Rapaz, presta muito atenção no que eu vou dizer: para uma mulher que escreve, o seu trabalho são as letras. Não menospreze, não desdenhe, não desfavoreça. Eu te garanto uma coisa, cara, a escrita é mais importante que você. Seja coerente, admire-a. Ela tem verdade. E você só confirmou isso hoje quando ela te virou as costas e saiu com a sacola da livraria, enquanto você dava as mãos a alguém que te largaria por outro homem nunca por ela mesma. 

Dani Fechine


Um recadinho da autora: Esse texto deveria ser lido com uma entonação diferente. Talvez alguns não encontrem a maneira que eu idealizei ao escrevê-lo, um jeito descontraído, despreocupado. Mas ele está aí pra ser ligo como bem entenderem. Sintam-se à vontade!

11 agosto 2014

Não escolher, mas ser escolhida


Era isso que faltava na vida dela: ser escolhida. Parar de classificar os homens e de colocá-los numa tabela imaginária, cortando qualidades incompatíveis e defeitos indesejados de cada um. Até que algum, vá lá, pelo menos um seria capaz de ficar, de fazê-la feliz. Mas não! Nunca restava. Todos seriam protagonistas de um romance com término marcado. Na cabeça dessa moça, desde o primeiro encontro, já rondava a ideia fixa de “não vai dar certo”. Mas não custava nada tentar. 

Para essa moça faltava existir uma variedade menor. Se ela queria sair da zona de solteira que rondava sua vida há alguns anos, ela precisava não ter que escolher. Precisa se apaixonar à primeira vista, mesmo não acreditando, mesmo isso sendo impossível aos seus olhos racionais de quem não ama quase nunca. Ela precisava se entregar. Depositar seus primeiros sentimentos no cara e deixá-lo decidir: é ela ou não? Para essa moça, era necessário sofrer um pouquinho por antecipação. 

Os tempos precisavam se bater. Se ela sentiu uma aceleração maior no coração, uma sequer, ele precisava sentir também. Esperar muito nunca foi a arte dela. Nem para um jantar, nem para passar algumas vidas juntos. Se ela ama, precisa ser agora. Precisa ser pra já. Não dá pra deixar esfriar o que no calor dos sentimentos pode ser bem melhor. Para essa moça, era importante amar primeiro. Mas, principalmente, não deixar de ser amada logo em seguida. 

Pra ela não tem essa de procurar o amor naquele relacionamento. Ou ela te ama e te fala isso sem medo – embora não tenha esse costume, e vale lembrar que isso são 10 pontos a mais na sua conta – ou ela te espera e confirma a certeza de que não, não vai dar certo mesmo. Para essa moça, a certeza no coração é infalível. Seja para o lado positivo ou negativo. Sentir a sensação de para sempre é ter a confirmação de que é ele. É ele o cara que lhe faltava durante esses 25 anos. É ele que vai ouvir o seu “eu te amo” que ela guardou uma vida inteira. É ele que vai receber os seus carinhos que tanto reprimiu. É ele que vai conhecer o seu lado mulher, enquanto a pessoa insensível que ela era se esconde mais uma vez nos seus caderninhos. 

Para essa moça é mesmo muito difícil amar. Relacionar-se com alguém é uma prova de fogo fácil de ser superada. É preciso compatibilidade de tempos. De certezas. De confirmações. De sinais. De saberes. Não é preciso ser igual a ela. Jamais esse foi um requisito. Mas para essa moça, para um relacionamento sair do vago para o sério é preciso apenas dela. É necessário, e disso ela tem certeza, de que ela sofra um pouco. Mas sofra por uma boa causa. E que essa causa seja amor. E que parta dela primeiramente. Mas que seja correspondido. Que os dois tenham nascido para se encontrarem e se esbarrarem por aí como Guido e Pricipessa. E que os obstáculos estejam aí, mas que eles tenham a certeza do tal “valeu a pena”, quando tudo desmoronar e cair por terra.

Para essa moça, antes de tudo, é preciso viver. É preciso aproveitar esse momento que sabe-se lá quando vai acontecer de novo. É preciso acreditar e ter simplicidade pra fazer florescer o que nem com muita água e sol foi capaz de brotar. Para essa moça, é de uma necessidade infinda o amor próprio. E o amor primeiro. Não sabe o que é? Eu explico. Para essa moça, é de fundamental importância que ela ame. E quem em seguida ele a ame igualmente. O inverso pode ser um perigo. Não queira arriscar. Essa moça sabe de tudo isso, mas continua tentando. Tentando fazer com que um dia toda essa matemática mal feita se desfaça e a torne capaz de amar sem necessariamente 1+1 ser igual a dois. 

Dani Fechine

17 julho 2014

O amor não dói



Você me disse que amar não dói. Pronunciou isso duas ou três vezes enquanto discutíamos a minha loucura de não querer me envolver. Queria me fazer acreditar que tudo são flores, que a água do poço não seca e que a gente não chora por amor. Você me disse com todas as letras: “Menina, o amor não dói.” Queria que eu acreditasse na lenda de que amar é ser feliz, de que saudade só sente quem ama e que por isso um sorriso no rosto é mais coerente. Queria que eu caísse nessa ideia de que amar é o estado de espírito mais pleno da natureza.

Gritou no meu ouvido pra que eu não esquecesse: “Amar o outro não dói, sabia?” e completava dizendo que demonstrar também não era uma prova de fogo. Queria que eu acreditasse em toda essa trama de contos de fadas, onde amor é o ápice da felicidade. Queria que eu largasse mão da frieza inócua e me jogasse nos carinhos que uma vida a dois pode oferecer.

Dessa vez sussurrou: “o amor não dói, não”. É tudo paranoia de uma cabeça perturbada pelo passado, vidrada numa vida com restos de cacos de vidros perfurados nela. Queria que eu entregasse meu amor, que eu amasse como uma pessoa normal, que libera por todos os cantos do corpo o que o coração não consegue guardar. Queria que eu explodisse a alegria que é sentir. Pra depois triturar meu coração e deixá-lo em cima da mesa como algo sem conserto.

Agora escrevia em letras garrafais: “Querida, o amor não dói”. Tentava me fazer acreditar através de sua rápida e irreconhecível caligrafia, que pode ser bom chegar em casa depois de um dia cansativo e encontrar uma mão que acaricia os seus cabelos. Queria que eu caísse nessa de que quem ama, cuida. E que ser cuidada poderia ser maravilhoso. Poderia ser amor. Escrevia em todos os lugares da casa: no espelho do banheiro, na porta da geladeira, na parede do quarto, na mesa da sala. Queria que eu não esquecesse nunca que o amor não dói. Que amar não machuca. E que essa insistência toda era só um pedido de confiança.

Queria que eu acreditasse nessa ideia tola de amar. E o pior: eu acreditava. Acreditava na felicidade de dividir um milk shake com dois canudos, e de, apesar de simples, dar as mãos em qualquer lugar, de abraçar e sentir ali um porto seguro, uma Terra do Nunca, uma paz. “O melhor lugar do mundo nunca foi um lugar”. Sempre foi o teu abraço, o meu corpo no teu, os teus braços me envolvendo e as tuas mãos passando lentamente na minha nuca. Amar também nunca foi só um sentimento. É uma vida inteira que requer paciência, compreensão e tempo. Tempo pro outro. Tempo pra entender as incertezas e alma de quem vive ao teu lado. Tempo pra acreditar que toda essa loucura de comédia romântica hollywoodiana tem um lado possível. Tempo pra não esquecer de que o amor é sempre lembrar para si mesmo o quanto o outro é especial e que a vida está mais brilhosa, mais vibrante, mais bonita, depois que ele chegou. Queria que eu acreditasse nessa ficção de novela das sete. E eu acreditava. E sentia o aroma de amor inundando os cantos da casa. 

Dani Fechine

Citação: “O melhor lugar do mundo nunca foi um lugar” (Pedro Gabriel - eu me chamo antônio)

13 abril 2014

Bom dia, amor


Foi quando eu te vi sentada naquele cantinho da sala, naquela cadeira velha que você nunca teve coragem de deixar num brechó, com um joelho levado até o queixo enquanto o outro pé riscava o chão e estampando nesse rosto delicado um sorriso que eu nunca vi igual. Tão encantador e inocente, tão hipnotizante e enfeitiçador, tão cheio de si e tão perdido ao mesmo tempo, que sempre me fez optar por ele do que por qualquer outro. Foi nesse momento de vislumbre distante que eu percebi que não há ninguém nesse mundo que faça um café melhor que o seu. Não há companhia mais entusiasmada para um vinho em plena terça-feira. Não há cabelos mais macios que os seus. Não há olhos mais brilhantes. Não há, simplesmente, alguém igual a você. É por isso e por te ver sentada, ali, com minha última camisa branca do armário, que eu percebi que não dá pra devolver o pacote depois que ele foi aberto. Não dá pra fazer parar o coração quando ele já cresceu o máximo que podia. Simplesmente não dá pra voltar atrás, quando o corpo todo já ficou.

Puxei uma cadeira - essa já um pouco menos gasta - e sentei ao seu lado. Você trocou a posição das pernas, deu um nó bem ágil no cabelo e deixou uma pedaço da franja cair sobre os olhos. Segurava agora um café quente e fixava em mim um olhar vidrante. Nesse momento eu também percebi que não trocaria o seu olhar pelo de nenhuma princesa de cabelos dourados. Pisquei os olhos devagar numa tentativa de dizer a mim mesmo que você era real. Que eu tinha uma pessoa magnífica sentada bem ao meu lado.

Pediu-me os óculos para melhor enxergar o livro que agora lia. Um Machado de Assis em época de desengano, que eu mesmo a havia presenteado. Pela manhã pouco se falava nos cantos da casa. Olhares e sorrisos tomavam conta de um lugar que se tornou diferente justamente pra não ser normal. Um lugar que não fala quando acorda, porque acordar nunca foi lá essas coisas. Mas que dá beijo de boa noite e acaricia os cabelo, porque dormir nunca deixou de ser um prazer. E nesse momento me dou conta de que você é a minha lente de contato. Caio em mim e percebo que se não tivéssemos esbarrado na mesma esquina eu ainda estaria acordando de mau humor e resmungando até o momento de dormir novamente. E iria deitar, virar pro lado e dormir, sentindo falta de algo que eu nem pensaria em ter, mas que quando eu tivesse, seria o encaixe perfeito do meu quebra-cabeça de duas peças.

Você levanta e com suas pernas longas e finas do lado de fora da camisa, caminha até a cozinha e põe a xícara na pia. Procura seus chinelos. Não encontra. Calça os meus e eu não ligo se o chão está frio. Me lança um olhar cerrado, jogando a franja novamente para trás. Lavamos a alma num banho a dois, num bom dia diferente de se pronunciar. E eu percebo que depois de você eu não posso mais acordar e pronunciar um "bom dia" de maneira clara e direta. Não dá pra apressar o que prolongado pode ser maravilhoso.

É quando eu te vejo todos os dias num ritual nada corriqueiro, me fazendo mudar de sorriso diariamente, me fazendo crer na doçura que é ter alguém pra segurar a mão quando o mundo vem te derrubando, me fazendo ser feliz com gestos simples ou apenas com sua existência. É quando você é a mesma diariamente - encantadora e real - que eu percebo que nada melhor que você poderia ter aparecido em minha vida. Então se veste para o trabalho e, com mais um café na mão, me beija os lábios e, enfim, diz: bom dia, amor.

Dani Fechine

22 março 2014

Amor com Rotina


Nossa história daria um filme. Ou um livro. Não porque nos aventuramos a sair da rotina todos os dias. Pelo contrário. Amor é rotina. Daria um best-seller pela simplicidade. Pela paciência, pelo carinho e companheirismo. Daria um livro só pelo fato da gente se amar sem sair por aí pra escancarar. Nós ganharíamos o Oscar de melhor casal, de melhor beijo ficcional, da melhor cena de amor que Hollywood já viu. Eu vou escrever um livro sobre nós dois. Sobre como foi ter você todos os dias ao meu lado com esse sorriso infindo, esse olhar penetrante que não me abandona segundo sequer. Vou escrever um livro sobre a nossa história convencional, embora a mais bonita do mundo, pelo simples fatos de nós dois sermos os protagonistas.

Meu prefácio é o nosso fim. Começarei o nosso livro contando do quanto a gente foi feliz a vida inteira. Que apesares aconteceram, que tropeços também tiveram aos montes, mas que nossas mãos nunca estiveram tão firmes uma na outra. Escreverei sobre o jardim que cultivamos desde noivos e que até hoje, na velhice companheira que nos fez cada dia mais vívidos, cultivamos como nosso amor. Não posso esquecer também dos filhos lindos que tivemos. Os meninos mais lindos do mundo que tornaram-se Peter Pan nos nossos corações. Seria também uma injustiça não falar de você. De como foi bonito te ver envelhecer. Ver os seus cabelos castanhos ficarem cada dia mais claros, e por fim, brancos. Falar de como eu me sinto feliz, leve e satisfeito por ter encontrado uma pessoa tão maravilhosa, por dentro, por fora, consigo, com os outros. Alguém que segurou a minha mão até perder as forças no leito de morte. Alguém que me faz agradecer, todos os dias, por ter tido uma pessoa que amou os meus defeitos, as minhas qualidades e todo o meu esquecimento precoce de uma velhice tardia.

O capítulo um seria intitulado de 24 horas. É a quantidade de horas por dia que eu sou feliz. Que eu amo. E que eu vivo pra te fazer sorrir. É a quantidade de horas que eu me lembro de como foi encantador te ver no altar, derramando as lágrimas mais sinceras que eu já pude tocar. De como foi doce dizer um “sim”, mesmo querendo gritar “para sempre”. É a quantidade de horas por dia que eu tento voltar para o dia que nos conhecemos e reviver todo aquele instante. O momento do primeiro encontro, a sua primeira gargalhada, o primeiro abraço de proteção quando eu achei que meu mundo estivesse implodindo naquele instante e o primeiro “eu te amo” que eu ouvi e guardei dentro da caixinha de música que você me deu no primeiro ano de namoro. 24 horas é o tempo diário que eu tento te fazer feliz, porque é isso que também me faz feliz.

O segundo viria sem palavras em seu título. Em branco. Que é como eu ficava ao acordar e admirar, de perto, de muito perto, a tua nunca e alisar os teus cabelos como se todo dia fosse o último dia da minha vida. Emudecer era a minha reação a cada surpresa que você me fazia fora de hora, fora de época, sem data, sem mês, mas com amor escrito em cada canto do mundo. Além do título, poderia deixar o próprio capítulo também em branco, porque as coisas mais lindas que você me falou foram no silêncio. Na paz de espírito. No amor que a gente dividia no olhar. Tudo de mais encantador que eu ouvi e li, foi no seu piscar de olhos lentamente, um pouco cerrados e brilhando como esmeraldas.

O capítulo três é de como eu sinto a sua falta, Emma. Ele iria se chamar “Vazio”. É o que ficou da nossa casa. Da poltrona rosa ao lado da minha, da escrivaninha com todos os seus cadernos, folhas, canetas. O vazio que você deixou no jardim, entre as flores. O nada que me faz tão cheio todos os dias. Esse vazio que me faz querer sentir o teu perfume entre as rosas, que me obriga a derramar uma lágrima sempre que não te vejo mais sentada onde deveria estar. Vazio é o lado da cama que você deixou com seu cheiro e ainda com seu jeito. É a xícara de café que eu não encho mais pra te levar na cama, o almoço de natal que não faz mais sentido, e os nossos aniversários de casamento que eu comemoro sempre com uma nova carta pra você. 

E todos os outros capítulos seriam uma dessas cartas escritas nos dias 22 de abril de cada ano. Cartas que te trazem de volta por algumas horas e que me fazem sentir a ausência mais presente do que todos os dias. Cartas de amor ridículas, como diria Fernando Pessoa, porque se há amor, tem de ser ridículas. Cartas das rotinas mais apaixonantes que eu vivia, porque você sempre me dizia que amor é amar a rotina. E eu amava. Amava você e amava a rotina que você me fazia viver, crescer e ser feliz. É por isso que todas essas cartas seriam experiências simples de uma vida simples de duas pessoas simples e de um amor simples. Cartas que fizeram de mim o homem mais saudoso do mundo, com o coração nostálgico. Uma saudade que não tem fim, dos seus olhos, do seu sorriso, do seu abraço protetor e desse carinho que ninguém nunca vai encontrar igual na vida.

Escreverei um livro sobre nós dois. E ele será a minha última carta para, enfim, te encontrar novamente, onde quer que esteja. Eu prometo, Emma. É o último ato corriqueiro que nós vamos realizar juntos. O único toque de amor que nós vamos deixar na Terra. A última semente de que vale a pena ter esperança num amor tranquilo. Escreverei o nosso livro e ele se chamará Amor com Rotina.  

Dani Fechine


Citação: “As cartas de amor, se há amor, tem de ser ridículas.” Fernando Pessoa

02 março 2014

O que é o amor?

Quando eu tinha sete anos, aquela professora que eu chamava de tia escreveu na lousa com letras garrafais a seguinte pergunta: O que é o amor? Complexo demais para uma criança que ainda estava aprendendo a ler e escrever. O dia das mães se aproxima e essas respostas fariam parte de uma coletânea entregue a cada uma. Li devagar e transcrevi, ainda que meio rabiscado, a tal frase na folha do caderno. Eu era a última da terceira fila, ia demorar um pouco chegar a minha vez. Eu saí da Terra e viajei aos lugares mais incríveis pra tentar descobrir o que essa palavra significava. Mas foi de supetão, no ímpeto de dizer "não sei" que a resposta chegou: "Amor, professora, é quando minha mãe me pega na escola com o sorriso mais lindo do mundo. Além de amor, isso também é o meu mundo. Então essa palavra que a senhora quer saber, é o mundo que eu tenho dentro de casa. É também aquele beijo de boa noite que ela me dá depois de contar a mesma história pela décima vez na semana. E o abraço de bom dia que eu recebo também é amor."

No meu aniversário de quinze anos, o meu pai fez um discurso no qual ele repetiu a mesma frase: O que é  o amor? Retornei à minha infância, olhei pra minha mãe. A amei naquele instante como nunca. Mas não pude deixar de acrescentar em meus pensamentos aquele garoto que iria dançar a valsa comigo algumas horas mais tarde. Eu dizia que o amava. E aos 15 anos o amor era sentir o frio na barriga, a mão trêmula e a garganta travada. Amor era desejar que o sinal demorasse um pouco mais a bater para que eu o avistasse mesmo que de longe. Amor era ficar corada de vergonha, mas não denunciar jamais com as palavras. Quado eu tinha quinze anos, amor era apenas embrulhar o estômago por um garotinho. 

Quando fiz trinta anos, e já tinha uma casa própria, um marido encantador e um filho tão esperto quanto a mãe aos sete anos, adesivei, em cima da prateleira que suporta os meus livros, a seguinte pergunta: O que é o amor? Olhava pra frase, olhava pro meu filho, olhava pro meu marido, e lembrava da minha mãe. Amor era família. Era doar-me a ela. Querer o bem de todos antes de pensar em mim. Naquele instante, amor era compartilhar. Era sobreviver a um almoço de domingo com todos os tios, tias e primos, mesmo depois de uma semana tão conturbada. Era ligar pra minha mãe só pra dar bom dia e dizer que a amava. Amor era colocar meu filho pra dormir, ler a mesma história pela décima vez na semana. Era buscá-lo no colégio sempre com um sorriso no rosto e acordá-lo com um abraço apertado. Amor também era ser casada com o pai do meu filho. Ela abrir os olhos de manhã e agradecer por companhias tão agradáveis e sentimentos tão sinceros. Amor era ter o carinho, a cumplicidade e a paz, no meu coração, na minha vida e na minha rotina.

Hoje, aos sessenta, amor é saudade. É folhear os álbuns antigos e querer a minha mãe de volta com meus sete anos de idade. É olhar para a poltrona vazia ao meu lado e perceber que mesmo na ausência, o amor ainda vence. É receber um telefonema do meu filho em plena terça-feira só pra me desejar boa noite e dizer que amanhã precisa me ver. É abrir o portão e me deparar com uma criança correndo em minha direção, com um sorriso ingênuo e sincero, querendo brincar com a vovó. Aos sessenta anos de idade, amor é nostalgia, mas é também dever cumprido. É deitar a cabeça no travesseiro e pensar que talvez eu não tenha definido bem o amor durante toda a minha vida, mas ter a certeza que o senti das maneiras mais intensas possíveis. E ao partir, ainda arrisco dizer que amor, meu bem, não se define. Amor a gente sente. 

Dani Fechine

05 fevereiro 2014

Fica pro café?


Ei, moça, espera um pouco. Fica pro café. Eu fiz o omelete com tomate que você adora. O chocolate quente eu trouxe pra logo cedo – mais tarde te faço mais. Fica. Pode deixar a cama, assim, desarrumada, os lençóis misturados e os travesseiros jogados pelo chão. Te empresto aquela camisa branca de botão que você tanto gosta de colocar quando acorda, e nem ligo de passar frio. Desligo o despertador se você preferir. Ligo pro chefe e digo que vou me atrasar, porque a minha vida está a um passo de desmoronar caso eu bata a porta. Ele vai entender.

Te faço cafuné, penteio até o seu cabelo, e faço as tranças mais lindas. Fica que eu te conto mais uma vez como é se apaixonar todos os dias pela mesma mulher. Te compro a sua torta predileta, faço voz e violão com Something e deixo até o cachorro subir na cama e te fazer voltar a ser criança. Morena, deixa esse brilho iluminar um pouco o meu apartamento, esse cubículo que vira mundo quando você entra. Me liga dizendo que está com saudades e que não vê a hora de me encontrar, por acaso, na dobra daquele restaurante à la carte que a gente encontrou perdido nessa cidade. Me dá esse teu sorriso misterioso e me pede, mais uma vez, pra deixar a barba por fazer. Eu deixo. Até gosto. Porque esse teu olhar de que quer me beijar por isso, é uma despedida triunfal para uma noite de terça-feira.

Moça, te peço, fica. Esquece os erros de português, os verbos intransitivos e o pretérito imperfeito. Pisca os olhos com delicadeza, me sorri olhando de baixo para cima e passa a mão nos seus cabelos longos. Eu sou capaz de passar o resto da minha vida sentando, te olhando encantado. Eu também fico. Juro ouvir todos os seus causos, os seus problemas, suas histórias e desilusões. Vou te abraçar pra te proteger, vou te fazer carinho pra ver o arrepio da sua pele, e te prometo fazer da tua vida uma possível esperança de que vale a pena pisar descalço no mundo lá fora. Se você ficar pro café, te faço também no almoço o fettuccine que você gosta e ainda abro aquela garrafa de vinho guardada pra alguma data especial. Não há ocasião melhor para brindar, do que te ver ficar. Te ver tirar os chinelos, prender o cabelo com uma agilidade que só você tem e sentar no final da mesa, com um pé na cadeira e o outro riscando o chão. Agora você morde um pedaço do sanduíche e enquanto toma mais um gole do café, me olha por cima da xícara, me fazendo esquecer que eu também preciso de uma bebida quente.

Menina dos olhos que fitam, senta aqui. Lê esse livro que comprei pra você, deita na cama com as pernas entrelaçadas e ainda com a camisa que te vesti logo cedo. Fica, mas fica pra sempre. Não volta correndo arrependida. Homem que é homem tem lá suas fraquezas, e a minha é te aceitar sempre que você bate na porta com essa cara de que eu estava mesmo certo. Fica pra me dar bom dia e deixar eu te beijar na ponta do nariz quando eu virar pro lado e te ver deitada preenchendo o melhor lado da cama. Me deixa te ligar e dizer que hoje é o dia mais feliz da minha vida, porque você ficou. Moça, não corre. Descansa essas pernas, porque a maratona está chegando ao fim. Ou você corta a fita da linha de chegada ou deixa que alguém corte pra você. Vem, morena, eu estou te esperando no pódio, e o troféu é a nossa felicidade eterna, a nossa rotina nada convencional e um sorriso que abraça o teu corpo inteiro.

Moça, eu te amo tanto. Fica por isso. Fica, porque o meu amor é o suficiente pra nós dois. Eu amo por você. Amo por mim. Amor por nós. Mas fica, vai. Não limpa os pés quando entrar, nem bate mais na porta. Fica e desliga esse abajur que eu prefiro ver as curvas do seu corpo com as minhas próprias mãos. Fica e traz a tua melancolia cômica pra mudar os ares daqui. Não te peço mais que isso: fica. Sabe o que é, moça? Eu te amo tanto que fui cego até pra perceber que amor não se pede, nem se mendiga. Amor a gente sente. Mutuamente. Então, quer saber de uma coisa? Vai!

Dani Fechine

07 janeiro 2014

Autossabotagem

Parecia-me desconfortante chegar aos 30 como um solteirona morando sozinha num apartamento de 2 quartos localizado na cidade mais romântica da Europa. Desconfortante e até um pouco deprimente. Sair à varanda e me deparar com casais atravessando o rio Sena, andar pelas ruas e ser surpreendida com algum turista me pedindo uma fotografia sua e de sua esposa, ou dos seus filhos. Ou até mesmo ir à festa de 20 anos da agência sem nenhum acompanhante, a não ser uma taça de vinho seco que o chefe faz questão de acrescentar no buffet. Ele bem que conhece minha solidão manjada e esse meu dedo podre para um relacionamento bem sucedido. Então comecei a analisar o que, de fato, me fez ficar trancada na cidade das luzes, sozinha, com uma xícara de café.

O primeiro desencanto foi o Tony. Carinhoso, fazia um melodrama incrível que só ele era capaz de possuir tal feitio, e ambos de maneira exagerada. Tony amava demais, podia se machucar. Não, não dava certo. Depois de alguns drinks nos bares da cidade, encontrei Richard. Seu amor era na medida certa. Nem loucamente apaixonado nem desinteressado demais. Mas era conhecido em todos os pubs da cidade por se descontrolar quando bebia, embora eu nunca presenciara tal cena. Parafraseando Machado: amei-o por 30 dias e umas 13 doses de tequila.

Passei um ano tentando me adaptar aos transtornos que dois homens errados fizeram em minha vida. Após alguns meses em manutenção conheci Morgan. Ele era professor de Arte de uma escola próxima à agência que eu trabalhava. Ligava-me em um intervalo de no máximo 20 minutos, a ponto de ser necessário desligar o celular durante todo o período de trabalho. Quando achava que teria alguns minutos de paz no caminho para casa, ele me aparecia sentado nos degraus do café que eu costumava frequentar. Grudento demais. Joguei o chiclete fora antes de perder o gosto.

Já me encontrava frustrada com a situação e acreditando, inclusive, que algum moleque brincalhão havia retirado minhas moedas da Fontana di Trevi, onde joguei praticamente todo o cofrinho em uma das viagens a Roma. Foi quando conheci John. Moreno, intelectual, escritor em Veneza e um amante da literatura. Tão inteligente quanto qualquer iluminista do século XVIII, mas brutalmente apaixonado por si mesmo. John tinha uma prepotência que não cabia nem nele mesmo. Não conseguia enxergar um palmo a frente do seu nariz. E eu sempre estava um palmo a frente do seu nariz. Não dava pra me relacionar com alguém que nem mesmo me notava. Desisti.

E foi nesse abrupto da realidade que me encontrei sabotando todos os meus relacionamentos. Quando eu vi John completamente encantado consigo mesmo percebi que era um pouco disso que me faltava. Um pouco de amor pelas curvas do meu corpo, pelo cabelo ainda brilhoso, a boca marcada por carmim e pelo talento reconhecido mundialmente. Era um pouco de autocompaixão também, de querer me amar dos pés até o último fio de cabelo. Eu me atentei para o fato de que Tony não era tão carinhoso assim e o seu melodrama nem era tão horrendo.  A verdade é que me fechara anos atrás para qualquer demonstração sincera de amor. E não me permitia ser amada. A gente aceita o amor que a gente acha que merece. Eu é que errei. Acabei acreditando nas histórias de mesa de bar para simplesmente não mergulhar fundo numa paixão com Richard. Forrar a verdade foi uma solução covarde e defensiva. Mas, não, Morgan realmente não dava pra ser. Vá lá, não dá pra topar com o cara em toda esquina que passar. Definitivamente, ele autossabotou.

E então decidi jogar mais uma moeda na Fonte de Trevos e não esperar a sorte cair do céu. Permiti-me ser feliz. E arriscar. Tentar. E mais uma vez cair na rede de algum homem errado, se fosse o caso, se não fosse autossabotagem. Mas nunca na de um homem grudento. Morgan me deixou traumatizada. E seletiva. 

Dani Fechine


Citação: "A gente aceita o amor que a gente acha que merece." do livro As Vantagens de Ser Invisível - Stephen Chbosky

31 outubro 2013

Você e(m) um bar

Você entrou naquele bar querendo correr de volta pra rua. Seu olhar meio indeciso em se esconder ou me procurar denunciava toda sua insatisfação em ter que me acompanhar em alguns drinks. Eu te esperei a noite inteira, e não perderia o momento exato de te ver pisar no assoalho já meio riscado do mesmo bar que a gente se conheceu. Você quis pegar o táxi de volta pra qualquer lugar do mundo quando nossa música tocou. Enquanto pra mim o melhor lugar do mundo estava entrando por aquela porta. Eu te procurei em alguns copos vazios e não te encontrei pra te tirar pra dançar. Você não estava ali. Estava em algum ambiente que não tivesse mesas e cadeiras acompanhadas de um balde de cerveja gelada e uma mulher te esperando pra ser feliz.

Você chegou, eu te chamei. Não deu tempo você pensar em dar meia volta e se arrepender no instante em que os sinos da porta tocaram. Fui até você. Convidei-te pra sentar. “Eu não posso demorar”. Foram as palavras mentirosas de alguém que quer, nesse exato momento, receber alguma ligação de emergência. “Você nunca demora.” Foi a minha resposta para as palavras saltitantes e gritantes de um homem que não consegue amar alguém que o ame também. Enquanto você me olhava com olhos de indiferença, eu quis te odiar para o resto da vida, da mesma forma que te odiei quando você bateu a porta da minha casa dizendo que nunca mais queria me ver. E voltou correndo enquanto eu te esperava sentada na mesa da cozinha, pronta para tomar de uma só vez a garrafa de vinho seco. Eu quis te odiar durante cada segundo do meu dia, quando você pediu, com cara de não-quero-estar-aqui, pra eu apressar a minha fala. Talvez seus tímpanos estourariam, sufocados por palavras sinceras. Você nunca as deve ter ouvido.

Não te falo nada. Nego qualquer esboço de tristeza. Sorrio e aproveito a sensação incontestável e indescritivelmente prazerosa de te ter ao meu lado. Eu passaria a vida inteira ao seu lado, ouvindo seu silêncio. Não ameaço sequer perguntar se está bem. Ofereço um gole, apenas erguendo um pouco a mão. Você vira a cabeça algumas vezes esperando encontrar algum conhecido que te livre desse martírio de me ter ao lado. Passam-se minutos, drinks de todas as cores, mais uma garrafa de água com gás, umas poucas palavras corriqueiras e uns três sorrisos falsos.

E então você se levanta e repete: “Não posso demorar.” Dá um último gole na sua água com gás, beija-me a cabeça e a mão, de modo que você demora um pouco pra soltá-la. Até que a distância já não te permite segurá-la. Tchau (com uma entonação de alívio). Tchau (com a voz quase desfalecendo). Antes de chegar à porta você para, me olha com olhos-de-adeus e fala baixinho, esperando que eu faça uma leitura labial, mesmo sabendo que nunca fui boa nisso: s-e c-u-i-d-a. E eu quis gritar: “Me cuida, meu bem. Leva-me contigo, seja pra tua casa, seja pra um outro bar. Convida-me pra dançar. Pra sentar ao teu lado. Pra dormir na tua casa. No teu sofá. Na tua cama. Liga-me no meio do dia, diz que está com saudades e que precisa me ver. Corre até o meu trabalho, me pede pra largar tudo, porque está com desejo do meu abraço, do meu perfume. Esquece essa de que amar é muito responsável, e entra comigo nessa irresponsabilidade mesmo. A gente se desorganiza devagar e vai dando certo. Volta e senta aqui nessa cadeira. Pede mais uma água. Ou um drink cubano. Mas não me vira as costas. Não bate a porta. Não pede o táxi. Pede a minha companhia. Levo-te pra casa. De ônibus espacial, de avião, carroça, balão, voando, nadando, como quiser. Levo-te embora pra qualquer lugar que esteja perto do meu coração. Mas não pede pra eu me cuidar. Não me liga um mês depois pra saber como eu estou. Não aparece de surpresa no meu portão dizendo que passou na rua e lembrou de mim. Não vai, meu bem. Se você der o próximo passo, eu dou o primeiro gole. E a gente se entende pro resto da vida. Você no Alasca, eu na Austrália. Você dormindo, eu acordando. E a gente vai se entendendo meio distante, porque entendimento nunca deu certo pro nosso amor. Me cuida, amor, me cuida e se desentende comigo. Assim a gente vai bem.

Mas não gritei. Acenei com um sorriso amarelo, uma lágrima de pedra esperando pra cair, e mais um drink fajuto na mão direita. A porta bateu. Os sinos tocaram novamente. E a garçonete perguntou: “Então, é só você?” E eu respondi: “Sempre”.

Dani Fechine



27 outubro 2013

De tudo ao meu amor serei 'lamento'

Sentarei na beira da cama para calçar meus sapatos. Farei as malas delicadamente, sem pressa, para nada esquecer. Pentearei os cabelos pela última vez nessa penteadeira enferrujada, que recebi promessas de pintura durante os 3 anos. Não ligo para o que ficar. Faça bom proveito dos móveis e desses cômodos com cheiro de saudade. Quero apenas os meus chinelos, a garrafa de vinho que comprei semana passada e a escrivaninha, que depois de sete meses, consegui colocar no seu escritório intocável. Quanto aos livros, são todos meus. Cada página amarela, cada dedicatória. Estou saindo de mente vazia e coração aberto.

Não te esperarei chegar. Você não vai chegar. E eu demoro muito a acreditar. Odeio despedidas. Lamentos. E homens derramando lágrimas, verossímeis ou não. Saio na ponta dos pés para não deixar rastros. A chave está em cima da mesinha da sala, perto do arranjo que ganhamos dos meus pais no Natal passado. Só que sem o arranjo. Estou empacotando-o também. Sem a chave. E sem esse aviso.

Minto, amor. Saio de coração na mão. Peito sangrando. Sem ar. Sem fome. Sem vontade. Sem coragem. Com saudade. Com dor. Com uma vontade incessante de te encontrar, seja onde for. Saio porque seu cheiro ficou. Suas gravatas. Camisas. Sapatos. Até seus óculos ficaram. Esses levarei, talvez sejam-me úteis. Saio porque a xícara de café ainda está na cozinha. Suja. O iogurte foi aberto e ninguém tomou. O bolo foi deixado pela metade. E o almoço, nem comecei. Você não ficou pra almoçar. E não te verei no jantar. Saio de mente cheia, atordoada. Esquece os passos de bailarina. Saio correndo. Batendo a porta. Abrindo a garrafa de vinho dentro do elevador. Ofereço ao moço de bigode que dirige o táxi, mas ele não aceita. Me olha com cara de reprovação. Senti na pele a dor de uma loucura. Estou saindo de corpo e alma. De meia calça preta. Vestido preto. Sapatos pretos. Pintei até os cabelos.

Estou saindo de costas para não te ver em todos os lugares. Se pudesse, vendava-me. Os olhos estão pesados de maquiagem preta, muito rímel, muita tinta, muito carmin. Porque pior do que fazer uma mulher chorar, é deixá-la borrar a maquiagem por isso. Saio com o cheiro das suas roupas ainda nas minhas. Isso eu não consegui deixar. Não consegui deixar também o carinho. O beijo na testa. O abraço apertado. O 'bom dia' mal-humorado. As surpresas ao meio-dia. O jantar à luz de velas. O cartão de Natal. As bodas de papel. Não consegui deixar a marca do beijo. O toque das mãos. O alisar nos cabelos. O filme a dois. O medo protegido. A bagunça organizada. E o coração partido. Levo comigo apenas a certeza de te ter pra sempre.

Saio correndo. Batendo os pés. Fazendo birra. Não quero te ver no corredor ou correndo pra pegar o elevador. Isso não vai acontecer. Mas parece que dobrarei a esquina e te verei chegando com alguns doces comprados na confeitaria do bairro vizinho. Corro pra não dar satisfações ao seu Zé. Pra não te ouvir pedindo pra bater a porta ao sair. Estou saindo, meu bem. Estou saindo porque as fotos já me doem muito. O sofá tem dois lugares e eu sou só uma. As cervejas, sempre aos pares. As almofadas, com seu cheiro. O tapete, com seus chinelos. E o Fred, nosso cachorro-gente, está com uma depressão filha da mãe porque você não o levou pra passear na noite passada. Ele sente sua falta. E eu não consigo cobri-la. Saio pra te encontrar na copa das árvores. Nas estrelas do céu. Na Lua cheia. No balançar da flores. Nas folhas secas ao chão. No bom dia do padeiro. No moço simpático do trem. Saio pra te encontrar, em qualquer lugar que seja, mas que não seja na nossa casa. No nosso mundo. Na nossa vida. Essa lembrança ordinária de te ver em todos os lugares. Deitado na cama. Bagunçando o cabelo. Saindo apressado. E voltando numa pressa ainda maior e inadmissível, porque, afinal, esqueceu as chaves. E esqueceu de mim também. Esqueceu de me guardar numa gaveta. Num guarda-roupa. Ou de levar-me com você. Você esqueceu, meu bem, que amor não se morre. Que o corpo da gente vira cinza, enquanto o coração vira dor. Que a gente chora, enquanto o amor se exalta. Você esqueceu, com toda essa memória infinda, que a gente ainda não teve um casal de dálmatas pra cuidar. Ou bebês. Que seja. Você se foi antes dos 30. Ninguém se vai antes dos 30. Que injusto, que desumano. Estou batendo a porta, amor, mas você vem comigo. Estou saindo. Mas deixo a escova de dente, o travesseiro e o coração.

Dani Fechine

21 outubro 2013

Tão exato como 1+1 = 1

"Olha, moço, eu estou aqui na tua casa mas resolvi ainda não tocar a campainha. O tempo ta fechado, o vento ta frio e eu esqueci o casaco, porque a pressa em te ver já estava grande demais. Eu não sei como cheguei até aqui. Fui andando. E como num livro que eu li posso te dizer que "tenho dirigido em direção a você o tempo todo, querendo apenas um coisa: nosso reencontro". Só que estou a pé. Calço o tênis branco meio sujo, meio gasto que você gosta. Até o momento já ergui a mão duas vezes em uma simples tentativa de bater na tua porta. Já abri a boca umas cinco pra gritar seu some ou até um 'sou eu', mas nenhuma palavra foi dita. Não consigo. Já passaram duas senhoras apressadas pra não pegar a chuva, agarradas em seus cachecóis. O vizinho da frente já acendeu a luz da varanda umas duas vezes, no mínimo, e ficou me olhando pela janela como se eu fosse uma estranha esperando o momento certo para invadir a casa de um homem que é ridiculamente apaixonante e permanece estupidamente sóbrio para entender qualquer coisa que envolva 'amor' e 'nós dois'.

Eu não sei se você está aí dentro. Ouço, lá no fundo, aquela sua música favorita tocar, mas como ela é trilha sonora da sua casa, da sua vida, fico na dúvida se sua presença está ausente ou não. Parece-me ridículo te visitar sem data e hora marcada, numa terça-feira a noite prestes a cair uma tempestade. Pergunte-me como voltarei pra casa e não saberei responder porque isso é o que menos me importa agora. Dizer que eu te amo ainda é o maior desafio do dia de hoje. Desisti realmente de olhar no seu olho. Esse seu olhar de não-quero-entender-nada-disso-porque-é-mais-fácil me faz querer sentar no primeiro degrau da sua varanda e escrever-te o que minha boca deveria falar-te.

Então, Dex. Como vai? Eu poderia começar com 'eu' e terminar com 'amo', mas não quero ir direto ao assunto, então não vou começar por aí. Eu imagino a sua cara de não-quero-ler-isso ao pegar o envelope que passei por debaixo da porta. Vejo seu desinteresse de longe. Daqui de fora. Mas por favor, se já chegou até aqui, continue. Se não rasgou, já é um bom começo.

Você pode ser bem melhor do que já é. Esse seu jeito desconectado de mim não faz bem. Pra mim e pra você. Eu poderia no momento estar em casa ou em alguma festa indie, com alguns amigos ou simplesmente com algum amigo. Mas vim bater na sua porta. E você deve estar se perguntando porque. Eu vim aqui esperando não te ver sorrir. Com esse puxar de olhos e esses dentes brancos que brilham em sua boca, as coisas ficariam bem mais difíceis. Você não me chama nenhum pouco a atenção, Dex. Mas sua voz já me deixa impossibilitada de qualquer reação normal. Não é justo você causar espasmos nas pessoas sem ao menos ter a intenção de amá-las por no mínimo um mês. Afinal, não é justo amá-las por um mês.

Eu faço uma promessa todas as noites e a quebro pela manhã. "Não o procure". E acordo esperando um bip seu no celular. Você me faz quebrar promessas. Caia na real, Dex. Você também tem quebrado a sua maior promessa: ser feliz. E eu não posso reatá-la. Não até você querer. Dia desses, nessas terças-feiras ociosas, você passou por mim numa pressa quase impossível de te ver. Você parecia correr em busca de algo muito bom, embora seu rosto não fosse o mais feliz que eu já avistei. Mas você passou por mim e nem notou meu cheiro, não reparou no vermelho dos meus cabelos nem no tênis branco que eu achei que gostasse. Você não estava com pressa de mim. Nem de felicidade. Porque você dobrou a esquina e me deixou sentada na cafeteria ao lado. Assim como eu, você dirige em busca de alguma coisa que nem você mesmo sabe o que. Estaciona, vai. Estaciona e desce desse carro. Toma um ar, aspira coisas boas. Vai a pé também. Quem sabe a gente não se encontra no meio da estrada. Numa curva qualquer. Num cruzamento. Quem sabe.

Se meu coração palpita. Se minha barriga dá sinal de existência. Se minhas pernas tremem. Se as lágrimas escorrem. Se o sorriso é instantâneo. E se? Eu ainda nem sei a junção dessas loucuras. Essas exatidões não batem. Elas correm, se escondem. Mas não fecham como uma conta de mais. Estou tentando explicar algo que por mais clichê que pareça, não há explicação. Descrição. Adjetivação. Não há sinônimos, pronomes, substantivos nem vírgulas. O que quero te dizer, Dex, é tão exato quanto a sua pressa em passar por mim, quanto a minha lentidão em ficar. Sabe o que mais, Dex?"

E então, num súbito olhar para trás, observo lentamente você abrir a porta, fechá-la com delicadeza, sentar-se ao meu lado e me oferecer não só um casaco mas também uma xícara de chocolate quente, acrescentando com um sorriso completamente insinuoso e querendo concordar com cada linha que eu havia escrito (mesmo sem nada ter lido):
- Não sei quanto tempo passará aqui, sentada, então resolvi te trazer algumas coisas que te façam demorar mais um pouco. - Eu poderia sequer piscar os olhos. Mas em um só lance, fechei meu bloco de anotações, e soltei em uma frase tudo que tentei escrever até agora:
- Esta noite eu estou querendo dizer que eu te amo. O que você acha?
- Que lá dentro está bem mais quente. E que eu esperei até este momento pra dizer: "Eu também amo você."

Dani Fechine

15 agosto 2013

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!". Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabor

10 agosto 2013

Foge e fica


Parecia meio imprevisível e até surreal, mas te ver chegar, acelerar meu coração e tomar a minha fala fez tudo ser real demais. E até explícito, arrisco. O mesmo rosto de criança e a mesma conduta de adulto. Como você conseguia ser sempre um anti-herói de chinelos perdidamente apaixonante? Você transborda aquela mistura inata de vilão e mocinho. Gosto do seu lado vilão; quando você senta no sofá meio irritado: ou alguém pisou feio na bola ou foi você que pôs tudo a perder. Não foi futebol. De cara eu sei que não. Mas amo seu lado mocinho meio invisível: esse seu carinho singular e essa sua atenção que exala simpatia.

Olha Gerry, não sorri assim pra mim. Meu coração é fraco e minha paixão por sorrisos é escandalosa. Esquece de mirar em mim quando me avistar, ou tira os óculos pra não me ver. Tudo isso pra você não reparar o meu sorriso bobo (e ridículo) e essa minha cara de romântica em Paris. Não se aproxime! Pare onde está e não me toque. Não me deixe sentir o choque que você me causa porque a voltagem é tremenda, pode nos matar, Gerry. Pro seu bem, não me abrace. Não me prenda em você. Não diz que foi um prazer. Não diz que tava com saudades. Não me envolve nos teus braços porque eu não saio nunca mais. Eu juro passar o resto da noite com a cabeça no teu ombro e eu nem ligo pro desconforto e nem acho ruim se eu pegar no sono. Não me dirija a palavra, não fale o que eu quero ouvir, não pegue na minha mão pra me falar algo sério. Por favor, Gerry! Meu coração tem um mandado de restrição contra você. O advogado dele, o cérebro, você sabe, disse que é melhor manter distância porque proximidade intelectual e atração eletromagnética é uma ferramente indestrutível: pode matar os dois de amor.

E então você se aproxima, me traz aquele sorriso irresistível e apaixonante. Você mira em mim de longe e ajusta os óculos pra não deixá-los cair. Mas parece que você irradia um veneno muito forte que mesmo de longe consegue me atingir. Espero que você não tenha reparado que eu respondi o seu sorriso como uma criança sorrir ao ganhar uma balinha. Então você acelera os passos e corre um pouco no final. Para bem na minha frente e respira fundo pra retomar o fôlego. Agora estamos na frente da confeitaria mais romântica da cidade e a partir de agora será o meu lugar favorito. Você me abraça apertado e isso é como um imã. 

Sinto você sorrir do outro lado; eu fecho os olhos e me entrego ao acaso. Tudo se perdeu. Já era, Gerry. Fomos longe demais pra rebobinar a fita. Fechei os olhos e sorri. Ou de alívio ou quem sabe de desespero. Você desgruda e eu nem sei como você consegue. Pega minha mão e olha fundo nos meus olhos, diz que sentiu saudades e que a melhor coisa que aconteceu até agora foi ter me encontrado e ainda completa (querendo ser preso por homicídio doloso):

- Sophie, que o mundo não me escute, mas eu não paro de pensar em você. (Eu vi o desespero nos seus olhos, de quem já não sabia mais o que fazer. Não dava mais pra correr. Impregnou no coração.)
- E que você não me escute, Gerry, porque eu também não paro de pensar em você.
E contrariando toda a física, a racionalidade e um pouco de sanidade que ainda existia, você se aproxima ainda mais, afasta o cabelo do meu rosto e tira os olhos dos meus. Meu batom vermelho agora é alvo. Você me beija. Eu me encontro. Você se perde. E meu coração sinaliza: "eu avisei".


Dani Fechine

30 julho 2013

Sobre o que você causou

No dia em que você se despediu da minha vida eu corri pro aeroporto. Fiz as malas, pus casaco e regatas, botas e chinelos. Comprei a passagem para o próximo voo e nem quis saber qual era. Enfiei o bilhete no bolso de trás da calça e fui em busca de alguém diferente do que eu era há minutos atrás. Ou na verdade em busca de mim mesmo. A poltrona que a moça simpática do check-in me colocou dava pra observar tudo que eu deixava pra trás. Abri o suporte de apoio e me coloquei a escrever.

Comecei falando sobre o quanto a gente se entrega fácil. A tudo. O quanto a gente absorve a tristeza e a solidão e esquece que ali embaixo, com todas aquelas luzes, há algo ou alguém muito bom pra nos fazer feliz. De novo. Escrevi sobre o quanto a gente se apega às coisas e às pessoas, e que isso nunca vai ter um lado bom. O ciclo da vida é muto simples e a gente aprende desde criança o sentido biológico: nasce, cresce, (talvez) reproduz e morre. Mas você mudou a ordem do sistema e nesse caso altera ridiculamente o produto e o produtor. Não se morre antes de reproduzir, quero dizer, antes de deixar pedacinhos nosso nesse mundo. É um pecado mortal não deixar um "clone" pra alguém que a gente ama. E você não deveria ter partido assim, deixando apenas suas camisas, calças, sapatos, livros e um cordão que eu gostava muito e que agora não sai do meu pescoço e que me faz lembrar sempre do quanto você ficava lindo com ele, me fazendo chorar muito porque ele recupera uma vida inteira em questão de segundos. O ser humano adora um martírio. Nós somos masoquistas conscientes e parece gostamos disso.
Contei pro papel como foi que a gente se conheceu e como o destino é esperto. Mais do que qualquer pessoa que se acha muito inteligente. Ele te colocou no meu caminho e me colocou no seu, pra que você cuidasse de mim e principalmente pra que eu cuidasse de você. Olha agora a minha culpa, Dex. Eu só posso ter cuidado muito mal de você pra ser deixava assim, no meio de uma noite fria de uma terça-feira. Só pode ser brincadeira você me deixar no mesmo dia da semana que você chegou.

Não podia deixar de jogar naquelas linhas algumas das lições que sua passagem deixou nesse mundo. Por exemplo, que a gente deve fugir de toda negatividade. Que a quantidade de pessoas que querem nossa derrota muitas vezes supera a bondade humana, e que mesmo assim a gente deve fechar os olhos e estender a mão a quem nos quer bem e em hipótese alguma apontar o dedo aos invejosos. Você sempre me ensinou a não devolver um "tapa na cara" ou uma palavra mal encaixada. Com tanta coisa pra você mudar nesse caos aqui debaixo, porque você foi embora justo agora? Eu sei. Eu sinto o egoísmo pulsar nas minhas veias. Sinto aquela vontade tardia de brigar com o mundo ou com quem sabe-se lá levou você de mim. Não é egoísmo, eu prometo. É apenas uma singela saudade de me despedir de você hoje a noite, de devolver o abraço afetuoso e apertado, tão singular e tão preciso. É uma forte lembrança que bate no peito como se a qualquer momento eu fosse vomitar toda a minha vida ao seu lado e todas as nossas despedidas e chegadas. É apenas um chocalho que tem dentro de mim e que insiste em me incomodar, fazendo-me recordar a cada milésimo de segundo do nosso último sorriso, do nosso último beijo, do nosso último abraço. Das suas mãos em meu cabelo, do seu beijo na testa e dessa sua coragem indiscutível de morrer.

No dia que você foi embora, eu pensei em correr pro aeroporto e fugir da sua ausência presente que ficou na cidade, no bairro, no apartamento apertado, na sala colada na cozinha e no último quarto do corredor. Em vez disso eu dei meia volta e escrevi um livro inteiro sobre você, sobre nós e sobre o quanto é importante superar a partida de alguém. Não importa como for. Vai "comigo", Dex.

Dani Fechine (baseado na IDEIA da música Oitavo Andar - Uma Canção Sobre Amor de Clarice Falcão)

25 julho 2013

(amor) e ódio

Era uma terça-feira nebulosa, nublada, muitas nuvens e pouco céu. Em dias como esse andar pelas ruas frias da Irlanda parecia a alternativa mais óbvia e fria para Emily. Afinal, quem ela poderia encontrar numa cidadezinha pequena e "desconhecida" da Irlanda?
Gerry. Claro.
- Emily, o que faz aqui? (ele me perguntou um pouco menos assustado que eu).
- (Vim esvaziar a cabeça. De você. Escolhi esse vilarejo a dedo, como quem escolhe a melhor roupa para um jantar romântico [não sendo eu, claro]. Mas parece que você sempre me encontra e reencontra. Ou adivinha).
Ah, vim a trabalho, Gerry.
- E como você está, Em? Me parece que os últimos meses não foram tão fáceis. Ou foram diferentes, arrisco.
- (Não está nada bem. O mundo parece que desabou desde que você se foi, desde que você deixou aquele bilhete embaixo do abajur como se eu merecesse ver a sua letra ridícula e de quem estava com pressa, dizendo que não quer me ver sofrer. "Adeus". Era tudo que eu queria ouvir [muito menos ler] de alguém que viveu uma vida ao meu lado e depois como num acender/apagar de um abajur enferrujado desaparece sem mostrar a cara. Nem sequer uma mensagem de voz, uma ligação - que seria uma atitude um pouco menos estúpida. Foi muita covardia da sua parte. Eu queria dizer que você escolheu um dos piores dias para acabar com a mina vida. Se o senhor-artista-de-televisão-ocupado-com-as-garotinhas não se lembra, eu posso refrescar um poucos sua memória. Dia 6 de dezembro. Isso te lembra alguma coisa? Ah! Talvez fosse o meu aniversário ou quem sabe o NOSSO aniversário de mil anos de "estar juntos" (como você mesmo dizia em todos os cartões das flores meio murchas que sua secretária me mandava porque ela se lembrou disso, não você). Talvez você nem esperasse que eu chegaria em casa com alguma surpresa ou com algumas passagens para um vilarejo escondido na Irlanda. Talvez você não esperasse de mim o que eu sempre esperei de você. Talvez a Irlanda fosse fria demais ou monótoma demais ou pequena demais. Ou talvez eu fosse uma companhia um tanto chata. Porque até o abajur com sua lâmpada quase queimada teve a audácia e o privilégio de receber um bilhetinho dizendo que "acabou". Ele deve ter apagado e acendido as luzes algumas vezes numa rapidez que eu até imagino que você se assustou. Até porque você detesta assombração. Mas fica calmo, Gerry. Ele já estava meio ruim. Assim como eu também. E eu quero te pedir desculpa se eu me tornar uma assombração. Mas foi você que pediu distância. Eu fiz o máximo que eu pude. Atravessei o Atlântico e você nem notou. Você não é mesmo um homem que se possa ser digno dessa palavra, Gerry. Mas ainda assim, obrigada. Obrigada por me livrar de você. Estou vazia. Vazia dos sentimentos asquerosos que você expeliu em mim. Estou vazia e fria. Seca. É só uma pena você ter escolhido a pior maneira para isso. Foda-se. Você e o seu bilhete escrito na comanda do bar da esquina.)
Estou ótima, Gerry. Mas estou com pressa. Preciso ir, tenho uma pilha de livros para avaliar. A cidade é pequena, a gente e vê no bar mais próximo, não tenho dúvida. Bom te ver. Tchau!
- Tchau, Em. Saudades suas.
- (Canalha!) Então eu aceno e desapareço de vista. Pra sempre.

13 julho 2013

Seco (a), por favor

A forma como você bateu a porta denunciou todo o seu silêncio durante a longa noite de 30 minutos. Deve ter sido o vinho suave que eu te ofereci e que na verdade era seco que você queria. Você sabe que não foi o vinho. Mas eu prefiro achar que foi. E se eu te disser que. Que o que? Que não foi o vinho. Diga. Foi o vinho e uma livraria inteira que havia naquela taça; foi essa sua nudez facial, esse seu olhar indiferente achando que um vinho sempre resolve tudo. O vinho seco até que ajudaria um pouco. Eu bati a porta querendo escancarar o mundo; querendo que no próximo passo a vida fosse mais doce (e banhada a vinho seco) e fosse mais colorida e mais a meu favor e ao mesmo tempo mais escura mais a minha cara mais silenciosa mais indecisa e sem pontuação. Eu bati a porta da sua casa porque era preciso. Era a mínima reação plausível após uma noite regada a vinho suave. Mas você disse que não foi o vinho. Não foi só; foi esse seu modo burguês de falar, essa puxada na calça quando você se senta acompanhada de uma expressão como se não aguentasse mais o meu silêncio ou qualquer outra coisa que eu estivesse fazendo em excesso; você revira os olhos numa feição de impaciência que, sinceramente, só cabe em mim. Mas aí então você sorri, diz que entende tudo e pede desculpa por algo que nem mesmo você, com essa cara lavada, sabe o motivo. Não foi só o vinho. Foi essa mania de achar que um pedido de desculpa cachorro-dando-a-patinha-pra-brincar sempre é solução.

Lembra-se daquele dia nublado que você bateu a porta? (É, ele também já bateu a porta). E bastou o primeiro passo para a tempestade cair? Lembro; e eu dei meia volta; eu te abracei; eu te falei que foi um sinal; e eu te pedi desculpas. E o que eu fiz? Você me deu o guarda-chuva preto meio enferrujado. E você foi como se não houvesse mais nada que te impedisse de ficar. Você sempre só precisou disso. De um guarda-chuva. Ou um “guarda-tudo”. Alguma coisa prática e manual. E eu nunca fui prática e manual. Eu sempre precisei de mim, de pessoas humanas e nada automáticas e de um vinho seco para os momentos que você batesse a porta.

Quando fui eu que bati e dei o primeiro passo, olha que surpresa, caiu uma tempestade. Eu não dei meia volta muito menos te abracei. Mas foi um sinal. Talvez fosse São Pedro me avisando que a história nunca deve se repetir. Eu entendi que ele queria que eu tomasse um bom banho de chuva pra tirar toda essa automatização que você causa nas pessoas. Toda essa coisa que não é humana. Era São Pedro chorando de felicidade porque eu preferi a mim do que a você.

E olha que na verdade eu bati a porta no desejo de você abri-la, me puxar pelo braço e dizer que tem um vinho seco naquela adega pequena da cozinha. Aí eu volto. Você me pede desculpas, eu aceito e a gente enche as taças.                                                                                                               
Dani Fechine   

04 julho 2013

Era (quase) amor

Não foi a sua aparência meio destrambelhada, nem essa sua voz que ecoou dentro do cinema na fila da frente. Não foi o fato de você ter pisado na barra do meu vestido longo – o que me fez perceber que eles não precisam ser tão longos assim. Não foi (muito menos) esse teu jeito confortável, digamos assim, de se vestir. Foi o sorriso que você me deu achando que eu estava tão apaixonado quanto você por todas aquelas mentiras ficcionais do filme que a tela produzia. Você sorriu pra mim como se eu entendesse esse seu linguajar expressivo. Como se eu te conhecesse. Como se aquele lugar vazio ao seu lado fosse meu.

Não. Eu não amo filmes de ficção. Fico mais com as comédias românticas baseadas em fatos reais. Mas estava ali, porque eu até gosto um pouco de mentiras que são de mentiras. E uma coisa que você não sabe é que eu guardei aquele bilhete de entrada, porque nunca alguém havia sorrido daquela forma sem que eu pedisse ou ajudasse a fazê-lo. Foi o seu olhar sincero, achando que a gente se parecia em alguma coisa. Foi essa simplicidade ímpar que iluminava a sala. Pareceu-me amor. Mas era quase. Com certeza, com tanta bagagem de ficção científica, você não acreditava em amor a primeira vista, muito menos em destino. Mas eu, com meus romances e minhas histórias reais, estava esperando um cavalheiro (não um príncipe) descer de seu cavalo branco e pedir a minha mão. Você poderia ser esse cavalheiro. E poderia vir a pé mesmo, até gosto de caminhar um pouco.

Era uma espécie de empatia, de atração dos campos magnéticas ou atração cósmica. Era quase amor. Mas havia um pouco mais de mistério, curiosidade de desvendar o outro. Poderia, inclusive, ser apenas isso. Mas não. Olhares não se cruzam dessa forma e sorrisos não são compartilhados com frequência nessa sintonia. Poderia ser cuidado. Pressentimento. Intuição. Uma forma (meio complicada) de se comunicar. E tinha tantas poltronas vazias, porque tão distante? Não. Não havia de ser nada. Mas era. E não foi aquele filme chato que me fez pensar tanto. Aquelas lutas mais mentirosas do que ex-namorado. Aquela ficção fajuta. Foi a realidade que acontecia em frente à tela, que por sinal até se assemelhava a alguns dos romances que já li.

Foi por querer tanto que a sua sinceridade escapulisse, foi por querer tanto que fosse carinho (ou amor), que eu saí da sala antes das letrinhas finais. Saí como alguém que recebe uma ligação de emergência. Mas sem a ligação. Era urgente mesmo. Muito. Era amor. Quer mais urgência que isso? Fugi, corri, procurei o local mais escondido daquele cinema, porque amor, moço, é coisa séria, e no mínimo dá um medo tremendo. Deixei a sala antes das palmas, afinal, eu sabia que você iria esperar aquela cena depois dos créditos. E como toda mulher realista eu sabia que nenhum cavalheiro de armadura viria me seguir. Dito e feito. Nenhum cavalheiro de armadura resolveu me surpreender com suas “frases feitas e de efeitos” de contos de fadas. Mas você sim. E não adiantava mais fugir. Quando o coração da gente acelera, já era. Ou morre ou se entrega. E com uma vida tão longa pela frente, era melhor se entregar. Mas antes que eu falasse  que era amor e que o seu sorriso se encaixava no meu, você não pestanejou:  – Moça, é amor sim. Eu percebi quando eu te vi saindo com esse ar de desespero, com esse jeito de quem não quer sentir o frio na barriga novamente e com essa feição de quem sabe que se é amor, não adianta fugir. Moça, eu sei que é amor. O filme ainda não acabou, os créditos ainda não subiram e consequentemente a cena final ainda não apareceu. Mas eu vim aqui te entregar o livro que você deixou cair e te dizer que eu larguei os momentos finais do último filme da trilogia pra te dizer que a poltrona vazia estava sim reservada pra você. 

Dani Fechine

08 março 2013

Metade completa

Naquele dia, se abraçaram como se fosse o último, riram como se não fosse mais o fazer, brincaram como se aquele momento se eternizasse e se beijaram como se fosse o último beijo de fim de tarde. Naquele dia deixaram de ser um, pra ser meio a meio. Aquele dia marcado na agenda, marcou também o coração (que parou de bater por um instante). Morreram e reavivaram de outra forma. Aquele dia nasceu como um outro qualquer, mas terminou como aquele filme com seu final reflexivo, criativo, inesperado e infiel ao livro. Aquele dia em que se olharam pouco, foi o dia em que se viram mais. Nas palavras. Se traduziram em versos, em risadas e em suspiros de quem já está com saudades do amanhã que (parece) que vai nascer. Naquele dia chuvoso, eles puderam sentir o que tão tarde sentirão. Daquele dia em diante eram metade um, metade o outro. Deixaram de ser a unidade, deixaram de ser os falatórios do dia seguinte, e deixaram de ser o problema carregado em suas próprias costas. Mas deixaram as fotos, as lembranças, as conversas, as mensagens trocadas, as vozes de "boa noite", o pedido de "até logo" e o grito de saudade. Deixaram consigo. Guardaram. E sentem até hoje o último suspiro. Gravaram as frases, as fotos declaratórias e guardaram, inclusive, aquele dia tempestuoso. Naquele fim de tarde deixaram os sonhos se romperem. Foi o dia em que passaram do futuro construído, para um passado bem feito. Passaram do presente atordoado para uma folha em branco, um amanhã estranhamente complicado de se escrever. Deixaram, com toda longevidade existente, as mãos que um dia se cruzaram. Deixaram voar os desejos que um dia puderam esclarecer e sonhar um pouco mais. Foi como empinar uma pipa e deixá-la voar por algum tempo até ficar presa em algum telhado ou poste de iluminação. Foi como abrir a gaiola de uma passarinho e ele não querer voar. A liberdade, pra ele, estava ali dentro, e o amor e o carinho do lado de fora não seriam os mesmos. Impetuosamente deixaram a Lua, com toda sua beleza divina, nascer sozinha na imensidão do mar. Lá na linha do horizonte. Aquela bola laranja e grande. Deixaram surgir sem mais os seguir. Naquele dia tão confuso e assimétrico, continuaram os mesmo de ontem, ainda que com todo amor do mundo.
Naquela noite meio nebulosa, voltaram pra casa como saíram um dia: amigos no papel, amores no coração

Dani Fechine