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21 janeiro 2015

Casamento



Dez e meia. Não havia mais ansiedade que fizesse meu coração disparar. A igreja encantava aos olhos de todos e os meus já não aguentavam mais segurar as lágrimas. Ela entrou deslumbrante. Triunfante, eu diria. Simples, como sempre foi. O nude marcando a boca e o vermelho pulsando no coração. Ele passava as mãos uma na outra. Estava nervoso. A distância entre eles nunca foi tão grande. Queria estender a mão para encurtar o caminho, mas decidiu admirar, aquela que seria a mulher da sua vida, deslizar pelo tapete. Ele. Ela. Casando, os dois. Difícil acreditar. 

Eu estava em pé, bem ao lado do altar dos noivos. Fui escolhida pra ser madrinha e nada mais bonito que testemunhar o amor de dois grandes amigos. Logo eu. Eu que tanto torci por eles. Eu que presenciei desde a infância a união de duas crianças que, quando adultos, tornariam-se um só. Eu que hoje tento conter a emoção de ver o sorriso largo no rosto dela e os olhos brilharem nas feições dele. 

Os dois estavam lindos, juntos. Ao beijá-la a testa na chegada ao altar pude perceber a felicidade escorrer pelos olhos dele. Naquele instante eu sabia o que felicidade significava. E era amor. As mãos foram cruzadas e parecia que nem mesmo um grande vendaval fosse capaz de desgrudá-las. Tanto tempo esperando por esse momento, enfim, realizaram o que seria um sonho a dois. 

Ela, numa beleza cândida, era capaz de reluzir o mais obscuro lugar. Ele, ainda sem acreditar que seus sonhos estavam sendo escritos, transparecia satisfação. Os pais, compartilhados durante os anos juntos, não se continham. Os filhos estavam voando para um só ninho. Acabavam de se despedir de uma vida para começar uma nova. E, embora fosse difícil entregá-los a outras pessoas, os quatro exalavam a confiança necessária para que seus filhos proferissem o “sim” sem preocupação.

Eu, que daria a minha felicidade para vê-los sorrindo como estão, abaixo a cabeça numa forma de agradecimento. Não peço mais nada. Minhas preces já foram atendidas: enfim, trocaram as alianças. Mas rogo para que nada se dissipe, tudo se engrandeça. Sorrio disfarçadamente, sem mostrar os dentes, respondendo a tudo que estava acontecendo a minha volta. Pisco os olhos devagar. Sinto que minha missão chegou ao fim. Estou feliz.

E, como um selo do amor eterno, o beijo que deram pela primeira vez ainda na escola foi refeito doze anos depois. O que eu via eram duas crianças na inocência do primeiro encontro. Dessa vez, se iniciava o começo do resto de suas vidas. Ele. Casando. Com ela. Descobri a felicidade.

(...)
A vida prega peças. (...) A vida é quem dita as regras.


Dani Fechine

26 novembro 2014

Clara



Na multidão silenciava, na introspecção se divertia. Clara era aquela que ninguém conhecia, mas que carregava consigo um amor inabitado. De livro nas mãos andava pelas suas e onde parava abria na página em que terminara na última vez. Não perdia a progressão. Tinha uma memória larga e um pensamento vasto. Nos momentos de intervalo de uma leitura a outra, Clara imaginava o que poderia vir nos próximos capítulos. Criava os seus próprios personagens para que fossem logo quebrados nas linhas seguintes. 

Sobre ela? Ah, Clara era personagem do seu próprio mundo desconhecido. Amara em silêncio aquele que já a amou em voz alta. Era impedida por ela mesma de voltar atrás. O orgulho sempre foi maior que o seu coração. Esse é um defeito seu que ainda não aprendeu a superar. Nem suas leituras diárias e repletas de vidas interligadas e entrepostas na sua foram capazes de mudar um pouco o individualismo vaidoso que carregou 22 anos da sua vida. 

Clara amava como ninguém. Era da moda antiga. E infinitamente capaz de entregar-se ao sentimento. Mas não ao homem a quem deveria receber esse amor. Clara era dela e somente dela. Vivia habitada no seu mundo meio cinzento e espalhava o seu amor aos quatros cantos. Do quarto. Perdeu a crença nas pessoas. Tanta leitura, tanta imaginação. O seu mundo pessoal e introspectivo parecia mais interessante do que a gritaria lá de fora. Não deixou de recriá-las. Ouvia Chico Buarque no banho, mas pela melodia, pela poesia. A melosidade nunca lhe agradou. Era feita de espinhos internos onde a subjetiva entrava rasgando tudo. 

Escrevia. Mas escrevia para si. Não era sua intenção explodir o mundo inteiro com palavras que nunca foram ditas. Nunca quis ocupar as pessoas com seus questionamentos e suas teses infantis, mas racionais. Se tinha uma coisa que Clara tinha certeza é que ela sabia. Sabia do que sentia. E sentia exatamente o que sabia. Seus apontamentos nunca desviaram a linha da verdade. Como toda mulher, Clara sabia. E vivia muitas vidas por isso, no sentido de escrever várias delas. Criava. E com isso se recriava.

Clara era amor em palavras. Mas rancor em sentimentos próprios. Era mágoa. Lembranças. Marcas de histórias remendadas e mal acabadas. Clara era uma vida não vivida. Era composta por amores inesquecíveis. E dos que podia esquecer fazia questão de lembrar. Suas caixas sempre foram seus tesouros martirizados. Vez ou outra tirava do esconderijo o que os olhos não alcançavam. Só o coração era capaz de atingir.

Clara era isso tudo e não era nada. Mas tinha amor. Embora guardado. Embora contido. Embora só seu. Era amor. E era disso que se alimentava. As vezes espalhava em palavras. As vezes em verbos mal posicionados. Mas era amor. E habitava nela de alguma forma. Clara ninguém viu, ninguém sabe, ninguém cogita traduzi-la. Ela é amor e nem disso sabe. Clara é oca para o mundo. Mas transborda para si mesma. 

Dani Fechine

25 setembro 2014

Novo lar



Entrei devagar sem a pretensão de mostrar que ali eu estava. Não queria fazer tumulto, não queria que minha presença fosse notada, muito menos que o estrago fosse grande. Eu entrei ainda de cabeça baixa, mas sempre olhando um pouco pra frente, tentando enxergar se o futuro tinha algo a me dizer. Não, ele não tinha. Me mandava seguir sem pensar muito nele.

Quando cheguei não quis ser feliz de imediato. Nem procurei paz, amor e carinho no primeiro olhar. Quis conhecer a nova casa, o novo lar. Aproveitar o cômodo novo para me fazer nova também. Quis me aconchegar um pouco na poltrona velha, mas confortável. Eu fui entrando de fininho, sem chinelos, de ponta de pé. Sem samba nem rock. Fui sem música e sem melodia pra não atrapalhar. Fui convidada a entrar e entrei ainda pedindo licença. “Com licença, moço, posso entrar? É que a bagunça pode ser maior do que você imagina.”

E entrei. Cada passo foi uma nova forma de conhecer o mundo por outro lado: o ângulo do “deixa estar”. Entrei pra viver cada dia como o único da minha vida, até que chegasse o tempo de começar a entendê-lo como o início de alguma etapa. Eu entrei no meu novo lar divagando pelos móveis. Queria conhecer cada lugarzinho daquele espaço. Queria fazer parte dessa outra vida, ser necessária, ser uma só. Quando fui convidada a entrar não pensei muito. Casa nova, vida nova. Fui com o pé direito e me (ar)risquei no novo assoalho de madeira.

Quando eu pude recuar, eu já não queria mais. Já havia tomado conta de mim toda a mobília da casa. A decoração era de uma engenhosidade magnífica, inquebrável também. Mas se mostrada rígida. Imutável. Parecia que eu vivia numa loja de antiguidades. O mogno impecável. Os espelhos sem ferrugem. Os vasos translúcidos. Mas faltava vida. E faltava eu me sentir em casa. 

Eu risquei o chão com o pé e quis que aquele novo piso fosse o meu novo sustento. Passei as mãos nas paredes para me certificar de que eu estaria debaixo de ótimas estruturas. Mas precisei comprar algumas grades e travas: haveria de me sentir segura, cuidada e protegida. No meu novo lar coisas lindas me faziam companhias. Me senti leve pra sorrir sem preocupação. Mas ele ainda era recheado de obstáculos. Não dava pra se fazer escolhas. A casa era antiguada e não iria mudar. Afinal, essa foi a condição. “Te entrego um novo lar, mas você há de convir que o costume é por sua conta.” Eu tentei me acomodar.

Como falei, gostei da poltrona velha. A TV também era um retrô maravilhoso. Mas a cama estava meio desforrada, as garrafas de água vazias e os pratos ainda para serem lavados. Os quadros eram também antigos. Não se mexia em nenhum deles. Eu queria colocar minha cara, meu jeito, no meu novo lar. Mas não era tão fácil mudar as coisas de lugar. 

Quando conheci meu novo lar, eu nem bati na porta, mas a abri sem fazer barulho. Caminhei até a sala de estar, da sala de estar pra sala de jantar, da sala de jantar para a cozinha, da cozinha para o quarto e fui conhecendo tudo que eu podia da minha nova vida. Mas pra poder morar de fato na casa nova eu não precisava ter tirado os chinelos. Deveria ter entrada calçada, me sentindo dentro do que já era meu. Mas eu os tirei. E agora eu estou tentando lembrar onde deixei-os. Na porta da frente não está. Preciso calça-los. Preciso pisar firme e com familiaridade do meu novo lar. O lar a gente inventa. E é feliz com essa fantasia. 

Dani Fechine

09 setembro 2014

O que você fez com a vida dela


Hoje ela tem 25, mas oito anos não se esquecem facilmente. Aliás, até que se evaporam, mas quando o tempo esfria aquilo ali se transforma em orvalho e não tem quem a faça pegar um casaco e se esquentar: ela sabe que a noite vai ser longa e que não há cobertor que dê jeito. Hoje ela cresceu e amadureceu, mas não esqueceu o que a fez se tornar essa mulher incrível. Você pensa que ela é quem você pensa que é? Ledo engano, moço.

Olha, ela caiu, levantou, tropeçou, depois caiu de novo e dessa forma ela foi vivendo num ciclo vicioso onde você era o hospedeiro definitivo. Tropeçava, caía e levantava. Rapaz, você não imagina o quanto ela mudou com isso. Eu sei que até hoje você não se esqueceu da última viagem que fizeram juntos, mas também ainda lembra-se do último término. Eu sei o quanto você ainda a ama, mas amar todas as outras ainda parece mais fácil. Sei que é complicado pra você aceitar isso, afinal, ela te esqueceu. E foi exatamente esse ponto que o fez perceber a mulher que você tinha em mãos: ela se entregou de corpo, alma e com o coração na mão, te entregando pra cuidar. Você ficou com o corpo e largou o coração no primeiro apoio que encontrou no caminho.

Ela ainda se lembra de você, mas não se anime não, moço. Tu és recordação de aprendizagem, não de saudade. Ela ainda guarda uma foto, não posso te negar isso. Dia desses encontrei-a perdida em uma dessas caixas malucas que ela guarda de tudo um pouco. Mas normal, né? Que mulher não quer guardar lembranças do seu passado? Ficou uma carta também e algumas lembrancinhas, mas nada que a deixe nostálgica quanto a você. Ela te olha e sabe o que ela pensa? “Não mudou nada”. E se orgulha de ter te deixado. Mas essa mulher é tão incrível, moço, mas tão incrível que ela quer o teu bem quanto o de qualquer outra pessoa. Ela quer que você mude! Que seja bom, íntegro, honesto. Ela quer que você seja homem, pra que seja feliz de verdade algum dia. Ela lembra de você e agradece por tudo que viveu. Hoje ela é mulher, mas lamenta você ainda ser um menino.

Rapaz, me desculpa, mas te falo tudo isso porque você realmente precisa de um choque. Eletricidade não adianta, ia te deixar ainda mais desconectado do mundo. Ela não fala mais em você e isso já vem acontecendo há alguns anos. Ela está feliz, alegre, sorridente e contente. A vida dela vai muito bem, ela conseguiu emprego na agência que tanto queria e está quase dando entrada num carro. A estante dela duplicou. Isso não muda pra você, mas para o mundo ela acrescenta e muito com essa bagagem literária que ela tem. Parece que depois de você a vida dela deu uma engrenada que, ó, você merece até os parabéns por tudo que aprontou. Já dizia as beatas: Deus sabe o que faz, viu?

Mas agora olha só pra você. Os livros estagnados na metade, o copo ainda cheio de vodka, a cabeça vazia e um corpo sempre pedindo um pouco mais de corpo a corpo, de mulheres novas, pessoas novas. Você não muda, hein, cara? Não merecia mesmo a mulher que perdeu. Mas, ó, se preocupa não. Todo mundo cai em si um dia. Ela demorou alguns anos pra se encher de si e perceber o tamanhão dela diante de você, e depois de oito anos ela pôde agradecer por cada erro cometido no passado. Não precisava tantos traumas, mas valeu um pouco a pena. Hoje, tenho que concordar, ela ficou um pouco ranzinza e desacreditada. Mas nada como um novo amor para sempre amolecer o coração dela. No fundo, bem lá no fundo coração, essa mulher que você perdeu sabe que amar é a única salvação e, infelizmente, ela também sabe que era ela a mulher da tua vida. Moço, rapaz, cara, seja lá como eu te chamei, escuta só mais uma coisa: vai amar, vai. 

Dani Fechine

16 agosto 2014

Entre ele e a escrita


Olha só, é dia vinte e nove, e a gente não se vê há anos. Que ironia do destino a nossa de se encontrar na rua num dia memorável como esse. Um dia que já foi marcado no calendário, já foi data comemorativa, balões dentro do carro e cartões bem expressivos. Meus Deus, mas olha só... Que coincidência a nossa se bater num lugar tão bem frequentado por nós anos atrás e agora cada uma na sua vida, feliz do seu jeito, crescidos a partir dos erros e dos acertos. Vividos, também, a partir das idas e vindas, a partir das lágrimas e dos sorrisos. Que bonito, cara, que lindo ver o mundo girar, ver as coisas mudarem e perceber que nada é pra sempre. 

Olha, rapaz, sua namorada é linda, mas ela não escreve. Eu queria te dizer que não me arrependo de nada. Te larguei pra namorar com a minha liberdade criativa e olha, eu tô bem demais. Sua namorada é simpática o quanto pode, chega até a enjoar. Mas, olha só, ela tem medo de escrever algumas verdades. Não a culpo, jamais. Escrever é ter coragem, meu amigo. E eu te deixei pra expor ao mundo a minha alegria explosiva em colocar pra fora o que a imaginação grita aqui dentro. É que não dá, cara. Peço até desculpas por isso, mas não dá pra conviver com quem não se importa com a minha arte. 

Rapaz, preste atenção. Veja bem, não me peça pra voltar, não. Eu tô feliz demais com a minha imaginação exacerbada. Eu tô é muito satisfeita por estar feliz somente por escrever. Às vezes me magoa um pouco, não sai uma linha sequer, acredita? Mas é só questão de música boa aos ouvidos, uns filmes inspiradores ou alguns goles de cerveja. Um vinho até cai bem também. E aí quando aquele texto sai da gente feito um furacão, ah, você não imagina. Não imagina o quanto a gente que escreve fica em êxtase. E por dias. É uma droga alucinógena e potente demais. Impregna no nosso corpo, nos deixa vulneráveis a comentários e estamos cada vez mais buscando palavras, novos textos. Quem sabe até um livro, hein, rapaz. Você compraria, eu sei. Viria na maior cara de pau pedir dedicatória pra tua namorada, né? Te conheço, cara. Sem problemas! Tô aqui pra ser lida mesmo. 

Rapaz, já faz tantos anos, né? E a gente se encontrar logo hoje, vinte e nove. O destino é um moleque danado mesmo, viu? E eu gosto, mas gosto muito de dar umas gargalhadas com ele, por que, vá lá, só você mesmo pra me fazer escrever desse amor incontrolável, esse desejo incessante, essa loucura que consome, essa paixão milenar pela escrita. Eu troquei um amor por outro. Um homem por textos. Já pensou que loucura? Mas é porque você desleixava o que eu fazia com prazer. Assim não dava, né? Você aí, leitor, pense bem antes de namorar uma escritora. Na primeira banalizada sua a um texto dela, já era. Esqueça o casal. Ela vai pensar em te deixar. Pra mulher que escreve os seus textos são pedaços dela mesma. É como arrancar lá de dentro cada pedacinho que incomoda ou que grita para ser repaginado.

Você, por exemplo, foi repaginado dos pés a cabeça. Te remodelei, recriei e reinventei um cara que bem que poderia ter existido. E sabe o melhor? Você nem percebeu. Nem os outros. Dizem que os sonhos são desejos reprimidos, né? Lembro que você dizia isso quando narrava minhas viagens noturnas. Pois pego essa gancho e digo logo que os textos são personagens misturados. João não é só João e Maria não é só Maria. Em João existe José, que existe Matheus, que existe Lucas e por aí vai. Em Maria existe todo um desejo pessoal, toda uma expectativa feminina ou experiências de Ana, de Helena, de Tereza. A gente nunca tá sozinho quando escreve. 

Hoje eu tô aqui sem norma culta e sem gramática pra te falar da maneira mais simples que existe no português que a minha arte, que eu chamo de escrita, é primeiríssimo lugar na minha vida. Rapaz, presta muito atenção no que eu vou dizer: para uma mulher que escreve, o seu trabalho são as letras. Não menospreze, não desdenhe, não desfavoreça. Eu te garanto uma coisa, cara, a escrita é mais importante que você. Seja coerente, admire-a. Ela tem verdade. E você só confirmou isso hoje quando ela te virou as costas e saiu com a sacola da livraria, enquanto você dava as mãos a alguém que te largaria por outro homem nunca por ela mesma. 

Dani Fechine


Um recadinho da autora: Esse texto deveria ser lido com uma entonação diferente. Talvez alguns não encontrem a maneira que eu idealizei ao escrevê-lo, um jeito descontraído, despreocupado. Mas ele está aí pra ser ligo como bem entenderem. Sintam-se à vontade!

11 agosto 2014

Não escolher, mas ser escolhida


Era isso que faltava na vida dela: ser escolhida. Parar de classificar os homens e de colocá-los numa tabela imaginária, cortando qualidades incompatíveis e defeitos indesejados de cada um. Até que algum, vá lá, pelo menos um seria capaz de ficar, de fazê-la feliz. Mas não! Nunca restava. Todos seriam protagonistas de um romance com término marcado. Na cabeça dessa moça, desde o primeiro encontro, já rondava a ideia fixa de “não vai dar certo”. Mas não custava nada tentar. 

Para essa moça faltava existir uma variedade menor. Se ela queria sair da zona de solteira que rondava sua vida há alguns anos, ela precisava não ter que escolher. Precisa se apaixonar à primeira vista, mesmo não acreditando, mesmo isso sendo impossível aos seus olhos racionais de quem não ama quase nunca. Ela precisava se entregar. Depositar seus primeiros sentimentos no cara e deixá-lo decidir: é ela ou não? Para essa moça, era necessário sofrer um pouquinho por antecipação. 

Os tempos precisavam se bater. Se ela sentiu uma aceleração maior no coração, uma sequer, ele precisava sentir também. Esperar muito nunca foi a arte dela. Nem para um jantar, nem para passar algumas vidas juntos. Se ela ama, precisa ser agora. Precisa ser pra já. Não dá pra deixar esfriar o que no calor dos sentimentos pode ser bem melhor. Para essa moça, era importante amar primeiro. Mas, principalmente, não deixar de ser amada logo em seguida. 

Pra ela não tem essa de procurar o amor naquele relacionamento. Ou ela te ama e te fala isso sem medo – embora não tenha esse costume, e vale lembrar que isso são 10 pontos a mais na sua conta – ou ela te espera e confirma a certeza de que não, não vai dar certo mesmo. Para essa moça, a certeza no coração é infalível. Seja para o lado positivo ou negativo. Sentir a sensação de para sempre é ter a confirmação de que é ele. É ele o cara que lhe faltava durante esses 25 anos. É ele que vai ouvir o seu “eu te amo” que ela guardou uma vida inteira. É ele que vai receber os seus carinhos que tanto reprimiu. É ele que vai conhecer o seu lado mulher, enquanto a pessoa insensível que ela era se esconde mais uma vez nos seus caderninhos. 

Para essa moça é mesmo muito difícil amar. Relacionar-se com alguém é uma prova de fogo fácil de ser superada. É preciso compatibilidade de tempos. De certezas. De confirmações. De sinais. De saberes. Não é preciso ser igual a ela. Jamais esse foi um requisito. Mas para essa moça, para um relacionamento sair do vago para o sério é preciso apenas dela. É necessário, e disso ela tem certeza, de que ela sofra um pouco. Mas sofra por uma boa causa. E que essa causa seja amor. E que parta dela primeiramente. Mas que seja correspondido. Que os dois tenham nascido para se encontrarem e se esbarrarem por aí como Guido e Pricipessa. E que os obstáculos estejam aí, mas que eles tenham a certeza do tal “valeu a pena”, quando tudo desmoronar e cair por terra.

Para essa moça, antes de tudo, é preciso viver. É preciso aproveitar esse momento que sabe-se lá quando vai acontecer de novo. É preciso acreditar e ter simplicidade pra fazer florescer o que nem com muita água e sol foi capaz de brotar. Para essa moça, é de uma necessidade infinda o amor próprio. E o amor primeiro. Não sabe o que é? Eu explico. Para essa moça, é de fundamental importância que ela ame. E quem em seguida ele a ame igualmente. O inverso pode ser um perigo. Não queira arriscar. Essa moça sabe de tudo isso, mas continua tentando. Tentando fazer com que um dia toda essa matemática mal feita se desfaça e a torne capaz de amar sem necessariamente 1+1 ser igual a dois. 

Dani Fechine

26 julho 2014

O dia que a saudade transbordou



Ontem fui dormir e era dia do escritor. Hoje eu acordei e é dia da avó. Ontem ela me daria os parabéns sem ligar pra audácia que é me chamar de escritora. Ficaria feliz com os meus avanços e as minhas conquistas com as letrinhas. Hoje eu escreveria um cartão enorme pra ela, com minha letra uma pouco desnivelada e com poemas procurados no Google (porque minha imaginação sempre se esvai quando penso nela). Eu chegaria na cozinha devagar, você estaria mexendo alguma panela no fogão e eu ficaria em pé, atrás de você, esperando a surpresa acontecer. Você então viraria e eu diria toda envergonhada:

“Feliz dia da avó, vó.”

 E te entregaria o cartão, junto com um abraço apertado e um beijo estalado. Você iria me responder, brincando com os fonemas, do jeito de sempre:

“Obrigada, obrigada, obrigada.”

O dia de hoje merecia flores, vó. Merecia um buquê de vermelhas enfeitando a tua sala e fazendo brilhar teus olhos. Flores sempre foi a sua maior paixão. Um encantamento que eu nunca vi maior. O dia de hoje merecia presença. Merecia você sentada aqui, na minha frente, enquanto eu te escrevo. Merecia você derramar algumas lágrimas ao ouvir minha mãe ler meu texto pra você – mesmo que não fosse tão emocionante assim. Merecia te ver acordar linda, linda e jovem como sempre foi.

O dia de hoje merecia rotina. Merecia te ver sentada na mesa, com suas manias, no horário certo. Engraçado, vó, é que hoje eu tomei esse lugar pra mim. Involuntariamente e aos poucos, eu fui me acostumando a almoçar onde você almoçava. Onde eu sempre te via ao chegar da escola. Se tem algo que nos faz tanta falta é a tal da rotina. O dia merecia uma das mais pesadas e rígidas. Desde o acordar até o momento que você pendia a cabeça, cochilando na hora da novela. Merecia te ver levantar à tarde, depois da sesta, caminhar até a cozinha, pegar alguma fruta ou um café com bolachas e sentar no sofá da sala de estar. Nesse momento eu largava os meus estudos e me juntava a senhora. O dia de hoje merecia as nossas conversas e fofocas da tarde.  

Saudades, vó. Saudades. Eu só queria dizer que eu sinto a sua falta. E que algumas datas são sempre maiores que outras. O seu aniversário, o dia da avó, o dia 14 de outubro, o natal, o meu aniversário. Todos os dias são maiores que outros. Todos os dias a saudade é maior que o dia anterior. Todo dia a dor diminui. Mas a cada abrir de olhos de manhã o meu amor cresce, a minha saudade se alimenta. O dia de hoje está repleto de memórias. De nostalgia. De lembranças marcadas pela rotina, pelo coloquial. E é por isso, é pelo amor na rotina que o dia de hoje merece homenagem. Merece saudade, também. Mas saudades já acontecem todos os dias.

Dani Fechine

13 abril 2014

Bom dia, amor


Foi quando eu te vi sentada naquele cantinho da sala, naquela cadeira velha que você nunca teve coragem de deixar num brechó, com um joelho levado até o queixo enquanto o outro pé riscava o chão e estampando nesse rosto delicado um sorriso que eu nunca vi igual. Tão encantador e inocente, tão hipnotizante e enfeitiçador, tão cheio de si e tão perdido ao mesmo tempo, que sempre me fez optar por ele do que por qualquer outro. Foi nesse momento de vislumbre distante que eu percebi que não há ninguém nesse mundo que faça um café melhor que o seu. Não há companhia mais entusiasmada para um vinho em plena terça-feira. Não há cabelos mais macios que os seus. Não há olhos mais brilhantes. Não há, simplesmente, alguém igual a você. É por isso e por te ver sentada, ali, com minha última camisa branca do armário, que eu percebi que não dá pra devolver o pacote depois que ele foi aberto. Não dá pra fazer parar o coração quando ele já cresceu o máximo que podia. Simplesmente não dá pra voltar atrás, quando o corpo todo já ficou.

Puxei uma cadeira - essa já um pouco menos gasta - e sentei ao seu lado. Você trocou a posição das pernas, deu um nó bem ágil no cabelo e deixou uma pedaço da franja cair sobre os olhos. Segurava agora um café quente e fixava em mim um olhar vidrante. Nesse momento eu também percebi que não trocaria o seu olhar pelo de nenhuma princesa de cabelos dourados. Pisquei os olhos devagar numa tentativa de dizer a mim mesmo que você era real. Que eu tinha uma pessoa magnífica sentada bem ao meu lado.

Pediu-me os óculos para melhor enxergar o livro que agora lia. Um Machado de Assis em época de desengano, que eu mesmo a havia presenteado. Pela manhã pouco se falava nos cantos da casa. Olhares e sorrisos tomavam conta de um lugar que se tornou diferente justamente pra não ser normal. Um lugar que não fala quando acorda, porque acordar nunca foi lá essas coisas. Mas que dá beijo de boa noite e acaricia os cabelo, porque dormir nunca deixou de ser um prazer. E nesse momento me dou conta de que você é a minha lente de contato. Caio em mim e percebo que se não tivéssemos esbarrado na mesma esquina eu ainda estaria acordando de mau humor e resmungando até o momento de dormir novamente. E iria deitar, virar pro lado e dormir, sentindo falta de algo que eu nem pensaria em ter, mas que quando eu tivesse, seria o encaixe perfeito do meu quebra-cabeça de duas peças.

Você levanta e com suas pernas longas e finas do lado de fora da camisa, caminha até a cozinha e põe a xícara na pia. Procura seus chinelos. Não encontra. Calça os meus e eu não ligo se o chão está frio. Me lança um olhar cerrado, jogando a franja novamente para trás. Lavamos a alma num banho a dois, num bom dia diferente de se pronunciar. E eu percebo que depois de você eu não posso mais acordar e pronunciar um "bom dia" de maneira clara e direta. Não dá pra apressar o que prolongado pode ser maravilhoso.

É quando eu te vejo todos os dias num ritual nada corriqueiro, me fazendo mudar de sorriso diariamente, me fazendo crer na doçura que é ter alguém pra segurar a mão quando o mundo vem te derrubando, me fazendo ser feliz com gestos simples ou apenas com sua existência. É quando você é a mesma diariamente - encantadora e real - que eu percebo que nada melhor que você poderia ter aparecido em minha vida. Então se veste para o trabalho e, com mais um café na mão, me beija os lábios e, enfim, diz: bom dia, amor.

Dani Fechine

22 março 2014

Amor com Rotina


Nossa história daria um filme. Ou um livro. Não porque nos aventuramos a sair da rotina todos os dias. Pelo contrário. Amor é rotina. Daria um best-seller pela simplicidade. Pela paciência, pelo carinho e companheirismo. Daria um livro só pelo fato da gente se amar sem sair por aí pra escancarar. Nós ganharíamos o Oscar de melhor casal, de melhor beijo ficcional, da melhor cena de amor que Hollywood já viu. Eu vou escrever um livro sobre nós dois. Sobre como foi ter você todos os dias ao meu lado com esse sorriso infindo, esse olhar penetrante que não me abandona segundo sequer. Vou escrever um livro sobre a nossa história convencional, embora a mais bonita do mundo, pelo simples fatos de nós dois sermos os protagonistas.

Meu prefácio é o nosso fim. Começarei o nosso livro contando do quanto a gente foi feliz a vida inteira. Que apesares aconteceram, que tropeços também tiveram aos montes, mas que nossas mãos nunca estiveram tão firmes uma na outra. Escreverei sobre o jardim que cultivamos desde noivos e que até hoje, na velhice companheira que nos fez cada dia mais vívidos, cultivamos como nosso amor. Não posso esquecer também dos filhos lindos que tivemos. Os meninos mais lindos do mundo que tornaram-se Peter Pan nos nossos corações. Seria também uma injustiça não falar de você. De como foi bonito te ver envelhecer. Ver os seus cabelos castanhos ficarem cada dia mais claros, e por fim, brancos. Falar de como eu me sinto feliz, leve e satisfeito por ter encontrado uma pessoa tão maravilhosa, por dentro, por fora, consigo, com os outros. Alguém que segurou a minha mão até perder as forças no leito de morte. Alguém que me faz agradecer, todos os dias, por ter tido uma pessoa que amou os meus defeitos, as minhas qualidades e todo o meu esquecimento precoce de uma velhice tardia.

O capítulo um seria intitulado de 24 horas. É a quantidade de horas por dia que eu sou feliz. Que eu amo. E que eu vivo pra te fazer sorrir. É a quantidade de horas que eu me lembro de como foi encantador te ver no altar, derramando as lágrimas mais sinceras que eu já pude tocar. De como foi doce dizer um “sim”, mesmo querendo gritar “para sempre”. É a quantidade de horas por dia que eu tento voltar para o dia que nos conhecemos e reviver todo aquele instante. O momento do primeiro encontro, a sua primeira gargalhada, o primeiro abraço de proteção quando eu achei que meu mundo estivesse implodindo naquele instante e o primeiro “eu te amo” que eu ouvi e guardei dentro da caixinha de música que você me deu no primeiro ano de namoro. 24 horas é o tempo diário que eu tento te fazer feliz, porque é isso que também me faz feliz.

O segundo viria sem palavras em seu título. Em branco. Que é como eu ficava ao acordar e admirar, de perto, de muito perto, a tua nunca e alisar os teus cabelos como se todo dia fosse o último dia da minha vida. Emudecer era a minha reação a cada surpresa que você me fazia fora de hora, fora de época, sem data, sem mês, mas com amor escrito em cada canto do mundo. Além do título, poderia deixar o próprio capítulo também em branco, porque as coisas mais lindas que você me falou foram no silêncio. Na paz de espírito. No amor que a gente dividia no olhar. Tudo de mais encantador que eu ouvi e li, foi no seu piscar de olhos lentamente, um pouco cerrados e brilhando como esmeraldas.

O capítulo três é de como eu sinto a sua falta, Emma. Ele iria se chamar “Vazio”. É o que ficou da nossa casa. Da poltrona rosa ao lado da minha, da escrivaninha com todos os seus cadernos, folhas, canetas. O vazio que você deixou no jardim, entre as flores. O nada que me faz tão cheio todos os dias. Esse vazio que me faz querer sentir o teu perfume entre as rosas, que me obriga a derramar uma lágrima sempre que não te vejo mais sentada onde deveria estar. Vazio é o lado da cama que você deixou com seu cheiro e ainda com seu jeito. É a xícara de café que eu não encho mais pra te levar na cama, o almoço de natal que não faz mais sentido, e os nossos aniversários de casamento que eu comemoro sempre com uma nova carta pra você. 

E todos os outros capítulos seriam uma dessas cartas escritas nos dias 22 de abril de cada ano. Cartas que te trazem de volta por algumas horas e que me fazem sentir a ausência mais presente do que todos os dias. Cartas de amor ridículas, como diria Fernando Pessoa, porque se há amor, tem de ser ridículas. Cartas das rotinas mais apaixonantes que eu vivia, porque você sempre me dizia que amor é amar a rotina. E eu amava. Amava você e amava a rotina que você me fazia viver, crescer e ser feliz. É por isso que todas essas cartas seriam experiências simples de uma vida simples de duas pessoas simples e de um amor simples. Cartas que fizeram de mim o homem mais saudoso do mundo, com o coração nostálgico. Uma saudade que não tem fim, dos seus olhos, do seu sorriso, do seu abraço protetor e desse carinho que ninguém nunca vai encontrar igual na vida.

Escreverei um livro sobre nós dois. E ele será a minha última carta para, enfim, te encontrar novamente, onde quer que esteja. Eu prometo, Emma. É o último ato corriqueiro que nós vamos realizar juntos. O único toque de amor que nós vamos deixar na Terra. A última semente de que vale a pena ter esperança num amor tranquilo. Escreverei o nosso livro e ele se chamará Amor com Rotina.  

Dani Fechine


Citação: “As cartas de amor, se há amor, tem de ser ridículas.” Fernando Pessoa

02 março 2014

O que é o amor?

Quando eu tinha sete anos, aquela professora que eu chamava de tia escreveu na lousa com letras garrafais a seguinte pergunta: O que é o amor? Complexo demais para uma criança que ainda estava aprendendo a ler e escrever. O dia das mães se aproxima e essas respostas fariam parte de uma coletânea entregue a cada uma. Li devagar e transcrevi, ainda que meio rabiscado, a tal frase na folha do caderno. Eu era a última da terceira fila, ia demorar um pouco chegar a minha vez. Eu saí da Terra e viajei aos lugares mais incríveis pra tentar descobrir o que essa palavra significava. Mas foi de supetão, no ímpeto de dizer "não sei" que a resposta chegou: "Amor, professora, é quando minha mãe me pega na escola com o sorriso mais lindo do mundo. Além de amor, isso também é o meu mundo. Então essa palavra que a senhora quer saber, é o mundo que eu tenho dentro de casa. É também aquele beijo de boa noite que ela me dá depois de contar a mesma história pela décima vez na semana. E o abraço de bom dia que eu recebo também é amor."

No meu aniversário de quinze anos, o meu pai fez um discurso no qual ele repetiu a mesma frase: O que é  o amor? Retornei à minha infância, olhei pra minha mãe. A amei naquele instante como nunca. Mas não pude deixar de acrescentar em meus pensamentos aquele garoto que iria dançar a valsa comigo algumas horas mais tarde. Eu dizia que o amava. E aos 15 anos o amor era sentir o frio na barriga, a mão trêmula e a garganta travada. Amor era desejar que o sinal demorasse um pouco mais a bater para que eu o avistasse mesmo que de longe. Amor era ficar corada de vergonha, mas não denunciar jamais com as palavras. Quado eu tinha quinze anos, amor era apenas embrulhar o estômago por um garotinho. 

Quando fiz trinta anos, e já tinha uma casa própria, um marido encantador e um filho tão esperto quanto a mãe aos sete anos, adesivei, em cima da prateleira que suporta os meus livros, a seguinte pergunta: O que é o amor? Olhava pra frase, olhava pro meu filho, olhava pro meu marido, e lembrava da minha mãe. Amor era família. Era doar-me a ela. Querer o bem de todos antes de pensar em mim. Naquele instante, amor era compartilhar. Era sobreviver a um almoço de domingo com todos os tios, tias e primos, mesmo depois de uma semana tão conturbada. Era ligar pra minha mãe só pra dar bom dia e dizer que a amava. Amor era colocar meu filho pra dormir, ler a mesma história pela décima vez na semana. Era buscá-lo no colégio sempre com um sorriso no rosto e acordá-lo com um abraço apertado. Amor também era ser casada com o pai do meu filho. Ela abrir os olhos de manhã e agradecer por companhias tão agradáveis e sentimentos tão sinceros. Amor era ter o carinho, a cumplicidade e a paz, no meu coração, na minha vida e na minha rotina.

Hoje, aos sessenta, amor é saudade. É folhear os álbuns antigos e querer a minha mãe de volta com meus sete anos de idade. É olhar para a poltrona vazia ao meu lado e perceber que mesmo na ausência, o amor ainda vence. É receber um telefonema do meu filho em plena terça-feira só pra me desejar boa noite e dizer que amanhã precisa me ver. É abrir o portão e me deparar com uma criança correndo em minha direção, com um sorriso ingênuo e sincero, querendo brincar com a vovó. Aos sessenta anos de idade, amor é nostalgia, mas é também dever cumprido. É deitar a cabeça no travesseiro e pensar que talvez eu não tenha definido bem o amor durante toda a minha vida, mas ter a certeza que o senti das maneiras mais intensas possíveis. E ao partir, ainda arrisco dizer que amor, meu bem, não se define. Amor a gente sente. 

Dani Fechine

05 fevereiro 2014

Fica pro café?


Ei, moça, espera um pouco. Fica pro café. Eu fiz o omelete com tomate que você adora. O chocolate quente eu trouxe pra logo cedo – mais tarde te faço mais. Fica. Pode deixar a cama, assim, desarrumada, os lençóis misturados e os travesseiros jogados pelo chão. Te empresto aquela camisa branca de botão que você tanto gosta de colocar quando acorda, e nem ligo de passar frio. Desligo o despertador se você preferir. Ligo pro chefe e digo que vou me atrasar, porque a minha vida está a um passo de desmoronar caso eu bata a porta. Ele vai entender.

Te faço cafuné, penteio até o seu cabelo, e faço as tranças mais lindas. Fica que eu te conto mais uma vez como é se apaixonar todos os dias pela mesma mulher. Te compro a sua torta predileta, faço voz e violão com Something e deixo até o cachorro subir na cama e te fazer voltar a ser criança. Morena, deixa esse brilho iluminar um pouco o meu apartamento, esse cubículo que vira mundo quando você entra. Me liga dizendo que está com saudades e que não vê a hora de me encontrar, por acaso, na dobra daquele restaurante à la carte que a gente encontrou perdido nessa cidade. Me dá esse teu sorriso misterioso e me pede, mais uma vez, pra deixar a barba por fazer. Eu deixo. Até gosto. Porque esse teu olhar de que quer me beijar por isso, é uma despedida triunfal para uma noite de terça-feira.

Moça, te peço, fica. Esquece os erros de português, os verbos intransitivos e o pretérito imperfeito. Pisca os olhos com delicadeza, me sorri olhando de baixo para cima e passa a mão nos seus cabelos longos. Eu sou capaz de passar o resto da minha vida sentando, te olhando encantado. Eu também fico. Juro ouvir todos os seus causos, os seus problemas, suas histórias e desilusões. Vou te abraçar pra te proteger, vou te fazer carinho pra ver o arrepio da sua pele, e te prometo fazer da tua vida uma possível esperança de que vale a pena pisar descalço no mundo lá fora. Se você ficar pro café, te faço também no almoço o fettuccine que você gosta e ainda abro aquela garrafa de vinho guardada pra alguma data especial. Não há ocasião melhor para brindar, do que te ver ficar. Te ver tirar os chinelos, prender o cabelo com uma agilidade que só você tem e sentar no final da mesa, com um pé na cadeira e o outro riscando o chão. Agora você morde um pedaço do sanduíche e enquanto toma mais um gole do café, me olha por cima da xícara, me fazendo esquecer que eu também preciso de uma bebida quente.

Menina dos olhos que fitam, senta aqui. Lê esse livro que comprei pra você, deita na cama com as pernas entrelaçadas e ainda com a camisa que te vesti logo cedo. Fica, mas fica pra sempre. Não volta correndo arrependida. Homem que é homem tem lá suas fraquezas, e a minha é te aceitar sempre que você bate na porta com essa cara de que eu estava mesmo certo. Fica pra me dar bom dia e deixar eu te beijar na ponta do nariz quando eu virar pro lado e te ver deitada preenchendo o melhor lado da cama. Me deixa te ligar e dizer que hoje é o dia mais feliz da minha vida, porque você ficou. Moça, não corre. Descansa essas pernas, porque a maratona está chegando ao fim. Ou você corta a fita da linha de chegada ou deixa que alguém corte pra você. Vem, morena, eu estou te esperando no pódio, e o troféu é a nossa felicidade eterna, a nossa rotina nada convencional e um sorriso que abraça o teu corpo inteiro.

Moça, eu te amo tanto. Fica por isso. Fica, porque o meu amor é o suficiente pra nós dois. Eu amo por você. Amo por mim. Amor por nós. Mas fica, vai. Não limpa os pés quando entrar, nem bate mais na porta. Fica e desliga esse abajur que eu prefiro ver as curvas do seu corpo com as minhas próprias mãos. Fica e traz a tua melancolia cômica pra mudar os ares daqui. Não te peço mais que isso: fica. Sabe o que é, moça? Eu te amo tanto que fui cego até pra perceber que amor não se pede, nem se mendiga. Amor a gente sente. Mutuamente. Então, quer saber de uma coisa? Vai!

Dani Fechine

24 dezembro 2013

Por trás dos presentes


Não vamos ser clichês. Natal não se traduz basicamente no nascimento de Cristo, tampouco em mais uma data comercial, de correria, agitação, luxúria e ambição, onde os sete pecados parecem se sobressaírem com excelência. Basta ter olhos de promessa, desejos de criança e aquela atenção infinda que a sua avó te dá e sempre te deu todos os dias. Natal não é ímpar. Não é o dia 25 comemorado no dia 24. Não é aquele presente no canto da árvore, não é a ceia à meia noite e muito menos a roupa nova que você comprou junto com aquele sapato da última coleção. Natal não é luxo, queridos leitores.

Vou-lhes contar onde está o espírito da coisa. Onde a gente encontra essa palavra tão animalesca e ao mesmo tempo tão personificada e coisificada em banalidades. Natal, meus caros, está na inocência de uma criança em acreditar que Papai Noel é sim, um velhinho com grande barba branca, uma barriga enorme, um saco vermelho imenso recheado de presentes e conduzido com toda a magia do mundo por suas renas em seu trenó. Natal é ver o brilho nos olhos de um menino que pouco tem de comer, de vestir, de brincar e alguém o presenteia, seja com um um carrinho de madeira, seja com uma ceia. Essa estrela brilhando incessantemente no olhar é o Natal da forma mais mágica que você pode imaginar.

Natal é a família reunida. É reencontrar parentes. Dizer que "não, tia, eu não tenho namorado". Natal é abraçar. Ser sincero, desejar profundamente o bem do outro, sem olhar pra si. É deixar o egoísmo de lado e praticar a generosidade, a bondade, humildade, e sempre a honestidade. É comprar um presente sim, mas não por obrigação; é presentear por amor, por gostar de ver um sorriso no rosto de quem o recebe; presentear pelo simples fato de se satisfazer ao entregar a alguém um pacote dourado com fitas vermelhas.

Natal também é a ceia. Mas é muito mais o compartilhamento, a retribuição, a gentileza com o outro. Natal é repartir a fartura dos que tanto têm com os que com pouco vivem o ano inteiro. É visitar um amigo distante, matar as saudades; porque Natal é também época de reconciliação, de sorriso estampado no rosto com toda a sinceridade existente nessa vida.

Natal é fazer o bem sem olhar a quem. É seguir esse ditado clichê mais a risca do que nunca, é levar alegria a quem a procurou a vida inteira, mas nunca a encontrou. É levar esperança à quem a perdeu por algum motivo importuno, alguma tristeza involuntária. Natal é perguntar “você precisa de ajuda?” quando na verdade é você mesmo que necessita de uma forcinha pra se levantar. É dar a mão quando você também precisa recebê-la. É se preocupar com o outro, ainda que a sua vida não esteja em pleno carnaval.


Natal é quase amor. Parece-me uma época meio falsa, meio camuflada por presentes, joias, roupas e chocolates. Mas olhando com olhos-de-esperança e sorrisos-de-encanto, essa data muito me agrada. Se a gente resolver incorporar Pollyanna durante um dia sequer e jogar "o jogo do contente" tudo parecerá ter uma estrelinha brilhando lá no fundo. Há um lado bom nessa coisa de trocar bondades mascaradas de obrigações. Há um brilho especial, uma magia contagiante. Não existe um pozinho de pirlimpimpim, mas vá lá, exala teu brilho próprio porque tem muita gente precisando dele pra brilhar um pouco. Natal é compaixão. Saudade. E sim, natal é amor. 

Dani Fechine

20 dezembro 2013

Entre outras linhas: desencanto


Com você as coisas mudaram um pouco. Desde que você chegou, abriu a porta da minha casa sem bater, entrou de chinelos e não pendurou o chapéu, eu sabia que você trazia consigo uma nova escova de dente e uma muda de roupa. Aquele nublado no céu da terça-feira aqueceu-se. O sol nasceu em pleno poente e a chuva caiu em todos os lugares, mas aqui não. Havia uma espécie de capa protetora sobre nós dois. Nada parecia nos atingir. Exceto nós mesmos.

Quando eu te vi levantar da cama devagarzinho, e pegar apenas uma xícara de café bem quente, ficou meio na cara que a minha frieza tinha emanado o prédio inteiro. Era dezembro, terça-feira, dia 7. Chovia em pleno verão. Você sentou-se ao sofá, jogou as pernas pra cima, ligou a TV naquele canal que eu não suporto e nem se preocupou com o fato de que o volume estrondoso poderia me acordar. Não recebi um bom dia sequer. A bolha que vivíamos diminuíra e agora somente você, você e sua xícara de café, habitavam o local.

Não pestanejei. Dei cor a uma taça com um vinho seco e nem me importei se estávamos em pleno nascer do sol. Pus-me a varanda e contemplei a solidão. Em certos tempos sentir-se só na presença do outro é mais deprimente que realmente estar sozinho. O amor acabou? Ou o encanto? Já dizia um autor querido que perder o encanto é a pior derrota. Pois perdi. Derrotei-me. Larguei-me no dia frio com seus raios de sol. Dormi amando e acordei num desencanto que nem mesmo duas xícaras de café na cama mudariam esse fosco dos meus olhos.

Bastou esse egoísmo matinal, esse desprezo em seu rosto completamente nu e toda essa sua excentricidade inata, achando que o mundo é essa bolha frágil que se vive. Não precisou muito. Levantar sem me sorrir já me foi o suficiente para tomar o travesseiro todo pra mim, me espalhar na cama como a tinta do polvo se espalha quando detecta algum perigo e fingir que toda essa crendice de amor romântico acabara ali.  Um olho aberto, outro fechado. A porta entreaberta me convidava pra um discurso mal-humorado de quem acabara de acordar num puro estresse. Mas aprendi desde criança: “Fica calada, e então, não perderás a razão”. Apenas perderei a chance de reafirmá-la. Estourei a bolha. O mundo, agora, tinha plenos poderes para nos atingir. Vai ver que a culpa foi dele.

Silenciei ao meu sonho de que, não, eu não estava em busca de uma desculpa para correr daquele apartamento, deixar tudo pra trás, tanto as roupas como você. Eu quis acreditar que a culpa era sua. Que se você tivesse colocado café em duas xícaras, as coisas talvez não tivessem o mesmo fim. Eu quis me convencer de que, na verdade, você acordou querendo por um fim numa relação que a dois não dava mais pra ser. Por orgulho – ou por maestria em se estar por cima – essa coisa toda deveria partir de mim.

Larguei a taça de vinho ao chão, fingi que eu nunca tivera uma tpm, parei bem em frente a TV. Desliguei aquela merda de canal 'desconstrutivo'. Vestia uma de suas camisas e qualquer chinelo que encontrei na casa. Olhou-me espantado. Não entendia nada. Afinal, armei a cena. Apossei-me do seu pior dia, de uma noite mal dormida, de um dia anterior estressante no trabalho e de uma discussãozinha antes de dormir. E então falei sem gaguejar, sem tripudiar, com os cabelos ainda embaraçados, mas com um ar de certeza que jamais me dominara: “O amor acabou”.

E eu dizia pra mim mesma: não foi uma xícara a menos de café, não foi um bom dia dito pra dentro, não foi o canal ridículo ligado nas alturas, tampouco os chinelos brancos, a boca muda, a cara limpa. Não foi você. Não fui eu. Não foi esse vinho seco tomado tão cedo, nem a minha tpm fora de época. Repetia a mim mesmo que nada disso tinha culpa. O universo não conspira. As estrelas não influenciam. A sorte não estava no caminho. Mas eu falava em caps lock “o encanto acabou, meu amor, o encanto acabou”.

Dani Fechine


(citação: Perder o encanto é a pior derrota - eu me chamo Antônio)

04 novembro 2013

Carta de (des)culpa

"Pegue tudo que deixei no seu sofá cinzento, na sua cama desforrada, no guarda-roupa bagunçado e na sua vida desvairada. Beba aquele vinho seco que me faz lembrar você, naquelas taças que eram da minha avó e que talvez eu as ame mais do que qualquer outra coisa. Pode fazer isso sentado e na companhia de quem quiser. Mas não a coloque naquela poltrona que eu repaginei pra você. Levante dessa sua vida sem rumo, desamassa essa cara, cria uma história e, por favor, se cria novamente.

Deixei alguns dos meus cadernos na prateleira do quarto. Os pretos são os mais pessoais. Talvez você se encontre em algumas páginas, se tiver, ao menos, a curiosidade de lê-los. Talvez você queira bater na minha porta, me pedindo pra voltar, me implorando um amor que nunca te faltou, mas que você nunca se agarrou a ele. Se você abrir na página 18 do caderno marrom, verás que para tudo que aconteceu, houve uma explicação. E se folhear um pouco mais deixará cair algumas lágrimas. Mas, por favor, cuidado para não borrar a tinta preta da caneta que você me deu quando voltou daquela viagem sem fim pro outro lado do mundo.

Na página 20 eu quase te contei. Por questão de algumas linhas, alguns desvios de atenção e por muito amor, eu não saí correndo pelas ruas frias dessa cidade deprimente (sem você) pra te abraçar e, ao menos, te dizer um "até logo", "a gente se vê na próxima nuvem, na próxima estrela cadente" ou até "eu te amo". Eu quase mudei a minha vida e essa carta, quando escrevi a página 20. Mas quando passei a folha, os olhos já lacrimejavam à beça e sair sozinha com os olhos embaçados não me fariam chegar até você. Foi essa a desculpa que eu me dei pra continuar trancada dentro do sótão da casa dos meus pais. Eu criei desculpas o dia inteiro pra não pegar o meu casaco e ir em busca do seu sorriso, desse seu olhar que talvez me trouxesse de volta à vida. Fui mais forte que a minha insanidade e fechei o caderno. Virei para o lado e caí num sono profundo e só acordei no dia de dormir de novo. 

Já chegou na página 29? Desculpe-me. Eu não gostaria que fosse assim tão surpreendente, rápido, minucioso e desgastante. Espero que você esteja em boa companhia ou ao menos agarrado naquela almofada que compramos juntos – deixei, propositadamente, meu cheiro nela. Infelizmente, descobri muito tarde, e não poderia te deixar adoecer junto comigo. Seria egoísmo te fazer morrer aos poucos, só porque os meus dias estariam contados. Foi melhor sair assim, desavisada, despreparada, tentando deixar um ar raiva e desprezo dentro dessa casa. Da nossa casa.

Não culpe os outros por não te contarem. Acredite, nem quem te entregou esta carta sabia o que me rondava. Entrei em estado terminal muito antes do que eu imaginava. O que me preocupava era você e não eu. Desculpa se fiz vir à tona a raiva, o rancor, e agora a mágoa. Estou te escrevendo porque sei que lerá exatamente quando receber. Você não aguentaria não ter notícias minhas. Se é que um segredo é guardado mesmo, você foi o melhor deles.

Agora pegue aquela fotografia que tiramos no verão passado e que coloquei naquele quadro velho depois de umas boas mãos de tinta. Coloque os olhos em mim: esta é a última vez que me verás. Estou partindo. E onde eu estiver, estarei com saudades."

Dani Fechine

31 outubro 2013

Você e(m) um bar

Você entrou naquele bar querendo correr de volta pra rua. Seu olhar meio indeciso em se esconder ou me procurar denunciava toda sua insatisfação em ter que me acompanhar em alguns drinks. Eu te esperei a noite inteira, e não perderia o momento exato de te ver pisar no assoalho já meio riscado do mesmo bar que a gente se conheceu. Você quis pegar o táxi de volta pra qualquer lugar do mundo quando nossa música tocou. Enquanto pra mim o melhor lugar do mundo estava entrando por aquela porta. Eu te procurei em alguns copos vazios e não te encontrei pra te tirar pra dançar. Você não estava ali. Estava em algum ambiente que não tivesse mesas e cadeiras acompanhadas de um balde de cerveja gelada e uma mulher te esperando pra ser feliz.

Você chegou, eu te chamei. Não deu tempo você pensar em dar meia volta e se arrepender no instante em que os sinos da porta tocaram. Fui até você. Convidei-te pra sentar. “Eu não posso demorar”. Foram as palavras mentirosas de alguém que quer, nesse exato momento, receber alguma ligação de emergência. “Você nunca demora.” Foi a minha resposta para as palavras saltitantes e gritantes de um homem que não consegue amar alguém que o ame também. Enquanto você me olhava com olhos de indiferença, eu quis te odiar para o resto da vida, da mesma forma que te odiei quando você bateu a porta da minha casa dizendo que nunca mais queria me ver. E voltou correndo enquanto eu te esperava sentada na mesa da cozinha, pronta para tomar de uma só vez a garrafa de vinho seco. Eu quis te odiar durante cada segundo do meu dia, quando você pediu, com cara de não-quero-estar-aqui, pra eu apressar a minha fala. Talvez seus tímpanos estourariam, sufocados por palavras sinceras. Você nunca as deve ter ouvido.

Não te falo nada. Nego qualquer esboço de tristeza. Sorrio e aproveito a sensação incontestável e indescritivelmente prazerosa de te ter ao meu lado. Eu passaria a vida inteira ao seu lado, ouvindo seu silêncio. Não ameaço sequer perguntar se está bem. Ofereço um gole, apenas erguendo um pouco a mão. Você vira a cabeça algumas vezes esperando encontrar algum conhecido que te livre desse martírio de me ter ao lado. Passam-se minutos, drinks de todas as cores, mais uma garrafa de água com gás, umas poucas palavras corriqueiras e uns três sorrisos falsos.

E então você se levanta e repete: “Não posso demorar.” Dá um último gole na sua água com gás, beija-me a cabeça e a mão, de modo que você demora um pouco pra soltá-la. Até que a distância já não te permite segurá-la. Tchau (com uma entonação de alívio). Tchau (com a voz quase desfalecendo). Antes de chegar à porta você para, me olha com olhos-de-adeus e fala baixinho, esperando que eu faça uma leitura labial, mesmo sabendo que nunca fui boa nisso: s-e c-u-i-d-a. E eu quis gritar: “Me cuida, meu bem. Leva-me contigo, seja pra tua casa, seja pra um outro bar. Convida-me pra dançar. Pra sentar ao teu lado. Pra dormir na tua casa. No teu sofá. Na tua cama. Liga-me no meio do dia, diz que está com saudades e que precisa me ver. Corre até o meu trabalho, me pede pra largar tudo, porque está com desejo do meu abraço, do meu perfume. Esquece essa de que amar é muito responsável, e entra comigo nessa irresponsabilidade mesmo. A gente se desorganiza devagar e vai dando certo. Volta e senta aqui nessa cadeira. Pede mais uma água. Ou um drink cubano. Mas não me vira as costas. Não bate a porta. Não pede o táxi. Pede a minha companhia. Levo-te pra casa. De ônibus espacial, de avião, carroça, balão, voando, nadando, como quiser. Levo-te embora pra qualquer lugar que esteja perto do meu coração. Mas não pede pra eu me cuidar. Não me liga um mês depois pra saber como eu estou. Não aparece de surpresa no meu portão dizendo que passou na rua e lembrou de mim. Não vai, meu bem. Se você der o próximo passo, eu dou o primeiro gole. E a gente se entende pro resto da vida. Você no Alasca, eu na Austrália. Você dormindo, eu acordando. E a gente vai se entendendo meio distante, porque entendimento nunca deu certo pro nosso amor. Me cuida, amor, me cuida e se desentende comigo. Assim a gente vai bem.

Mas não gritei. Acenei com um sorriso amarelo, uma lágrima de pedra esperando pra cair, e mais um drink fajuto na mão direita. A porta bateu. Os sinos tocaram novamente. E a garçonete perguntou: “Então, é só você?” E eu respondi: “Sempre”.

Dani Fechine



27 outubro 2013

De tudo ao meu amor serei 'lamento'

Sentarei na beira da cama para calçar meus sapatos. Farei as malas delicadamente, sem pressa, para nada esquecer. Pentearei os cabelos pela última vez nessa penteadeira enferrujada, que recebi promessas de pintura durante os 3 anos. Não ligo para o que ficar. Faça bom proveito dos móveis e desses cômodos com cheiro de saudade. Quero apenas os meus chinelos, a garrafa de vinho que comprei semana passada e a escrivaninha, que depois de sete meses, consegui colocar no seu escritório intocável. Quanto aos livros, são todos meus. Cada página amarela, cada dedicatória. Estou saindo de mente vazia e coração aberto.

Não te esperarei chegar. Você não vai chegar. E eu demoro muito a acreditar. Odeio despedidas. Lamentos. E homens derramando lágrimas, verossímeis ou não. Saio na ponta dos pés para não deixar rastros. A chave está em cima da mesinha da sala, perto do arranjo que ganhamos dos meus pais no Natal passado. Só que sem o arranjo. Estou empacotando-o também. Sem a chave. E sem esse aviso.

Minto, amor. Saio de coração na mão. Peito sangrando. Sem ar. Sem fome. Sem vontade. Sem coragem. Com saudade. Com dor. Com uma vontade incessante de te encontrar, seja onde for. Saio porque seu cheiro ficou. Suas gravatas. Camisas. Sapatos. Até seus óculos ficaram. Esses levarei, talvez sejam-me úteis. Saio porque a xícara de café ainda está na cozinha. Suja. O iogurte foi aberto e ninguém tomou. O bolo foi deixado pela metade. E o almoço, nem comecei. Você não ficou pra almoçar. E não te verei no jantar. Saio de mente cheia, atordoada. Esquece os passos de bailarina. Saio correndo. Batendo a porta. Abrindo a garrafa de vinho dentro do elevador. Ofereço ao moço de bigode que dirige o táxi, mas ele não aceita. Me olha com cara de reprovação. Senti na pele a dor de uma loucura. Estou saindo de corpo e alma. De meia calça preta. Vestido preto. Sapatos pretos. Pintei até os cabelos.

Estou saindo de costas para não te ver em todos os lugares. Se pudesse, vendava-me. Os olhos estão pesados de maquiagem preta, muito rímel, muita tinta, muito carmin. Porque pior do que fazer uma mulher chorar, é deixá-la borrar a maquiagem por isso. Saio com o cheiro das suas roupas ainda nas minhas. Isso eu não consegui deixar. Não consegui deixar também o carinho. O beijo na testa. O abraço apertado. O 'bom dia' mal-humorado. As surpresas ao meio-dia. O jantar à luz de velas. O cartão de Natal. As bodas de papel. Não consegui deixar a marca do beijo. O toque das mãos. O alisar nos cabelos. O filme a dois. O medo protegido. A bagunça organizada. E o coração partido. Levo comigo apenas a certeza de te ter pra sempre.

Saio correndo. Batendo os pés. Fazendo birra. Não quero te ver no corredor ou correndo pra pegar o elevador. Isso não vai acontecer. Mas parece que dobrarei a esquina e te verei chegando com alguns doces comprados na confeitaria do bairro vizinho. Corro pra não dar satisfações ao seu Zé. Pra não te ouvir pedindo pra bater a porta ao sair. Estou saindo, meu bem. Estou saindo porque as fotos já me doem muito. O sofá tem dois lugares e eu sou só uma. As cervejas, sempre aos pares. As almofadas, com seu cheiro. O tapete, com seus chinelos. E o Fred, nosso cachorro-gente, está com uma depressão filha da mãe porque você não o levou pra passear na noite passada. Ele sente sua falta. E eu não consigo cobri-la. Saio pra te encontrar na copa das árvores. Nas estrelas do céu. Na Lua cheia. No balançar da flores. Nas folhas secas ao chão. No bom dia do padeiro. No moço simpático do trem. Saio pra te encontrar, em qualquer lugar que seja, mas que não seja na nossa casa. No nosso mundo. Na nossa vida. Essa lembrança ordinária de te ver em todos os lugares. Deitado na cama. Bagunçando o cabelo. Saindo apressado. E voltando numa pressa ainda maior e inadmissível, porque, afinal, esqueceu as chaves. E esqueceu de mim também. Esqueceu de me guardar numa gaveta. Num guarda-roupa. Ou de levar-me com você. Você esqueceu, meu bem, que amor não se morre. Que o corpo da gente vira cinza, enquanto o coração vira dor. Que a gente chora, enquanto o amor se exalta. Você esqueceu, com toda essa memória infinda, que a gente ainda não teve um casal de dálmatas pra cuidar. Ou bebês. Que seja. Você se foi antes dos 30. Ninguém se vai antes dos 30. Que injusto, que desumano. Estou batendo a porta, amor, mas você vem comigo. Estou saindo. Mas deixo a escova de dente, o travesseiro e o coração.

Dani Fechine

21 outubro 2013

Tão exato como 1+1 = 1

"Olha, moço, eu estou aqui na tua casa mas resolvi ainda não tocar a campainha. O tempo ta fechado, o vento ta frio e eu esqueci o casaco, porque a pressa em te ver já estava grande demais. Eu não sei como cheguei até aqui. Fui andando. E como num livro que eu li posso te dizer que "tenho dirigido em direção a você o tempo todo, querendo apenas um coisa: nosso reencontro". Só que estou a pé. Calço o tênis branco meio sujo, meio gasto que você gosta. Até o momento já ergui a mão duas vezes em uma simples tentativa de bater na tua porta. Já abri a boca umas cinco pra gritar seu some ou até um 'sou eu', mas nenhuma palavra foi dita. Não consigo. Já passaram duas senhoras apressadas pra não pegar a chuva, agarradas em seus cachecóis. O vizinho da frente já acendeu a luz da varanda umas duas vezes, no mínimo, e ficou me olhando pela janela como se eu fosse uma estranha esperando o momento certo para invadir a casa de um homem que é ridiculamente apaixonante e permanece estupidamente sóbrio para entender qualquer coisa que envolva 'amor' e 'nós dois'.

Eu não sei se você está aí dentro. Ouço, lá no fundo, aquela sua música favorita tocar, mas como ela é trilha sonora da sua casa, da sua vida, fico na dúvida se sua presença está ausente ou não. Parece-me ridículo te visitar sem data e hora marcada, numa terça-feira a noite prestes a cair uma tempestade. Pergunte-me como voltarei pra casa e não saberei responder porque isso é o que menos me importa agora. Dizer que eu te amo ainda é o maior desafio do dia de hoje. Desisti realmente de olhar no seu olho. Esse seu olhar de não-quero-entender-nada-disso-porque-é-mais-fácil me faz querer sentar no primeiro degrau da sua varanda e escrever-te o que minha boca deveria falar-te.

Então, Dex. Como vai? Eu poderia começar com 'eu' e terminar com 'amo', mas não quero ir direto ao assunto, então não vou começar por aí. Eu imagino a sua cara de não-quero-ler-isso ao pegar o envelope que passei por debaixo da porta. Vejo seu desinteresse de longe. Daqui de fora. Mas por favor, se já chegou até aqui, continue. Se não rasgou, já é um bom começo.

Você pode ser bem melhor do que já é. Esse seu jeito desconectado de mim não faz bem. Pra mim e pra você. Eu poderia no momento estar em casa ou em alguma festa indie, com alguns amigos ou simplesmente com algum amigo. Mas vim bater na sua porta. E você deve estar se perguntando porque. Eu vim aqui esperando não te ver sorrir. Com esse puxar de olhos e esses dentes brancos que brilham em sua boca, as coisas ficariam bem mais difíceis. Você não me chama nenhum pouco a atenção, Dex. Mas sua voz já me deixa impossibilitada de qualquer reação normal. Não é justo você causar espasmos nas pessoas sem ao menos ter a intenção de amá-las por no mínimo um mês. Afinal, não é justo amá-las por um mês.

Eu faço uma promessa todas as noites e a quebro pela manhã. "Não o procure". E acordo esperando um bip seu no celular. Você me faz quebrar promessas. Caia na real, Dex. Você também tem quebrado a sua maior promessa: ser feliz. E eu não posso reatá-la. Não até você querer. Dia desses, nessas terças-feiras ociosas, você passou por mim numa pressa quase impossível de te ver. Você parecia correr em busca de algo muito bom, embora seu rosto não fosse o mais feliz que eu já avistei. Mas você passou por mim e nem notou meu cheiro, não reparou no vermelho dos meus cabelos nem no tênis branco que eu achei que gostasse. Você não estava com pressa de mim. Nem de felicidade. Porque você dobrou a esquina e me deixou sentada na cafeteria ao lado. Assim como eu, você dirige em busca de alguma coisa que nem você mesmo sabe o que. Estaciona, vai. Estaciona e desce desse carro. Toma um ar, aspira coisas boas. Vai a pé também. Quem sabe a gente não se encontra no meio da estrada. Numa curva qualquer. Num cruzamento. Quem sabe.

Se meu coração palpita. Se minha barriga dá sinal de existência. Se minhas pernas tremem. Se as lágrimas escorrem. Se o sorriso é instantâneo. E se? Eu ainda nem sei a junção dessas loucuras. Essas exatidões não batem. Elas correm, se escondem. Mas não fecham como uma conta de mais. Estou tentando explicar algo que por mais clichê que pareça, não há explicação. Descrição. Adjetivação. Não há sinônimos, pronomes, substantivos nem vírgulas. O que quero te dizer, Dex, é tão exato quanto a sua pressa em passar por mim, quanto a minha lentidão em ficar. Sabe o que mais, Dex?"

E então, num súbito olhar para trás, observo lentamente você abrir a porta, fechá-la com delicadeza, sentar-se ao meu lado e me oferecer não só um casaco mas também uma xícara de chocolate quente, acrescentando com um sorriso completamente insinuoso e querendo concordar com cada linha que eu havia escrito (mesmo sem nada ter lido):
- Não sei quanto tempo passará aqui, sentada, então resolvi te trazer algumas coisas que te façam demorar mais um pouco. - Eu poderia sequer piscar os olhos. Mas em um só lance, fechei meu bloco de anotações, e soltei em uma frase tudo que tentei escrever até agora:
- Esta noite eu estou querendo dizer que eu te amo. O que você acha?
- Que lá dentro está bem mais quente. E que eu esperei até este momento pra dizer: "Eu também amo você."

Dani Fechine

08 outubro 2013

"Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Dias como esse merecem textos de homenagem, de agradecimento e de paz. Merecem um abraço apertado, um beijo estalado no rosto e um desejo de vida longa, de vida eterna se puder. Mas escrever sobre a saudade não é tão fácil assim. Um dia de "parabéns" de repente torna-se um dia de tristeza, de lembrança e de lágrimas escorrendo pelo rosto. Hoje não vai ter o bolo com salgados do dia 8 de outubro e domingo não vai acontecer um almoço em família. Mas olha, olha que incrível, hoje é primavera, as flores sorriem em todos os lugares, o céu acordou azul turquesa como nunca e o sol brilha nos chamando pra sorrir. Tudo ficará bem, embora saudade não tenha cura. Não tem remédio. Todo dia nosso coração se aperta, todo dia é uma lembrança do que foi vivido ontem.

Todo dia eu espero no portão aquela frase de cuidado: "Vá com Deus, e pelo canto do muro." Todo dia eu espero você dormir na hora da novela e acordar perguntando o que aconteceu. Eu passo a tarde querendo que você acorde e sente-se comigo pra comer um lanche, pra falar da vida alheia, pra sentir o vento bater no nosso rosto sentadas no sofá da sala. Eu me arrumo pra sair a noite e fico sentada na cadeira da mesa de jantar, esperando olhar pro lado e te ver sentada na poltrona me dizendo que estou linda e que com certeza hoje eu encontro um namorado. E no outro dia eu acordo sem ouvir alguém dizer: "Eu nem ouvi quando essa menina chegou."


Saudade não é dor. É aperto. É falta. Ausência. Carinho adormecido. É uma lembrança boa de um tempo que a gente nunca espera que acabe. De alguém que a gente nunca espera que se vá. De um abraço que a gente deseja todos os dias. Sabe, saudade é acordar e não saber por quê. É dormir e não saber pra que. É andar sem saber pra onde. Correr e não saber parar. Saudade é cantar e não ter voz. É chorar e não cair lágrimas. É sorrir e não mostrar os dentes. É cair e não se levantar. Saudade é morrer e continuar vivendo. É sentir o coração menor a cada dia. É andar calçado e sentir o chão quente. É viver de amor e continuar morrendo. 


Em datas como a de hoje, simplesmente não basta estar feliz - e ser feliz é absolutamente difícil. Mas é preciso agradecer, seja lá a quem for. Agradecer a presença insubstituível que esse alguém tornou na sua vida, agradecer o carinho que foi dado, o amor recebido, as lágrimas trocadas, as risadas compartilhadas, os brindes realizados e toda a paz, tranquilidade e harmonia que trouxe pra você. Não é porque as pessoas viram estrelas no céu - e essa é a melhor forma de acreditar - que elas não estão mais conosco. A presença é forte. E é por isso, é por sentir uma proximidade tão absurda que a saudade acaba doendo um pouco. Dói um pouco todo dia. Dói no coração e dói na alma. Dói o corpo inteiro, a cabeça, as mãos. Dói porque a saudade não avisa quando vai chegar. Não manda um telegrama, uma carta ou um SMS. Ela chega, não bate na porta, não tira os sapatos, coloca os pés no sofá e nem sequer pergunta se pode ficar pro almoço. Quando vê já está com garfo e faca nas mãos.

A saudade vem e escancara tua vida. Muda teu instinto, tua solidão, tua sensibilidade, teu aroma. Vira-te ao avesso e não te ensina a voltar ao normal. Saudade muda tua vida e não espera que você se adapte. Pode parecer fácil conviver com um sentimento de carinho e de memória, mas a consequência desse amor é a dor. Uma dor que começa no átrio direito e percorre todas as veias e artérias, e quando não cabe mais, o coração explode. E então a saudade escorre pelos olhos. O coração explode todo dia. E se deixo bem explicado ou não, fica aqui a minha lágrima de saudade e o meu eterno amor por quem ajudou a me criar. Mas ela era um anjo. E os anjos não pertencem a Terra. Feliz Aniversário!


Dani Fechine

08 setembro 2013

Conto de fadas às avessas

Vindo de família Irlandesa era previsível que você ainda estivesse morando na mesma casa de quando nos conhecemos na adolescência. Eu só não imaginava que depois de tanto tempo, você ainda seria o protagonista dos meus melhores pensamentos. E muito menos, que seria tão assíduo na minha memória. Você sabe, Dex, sempre fui um pouco memorável. Na prateleira do escritório guardo mil caixas e mil lembranças de tudo. E de todos. E em uma das arrumações, andei mexendo nas lembranças da juventude. Revirei cartas, chaveiros, fotos. E lá no fundo, escondida no emaranhado de papéis, eu te reencontrei. Nossa única foto. E nossa única lembrança. E eu me lembrei, naquele momento, que foi você que me entregou aquela foto, juntamente com o último abraço que nós compartilhamos. E agora eu entendo porque. Com sua caligrafia já um pouco borrada, uma letra meio rabiscada, e uma tinta já um pouco falha, eu consegui decifrar o seu "bilhete" no verso da foto: "Procure-me. Seja o ano que for, estou morrendo de saudades."
Decerto seu telefone não era mais o mesmo. Mas eu ainda tinha um trunfo nas mãos. Uma visita seria demais para o meu coração acelerado. Seria um excesso de emoções e talvez uma surpresa te deixasse um pouco chateado: você sempre detestou surpresas. E chegou a minha hora de levar isso à risca.

"Dex. (Será que ainda te chamam assim?) Estamos em 2013 e, pois é, também estou morrendo de saudades. Faz muito tempo desde a última vez. Com um diploma na mão e uma foto no bolso, a gente seguiu os nossos caminhos de modo que até hoje eles nunca se cruzaram. As linhas seguiram tão retas que nem se tocaram. Um dia alguém me falou que amor não tem data de validade. E realmente não tem, Dex. Não adianta sentar e esperar esse vilão virar mocinho. Você vai se apaixonar todos os dias por olhares diferentes, vai querer ser o novo amor de todos aqueles belos sorrisos. Você vai dobrar a esquina e vai avistar o mais belo dos rapazes ou a mais bela das moças. E vai se apaixonar mais uma vez. Mas então você vai chegar em casa, vai se jogar no sofá e como quem não tem mais nada pra fazer na vida, você vai lembrar que amor a gente tem um só, pra toda a vida. E vai perceber que, realmente, amor não possui data de validade. Você não vai lembrar dos olhares que recebeu, dos sorrisos que ganhou, nem do rapaz ou da moça que avistou. Dex, todo mundo tem um amor pra recordar. Seja ruim como for, ou maravilhoso como um conto de fadas, é esse amor que você não esquecerá. E poderá passar anos. Você irá casar, ter filhos, mas quando revirar as caixas velhas e abrir seus diários e cadernetas, você vai suspirar e inconscientemente vai imaginar como teria sido se tudo tivesse dado certo. Você é o meu amor pra recordar, Dex. E é por isso que eu posso te afirmar que não foi a foto já antiga, nem a sua letra rabiscada que me fez perceber isso. No instante em que nossos olhares deixarem de se cruzar eu percebi que eu nunca esqueceria de como meu coração acelerava ao te ver. Saudades, Dex. Ainda estamos ligados."

"Donna, estamos em 2013 e você não imagina o quanto que eu esperei por esse ano. Nossas vidas tão opostas e ao mesmo tempo tão interligadas, me fazem ver que existem elos que nem mesmo a distância e o tempo são capazes de destruir. E esse elo se chama amor. Nossa história tinha tudo pra começar com "Era uma vez" e terminar com "felizes para sempre". Mas nem só de contos de fadas vive um homem. Você sempre me dizia isso. E eu nunca esqueci. Mas olha que peça o destino me pregou, Donna: hoje eu sou um escritor best-seller de romances impossíveis. Fiz da nossa história nada romântica um desejo de poder reconstruí-la. O desejo de te reencontrar era tão grande que decidi antecipar e criei contos e versões de como seria. Não publiquei nenhum. Você sempre revisava os meus textos e poemas, e jogar no mundo a nossa história sem passar por seus olhares seria uma audácia com os contos de fadas da vida real. Não se faz um história de amor sozinho, Donna, e é por isso, é por você ser tão protagonista como eu, que eu não pude seguir a minha história até hoje. Eu achei impossível escrever o meu destino sem você ao meu lado. Sempre faltou algo. Sempre sobrou uma cadeira ao meu lado. Ou um grande espaço na cama. Sempre faltou você, Donna. E eu não sei como foi a sua história de amor até agora, mas a minha parece começar. Onde quer que esteja, estarei lembrando de você. Obrigada por ser minha inspiração durante todos esses anos. Saudades, Donna. Ainda estamos ligados."

Dani Fechine

15 agosto 2013

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!". Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabor