15 agosto 2013

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!". Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabor

10 agosto 2013

Foge e fica


Parecia meio imprevisível e até surreal, mas te ver chegar, acelerar meu coração e tomar a minha fala fez tudo ser real demais. E até explícito, arrisco. O mesmo rosto de criança e a mesma conduta de adulto. Como você conseguia ser sempre um anti-herói de chinelos perdidamente apaixonante? Você transborda aquela mistura inata de vilão e mocinho. Gosto do seu lado vilão; quando você senta no sofá meio irritado: ou alguém pisou feio na bola ou foi você que pôs tudo a perder. Não foi futebol. De cara eu sei que não. Mas amo seu lado mocinho meio invisível: esse seu carinho singular e essa sua atenção que exala simpatia.

Olha Gerry, não sorri assim pra mim. Meu coração é fraco e minha paixão por sorrisos é escandalosa. Esquece de mirar em mim quando me avistar, ou tira os óculos pra não me ver. Tudo isso pra você não reparar o meu sorriso bobo (e ridículo) e essa minha cara de romântica em Paris. Não se aproxime! Pare onde está e não me toque. Não me deixe sentir o choque que você me causa porque a voltagem é tremenda, pode nos matar, Gerry. Pro seu bem, não me abrace. Não me prenda em você. Não diz que foi um prazer. Não diz que tava com saudades. Não me envolve nos teus braços porque eu não saio nunca mais. Eu juro passar o resto da noite com a cabeça no teu ombro e eu nem ligo pro desconforto e nem acho ruim se eu pegar no sono. Não me dirija a palavra, não fale o que eu quero ouvir, não pegue na minha mão pra me falar algo sério. Por favor, Gerry! Meu coração tem um mandado de restrição contra você. O advogado dele, o cérebro, você sabe, disse que é melhor manter distância porque proximidade intelectual e atração eletromagnética é uma ferramente indestrutível: pode matar os dois de amor.

E então você se aproxima, me traz aquele sorriso irresistível e apaixonante. Você mira em mim de longe e ajusta os óculos pra não deixá-los cair. Mas parece que você irradia um veneno muito forte que mesmo de longe consegue me atingir. Espero que você não tenha reparado que eu respondi o seu sorriso como uma criança sorrir ao ganhar uma balinha. Então você acelera os passos e corre um pouco no final. Para bem na minha frente e respira fundo pra retomar o fôlego. Agora estamos na frente da confeitaria mais romântica da cidade e a partir de agora será o meu lugar favorito. Você me abraça apertado e isso é como um imã. 

Sinto você sorrir do outro lado; eu fecho os olhos e me entrego ao acaso. Tudo se perdeu. Já era, Gerry. Fomos longe demais pra rebobinar a fita. Fechei os olhos e sorri. Ou de alívio ou quem sabe de desespero. Você desgruda e eu nem sei como você consegue. Pega minha mão e olha fundo nos meus olhos, diz que sentiu saudades e que a melhor coisa que aconteceu até agora foi ter me encontrado e ainda completa (querendo ser preso por homicídio doloso):

- Sophie, que o mundo não me escute, mas eu não paro de pensar em você. (Eu vi o desespero nos seus olhos, de quem já não sabia mais o que fazer. Não dava mais pra correr. Impregnou no coração.)
- E que você não me escute, Gerry, porque eu também não paro de pensar em você.
E contrariando toda a física, a racionalidade e um pouco de sanidade que ainda existia, você se aproxima ainda mais, afasta o cabelo do meu rosto e tira os olhos dos meus. Meu batom vermelho agora é alvo. Você me beija. Eu me encontro. Você se perde. E meu coração sinaliza: "eu avisei".


Dani Fechine

30 julho 2013

Sobre o que você causou

No dia em que você se despediu da minha vida eu corri pro aeroporto. Fiz as malas, pus casaco e regatas, botas e chinelos. Comprei a passagem para o próximo voo e nem quis saber qual era. Enfiei o bilhete no bolso de trás da calça e fui em busca de alguém diferente do que eu era há minutos atrás. Ou na verdade em busca de mim mesmo. A poltrona que a moça simpática do check-in me colocou dava pra observar tudo que eu deixava pra trás. Abri o suporte de apoio e me coloquei a escrever.

Comecei falando sobre o quanto a gente se entrega fácil. A tudo. O quanto a gente absorve a tristeza e a solidão e esquece que ali embaixo, com todas aquelas luzes, há algo ou alguém muito bom pra nos fazer feliz. De novo. Escrevi sobre o quanto a gente se apega às coisas e às pessoas, e que isso nunca vai ter um lado bom. O ciclo da vida é muto simples e a gente aprende desde criança o sentido biológico: nasce, cresce, (talvez) reproduz e morre. Mas você mudou a ordem do sistema e nesse caso altera ridiculamente o produto e o produtor. Não se morre antes de reproduzir, quero dizer, antes de deixar pedacinhos nosso nesse mundo. É um pecado mortal não deixar um "clone" pra alguém que a gente ama. E você não deveria ter partido assim, deixando apenas suas camisas, calças, sapatos, livros e um cordão que eu gostava muito e que agora não sai do meu pescoço e que me faz lembrar sempre do quanto você ficava lindo com ele, me fazendo chorar muito porque ele recupera uma vida inteira em questão de segundos. O ser humano adora um martírio. Nós somos masoquistas conscientes e parece gostamos disso.
Contei pro papel como foi que a gente se conheceu e como o destino é esperto. Mais do que qualquer pessoa que se acha muito inteligente. Ele te colocou no meu caminho e me colocou no seu, pra que você cuidasse de mim e principalmente pra que eu cuidasse de você. Olha agora a minha culpa, Dex. Eu só posso ter cuidado muito mal de você pra ser deixava assim, no meio de uma noite fria de uma terça-feira. Só pode ser brincadeira você me deixar no mesmo dia da semana que você chegou.

Não podia deixar de jogar naquelas linhas algumas das lições que sua passagem deixou nesse mundo. Por exemplo, que a gente deve fugir de toda negatividade. Que a quantidade de pessoas que querem nossa derrota muitas vezes supera a bondade humana, e que mesmo assim a gente deve fechar os olhos e estender a mão a quem nos quer bem e em hipótese alguma apontar o dedo aos invejosos. Você sempre me ensinou a não devolver um "tapa na cara" ou uma palavra mal encaixada. Com tanta coisa pra você mudar nesse caos aqui debaixo, porque você foi embora justo agora? Eu sei. Eu sinto o egoísmo pulsar nas minhas veias. Sinto aquela vontade tardia de brigar com o mundo ou com quem sabe-se lá levou você de mim. Não é egoísmo, eu prometo. É apenas uma singela saudade de me despedir de você hoje a noite, de devolver o abraço afetuoso e apertado, tão singular e tão preciso. É uma forte lembrança que bate no peito como se a qualquer momento eu fosse vomitar toda a minha vida ao seu lado e todas as nossas despedidas e chegadas. É apenas um chocalho que tem dentro de mim e que insiste em me incomodar, fazendo-me recordar a cada milésimo de segundo do nosso último sorriso, do nosso último beijo, do nosso último abraço. Das suas mãos em meu cabelo, do seu beijo na testa e dessa sua coragem indiscutível de morrer.

No dia que você foi embora, eu pensei em correr pro aeroporto e fugir da sua ausência presente que ficou na cidade, no bairro, no apartamento apertado, na sala colada na cozinha e no último quarto do corredor. Em vez disso eu dei meia volta e escrevi um livro inteiro sobre você, sobre nós e sobre o quanto é importante superar a partida de alguém. Não importa como for. Vai "comigo", Dex.

Dani Fechine (baseado na IDEIA da música Oitavo Andar - Uma Canção Sobre Amor de Clarice Falcão)

25 julho 2013

(amor) e ódio

Era uma terça-feira nebulosa, nublada, muitas nuvens e pouco céu. Em dias como esse andar pelas ruas frias da Irlanda parecia a alternativa mais óbvia e fria para Emily. Afinal, quem ela poderia encontrar numa cidadezinha pequena e "desconhecida" da Irlanda?
Gerry. Claro.
- Emily, o que faz aqui? (ele me perguntou um pouco menos assustado que eu).
- (Vim esvaziar a cabeça. De você. Escolhi esse vilarejo a dedo, como quem escolhe a melhor roupa para um jantar romântico [não sendo eu, claro]. Mas parece que você sempre me encontra e reencontra. Ou adivinha).
Ah, vim a trabalho, Gerry.
- E como você está, Em? Me parece que os últimos meses não foram tão fáceis. Ou foram diferentes, arrisco.
- (Não está nada bem. O mundo parece que desabou desde que você se foi, desde que você deixou aquele bilhete embaixo do abajur como se eu merecesse ver a sua letra ridícula e de quem estava com pressa, dizendo que não quer me ver sofrer. "Adeus". Era tudo que eu queria ouvir [muito menos ler] de alguém que viveu uma vida ao meu lado e depois como num acender/apagar de um abajur enferrujado desaparece sem mostrar a cara. Nem sequer uma mensagem de voz, uma ligação - que seria uma atitude um pouco menos estúpida. Foi muita covardia da sua parte. Eu queria dizer que você escolheu um dos piores dias para acabar com a mina vida. Se o senhor-artista-de-televisão-ocupado-com-as-garotinhas não se lembra, eu posso refrescar um poucos sua memória. Dia 6 de dezembro. Isso te lembra alguma coisa? Ah! Talvez fosse o meu aniversário ou quem sabe o NOSSO aniversário de mil anos de "estar juntos" (como você mesmo dizia em todos os cartões das flores meio murchas que sua secretária me mandava porque ela se lembrou disso, não você). Talvez você nem esperasse que eu chegaria em casa com alguma surpresa ou com algumas passagens para um vilarejo escondido na Irlanda. Talvez você não esperasse de mim o que eu sempre esperei de você. Talvez a Irlanda fosse fria demais ou monótoma demais ou pequena demais. Ou talvez eu fosse uma companhia um tanto chata. Porque até o abajur com sua lâmpada quase queimada teve a audácia e o privilégio de receber um bilhetinho dizendo que "acabou". Ele deve ter apagado e acendido as luzes algumas vezes numa rapidez que eu até imagino que você se assustou. Até porque você detesta assombração. Mas fica calmo, Gerry. Ele já estava meio ruim. Assim como eu também. E eu quero te pedir desculpa se eu me tornar uma assombração. Mas foi você que pediu distância. Eu fiz o máximo que eu pude. Atravessei o Atlântico e você nem notou. Você não é mesmo um homem que se possa ser digno dessa palavra, Gerry. Mas ainda assim, obrigada. Obrigada por me livrar de você. Estou vazia. Vazia dos sentimentos asquerosos que você expeliu em mim. Estou vazia e fria. Seca. É só uma pena você ter escolhido a pior maneira para isso. Foda-se. Você e o seu bilhete escrito na comanda do bar da esquina.)
Estou ótima, Gerry. Mas estou com pressa. Preciso ir, tenho uma pilha de livros para avaliar. A cidade é pequena, a gente e vê no bar mais próximo, não tenho dúvida. Bom te ver. Tchau!
- Tchau, Em. Saudades suas.
- (Canalha!) Então eu aceno e desapareço de vista. Pra sempre.

13 julho 2013

Seco (a), por favor

A forma como você bateu a porta denunciou todo o seu silêncio durante a longa noite de 30 minutos. Deve ter sido o vinho suave que eu te ofereci e que na verdade era seco que você queria. Você sabe que não foi o vinho. Mas eu prefiro achar que foi. E se eu te disser que. Que o que? Que não foi o vinho. Diga. Foi o vinho e uma livraria inteira que havia naquela taça; foi essa sua nudez facial, esse seu olhar indiferente achando que um vinho sempre resolve tudo. O vinho seco até que ajudaria um pouco. Eu bati a porta querendo escancarar o mundo; querendo que no próximo passo a vida fosse mais doce (e banhada a vinho seco) e fosse mais colorida e mais a meu favor e ao mesmo tempo mais escura mais a minha cara mais silenciosa mais indecisa e sem pontuação. Eu bati a porta da sua casa porque era preciso. Era a mínima reação plausível após uma noite regada a vinho suave. Mas você disse que não foi o vinho. Não foi só; foi esse seu modo burguês de falar, essa puxada na calça quando você se senta acompanhada de uma expressão como se não aguentasse mais o meu silêncio ou qualquer outra coisa que eu estivesse fazendo em excesso; você revira os olhos numa feição de impaciência que, sinceramente, só cabe em mim. Mas aí então você sorri, diz que entende tudo e pede desculpa por algo que nem mesmo você, com essa cara lavada, sabe o motivo. Não foi só o vinho. Foi essa mania de achar que um pedido de desculpa cachorro-dando-a-patinha-pra-brincar sempre é solução.

Lembra-se daquele dia nublado que você bateu a porta? (É, ele também já bateu a porta). E bastou o primeiro passo para a tempestade cair? Lembro; e eu dei meia volta; eu te abracei; eu te falei que foi um sinal; e eu te pedi desculpas. E o que eu fiz? Você me deu o guarda-chuva preto meio enferrujado. E você foi como se não houvesse mais nada que te impedisse de ficar. Você sempre só precisou disso. De um guarda-chuva. Ou um “guarda-tudo”. Alguma coisa prática e manual. E eu nunca fui prática e manual. Eu sempre precisei de mim, de pessoas humanas e nada automáticas e de um vinho seco para os momentos que você batesse a porta.

Quando fui eu que bati e dei o primeiro passo, olha que surpresa, caiu uma tempestade. Eu não dei meia volta muito menos te abracei. Mas foi um sinal. Talvez fosse São Pedro me avisando que a história nunca deve se repetir. Eu entendi que ele queria que eu tomasse um bom banho de chuva pra tirar toda essa automatização que você causa nas pessoas. Toda essa coisa que não é humana. Era São Pedro chorando de felicidade porque eu preferi a mim do que a você.

E olha que na verdade eu bati a porta no desejo de você abri-la, me puxar pelo braço e dizer que tem um vinho seco naquela adega pequena da cozinha. Aí eu volto. Você me pede desculpas, eu aceito e a gente enche as taças.                                                                                                               
Dani Fechine