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27 outubro 2013

De tudo ao meu amor serei 'lamento'

Sentarei na beira da cama para calçar meus sapatos. Farei as malas delicadamente, sem pressa, para nada esquecer. Pentearei os cabelos pela última vez nessa penteadeira enferrujada, que recebi promessas de pintura durante os 3 anos. Não ligo para o que ficar. Faça bom proveito dos móveis e desses cômodos com cheiro de saudade. Quero apenas os meus chinelos, a garrafa de vinho que comprei semana passada e a escrivaninha, que depois de sete meses, consegui colocar no seu escritório intocável. Quanto aos livros, são todos meus. Cada página amarela, cada dedicatória. Estou saindo de mente vazia e coração aberto.

Não te esperarei chegar. Você não vai chegar. E eu demoro muito a acreditar. Odeio despedidas. Lamentos. E homens derramando lágrimas, verossímeis ou não. Saio na ponta dos pés para não deixar rastros. A chave está em cima da mesinha da sala, perto do arranjo que ganhamos dos meus pais no Natal passado. Só que sem o arranjo. Estou empacotando-o também. Sem a chave. E sem esse aviso.

Minto, amor. Saio de coração na mão. Peito sangrando. Sem ar. Sem fome. Sem vontade. Sem coragem. Com saudade. Com dor. Com uma vontade incessante de te encontrar, seja onde for. Saio porque seu cheiro ficou. Suas gravatas. Camisas. Sapatos. Até seus óculos ficaram. Esses levarei, talvez sejam-me úteis. Saio porque a xícara de café ainda está na cozinha. Suja. O iogurte foi aberto e ninguém tomou. O bolo foi deixado pela metade. E o almoço, nem comecei. Você não ficou pra almoçar. E não te verei no jantar. Saio de mente cheia, atordoada. Esquece os passos de bailarina. Saio correndo. Batendo a porta. Abrindo a garrafa de vinho dentro do elevador. Ofereço ao moço de bigode que dirige o táxi, mas ele não aceita. Me olha com cara de reprovação. Senti na pele a dor de uma loucura. Estou saindo de corpo e alma. De meia calça preta. Vestido preto. Sapatos pretos. Pintei até os cabelos.

Estou saindo de costas para não te ver em todos os lugares. Se pudesse, vendava-me. Os olhos estão pesados de maquiagem preta, muito rímel, muita tinta, muito carmin. Porque pior do que fazer uma mulher chorar, é deixá-la borrar a maquiagem por isso. Saio com o cheiro das suas roupas ainda nas minhas. Isso eu não consegui deixar. Não consegui deixar também o carinho. O beijo na testa. O abraço apertado. O 'bom dia' mal-humorado. As surpresas ao meio-dia. O jantar à luz de velas. O cartão de Natal. As bodas de papel. Não consegui deixar a marca do beijo. O toque das mãos. O alisar nos cabelos. O filme a dois. O medo protegido. A bagunça organizada. E o coração partido. Levo comigo apenas a certeza de te ter pra sempre.

Saio correndo. Batendo os pés. Fazendo birra. Não quero te ver no corredor ou correndo pra pegar o elevador. Isso não vai acontecer. Mas parece que dobrarei a esquina e te verei chegando com alguns doces comprados na confeitaria do bairro vizinho. Corro pra não dar satisfações ao seu Zé. Pra não te ouvir pedindo pra bater a porta ao sair. Estou saindo, meu bem. Estou saindo porque as fotos já me doem muito. O sofá tem dois lugares e eu sou só uma. As cervejas, sempre aos pares. As almofadas, com seu cheiro. O tapete, com seus chinelos. E o Fred, nosso cachorro-gente, está com uma depressão filha da mãe porque você não o levou pra passear na noite passada. Ele sente sua falta. E eu não consigo cobri-la. Saio pra te encontrar na copa das árvores. Nas estrelas do céu. Na Lua cheia. No balançar da flores. Nas folhas secas ao chão. No bom dia do padeiro. No moço simpático do trem. Saio pra te encontrar, em qualquer lugar que seja, mas que não seja na nossa casa. No nosso mundo. Na nossa vida. Essa lembrança ordinária de te ver em todos os lugares. Deitado na cama. Bagunçando o cabelo. Saindo apressado. E voltando numa pressa ainda maior e inadmissível, porque, afinal, esqueceu as chaves. E esqueceu de mim também. Esqueceu de me guardar numa gaveta. Num guarda-roupa. Ou de levar-me com você. Você esqueceu, meu bem, que amor não se morre. Que o corpo da gente vira cinza, enquanto o coração vira dor. Que a gente chora, enquanto o amor se exalta. Você esqueceu, com toda essa memória infinda, que a gente ainda não teve um casal de dálmatas pra cuidar. Ou bebês. Que seja. Você se foi antes dos 30. Ninguém se vai antes dos 30. Que injusto, que desumano. Estou batendo a porta, amor, mas você vem comigo. Estou saindo. Mas deixo a escova de dente, o travesseiro e o coração.

Dani Fechine

08 setembro 2013

Conto de fadas às avessas

Vindo de família Irlandesa era previsível que você ainda estivesse morando na mesma casa de quando nos conhecemos na adolescência. Eu só não imaginava que depois de tanto tempo, você ainda seria o protagonista dos meus melhores pensamentos. E muito menos, que seria tão assíduo na minha memória. Você sabe, Dex, sempre fui um pouco memorável. Na prateleira do escritório guardo mil caixas e mil lembranças de tudo. E de todos. E em uma das arrumações, andei mexendo nas lembranças da juventude. Revirei cartas, chaveiros, fotos. E lá no fundo, escondida no emaranhado de papéis, eu te reencontrei. Nossa única foto. E nossa única lembrança. E eu me lembrei, naquele momento, que foi você que me entregou aquela foto, juntamente com o último abraço que nós compartilhamos. E agora eu entendo porque. Com sua caligrafia já um pouco borrada, uma letra meio rabiscada, e uma tinta já um pouco falha, eu consegui decifrar o seu "bilhete" no verso da foto: "Procure-me. Seja o ano que for, estou morrendo de saudades."
Decerto seu telefone não era mais o mesmo. Mas eu ainda tinha um trunfo nas mãos. Uma visita seria demais para o meu coração acelerado. Seria um excesso de emoções e talvez uma surpresa te deixasse um pouco chateado: você sempre detestou surpresas. E chegou a minha hora de levar isso à risca.

"Dex. (Será que ainda te chamam assim?) Estamos em 2013 e, pois é, também estou morrendo de saudades. Faz muito tempo desde a última vez. Com um diploma na mão e uma foto no bolso, a gente seguiu os nossos caminhos de modo que até hoje eles nunca se cruzaram. As linhas seguiram tão retas que nem se tocaram. Um dia alguém me falou que amor não tem data de validade. E realmente não tem, Dex. Não adianta sentar e esperar esse vilão virar mocinho. Você vai se apaixonar todos os dias por olhares diferentes, vai querer ser o novo amor de todos aqueles belos sorrisos. Você vai dobrar a esquina e vai avistar o mais belo dos rapazes ou a mais bela das moças. E vai se apaixonar mais uma vez. Mas então você vai chegar em casa, vai se jogar no sofá e como quem não tem mais nada pra fazer na vida, você vai lembrar que amor a gente tem um só, pra toda a vida. E vai perceber que, realmente, amor não possui data de validade. Você não vai lembrar dos olhares que recebeu, dos sorrisos que ganhou, nem do rapaz ou da moça que avistou. Dex, todo mundo tem um amor pra recordar. Seja ruim como for, ou maravilhoso como um conto de fadas, é esse amor que você não esquecerá. E poderá passar anos. Você irá casar, ter filhos, mas quando revirar as caixas velhas e abrir seus diários e cadernetas, você vai suspirar e inconscientemente vai imaginar como teria sido se tudo tivesse dado certo. Você é o meu amor pra recordar, Dex. E é por isso que eu posso te afirmar que não foi a foto já antiga, nem a sua letra rabiscada que me fez perceber isso. No instante em que nossos olhares deixarem de se cruzar eu percebi que eu nunca esqueceria de como meu coração acelerava ao te ver. Saudades, Dex. Ainda estamos ligados."

"Donna, estamos em 2013 e você não imagina o quanto que eu esperei por esse ano. Nossas vidas tão opostas e ao mesmo tempo tão interligadas, me fazem ver que existem elos que nem mesmo a distância e o tempo são capazes de destruir. E esse elo se chama amor. Nossa história tinha tudo pra começar com "Era uma vez" e terminar com "felizes para sempre". Mas nem só de contos de fadas vive um homem. Você sempre me dizia isso. E eu nunca esqueci. Mas olha que peça o destino me pregou, Donna: hoje eu sou um escritor best-seller de romances impossíveis. Fiz da nossa história nada romântica um desejo de poder reconstruí-la. O desejo de te reencontrar era tão grande que decidi antecipar e criei contos e versões de como seria. Não publiquei nenhum. Você sempre revisava os meus textos e poemas, e jogar no mundo a nossa história sem passar por seus olhares seria uma audácia com os contos de fadas da vida real. Não se faz um história de amor sozinho, Donna, e é por isso, é por você ser tão protagonista como eu, que eu não pude seguir a minha história até hoje. Eu achei impossível escrever o meu destino sem você ao meu lado. Sempre faltou algo. Sempre sobrou uma cadeira ao meu lado. Ou um grande espaço na cama. Sempre faltou você, Donna. E eu não sei como foi a sua história de amor até agora, mas a minha parece começar. Onde quer que esteja, estarei lembrando de você. Obrigada por ser minha inspiração durante todos esses anos. Saudades, Donna. Ainda estamos ligados."

Dani Fechine

15 agosto 2013

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!". Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabor

10 agosto 2013

Foge e fica


Parecia meio imprevisível e até surreal, mas te ver chegar, acelerar meu coração e tomar a minha fala fez tudo ser real demais. E até explícito, arrisco. O mesmo rosto de criança e a mesma conduta de adulto. Como você conseguia ser sempre um anti-herói de chinelos perdidamente apaixonante? Você transborda aquela mistura inata de vilão e mocinho. Gosto do seu lado vilão; quando você senta no sofá meio irritado: ou alguém pisou feio na bola ou foi você que pôs tudo a perder. Não foi futebol. De cara eu sei que não. Mas amo seu lado mocinho meio invisível: esse seu carinho singular e essa sua atenção que exala simpatia.

Olha Gerry, não sorri assim pra mim. Meu coração é fraco e minha paixão por sorrisos é escandalosa. Esquece de mirar em mim quando me avistar, ou tira os óculos pra não me ver. Tudo isso pra você não reparar o meu sorriso bobo (e ridículo) e essa minha cara de romântica em Paris. Não se aproxime! Pare onde está e não me toque. Não me deixe sentir o choque que você me causa porque a voltagem é tremenda, pode nos matar, Gerry. Pro seu bem, não me abrace. Não me prenda em você. Não diz que foi um prazer. Não diz que tava com saudades. Não me envolve nos teus braços porque eu não saio nunca mais. Eu juro passar o resto da noite com a cabeça no teu ombro e eu nem ligo pro desconforto e nem acho ruim se eu pegar no sono. Não me dirija a palavra, não fale o que eu quero ouvir, não pegue na minha mão pra me falar algo sério. Por favor, Gerry! Meu coração tem um mandado de restrição contra você. O advogado dele, o cérebro, você sabe, disse que é melhor manter distância porque proximidade intelectual e atração eletromagnética é uma ferramente indestrutível: pode matar os dois de amor.

E então você se aproxima, me traz aquele sorriso irresistível e apaixonante. Você mira em mim de longe e ajusta os óculos pra não deixá-los cair. Mas parece que você irradia um veneno muito forte que mesmo de longe consegue me atingir. Espero que você não tenha reparado que eu respondi o seu sorriso como uma criança sorrir ao ganhar uma balinha. Então você acelera os passos e corre um pouco no final. Para bem na minha frente e respira fundo pra retomar o fôlego. Agora estamos na frente da confeitaria mais romântica da cidade e a partir de agora será o meu lugar favorito. Você me abraça apertado e isso é como um imã. 

Sinto você sorrir do outro lado; eu fecho os olhos e me entrego ao acaso. Tudo se perdeu. Já era, Gerry. Fomos longe demais pra rebobinar a fita. Fechei os olhos e sorri. Ou de alívio ou quem sabe de desespero. Você desgruda e eu nem sei como você consegue. Pega minha mão e olha fundo nos meus olhos, diz que sentiu saudades e que a melhor coisa que aconteceu até agora foi ter me encontrado e ainda completa (querendo ser preso por homicídio doloso):

- Sophie, que o mundo não me escute, mas eu não paro de pensar em você. (Eu vi o desespero nos seus olhos, de quem já não sabia mais o que fazer. Não dava mais pra correr. Impregnou no coração.)
- E que você não me escute, Gerry, porque eu também não paro de pensar em você.
E contrariando toda a física, a racionalidade e um pouco de sanidade que ainda existia, você se aproxima ainda mais, afasta o cabelo do meu rosto e tira os olhos dos meus. Meu batom vermelho agora é alvo. Você me beija. Eu me encontro. Você se perde. E meu coração sinaliza: "eu avisei".


Dani Fechine

30 julho 2013

Sobre o que você causou

No dia em que você se despediu da minha vida eu corri pro aeroporto. Fiz as malas, pus casaco e regatas, botas e chinelos. Comprei a passagem para o próximo voo e nem quis saber qual era. Enfiei o bilhete no bolso de trás da calça e fui em busca de alguém diferente do que eu era há minutos atrás. Ou na verdade em busca de mim mesmo. A poltrona que a moça simpática do check-in me colocou dava pra observar tudo que eu deixava pra trás. Abri o suporte de apoio e me coloquei a escrever.

Comecei falando sobre o quanto a gente se entrega fácil. A tudo. O quanto a gente absorve a tristeza e a solidão e esquece que ali embaixo, com todas aquelas luzes, há algo ou alguém muito bom pra nos fazer feliz. De novo. Escrevi sobre o quanto a gente se apega às coisas e às pessoas, e que isso nunca vai ter um lado bom. O ciclo da vida é muto simples e a gente aprende desde criança o sentido biológico: nasce, cresce, (talvez) reproduz e morre. Mas você mudou a ordem do sistema e nesse caso altera ridiculamente o produto e o produtor. Não se morre antes de reproduzir, quero dizer, antes de deixar pedacinhos nosso nesse mundo. É um pecado mortal não deixar um "clone" pra alguém que a gente ama. E você não deveria ter partido assim, deixando apenas suas camisas, calças, sapatos, livros e um cordão que eu gostava muito e que agora não sai do meu pescoço e que me faz lembrar sempre do quanto você ficava lindo com ele, me fazendo chorar muito porque ele recupera uma vida inteira em questão de segundos. O ser humano adora um martírio. Nós somos masoquistas conscientes e parece gostamos disso.
Contei pro papel como foi que a gente se conheceu e como o destino é esperto. Mais do que qualquer pessoa que se acha muito inteligente. Ele te colocou no meu caminho e me colocou no seu, pra que você cuidasse de mim e principalmente pra que eu cuidasse de você. Olha agora a minha culpa, Dex. Eu só posso ter cuidado muito mal de você pra ser deixava assim, no meio de uma noite fria de uma terça-feira. Só pode ser brincadeira você me deixar no mesmo dia da semana que você chegou.

Não podia deixar de jogar naquelas linhas algumas das lições que sua passagem deixou nesse mundo. Por exemplo, que a gente deve fugir de toda negatividade. Que a quantidade de pessoas que querem nossa derrota muitas vezes supera a bondade humana, e que mesmo assim a gente deve fechar os olhos e estender a mão a quem nos quer bem e em hipótese alguma apontar o dedo aos invejosos. Você sempre me ensinou a não devolver um "tapa na cara" ou uma palavra mal encaixada. Com tanta coisa pra você mudar nesse caos aqui debaixo, porque você foi embora justo agora? Eu sei. Eu sinto o egoísmo pulsar nas minhas veias. Sinto aquela vontade tardia de brigar com o mundo ou com quem sabe-se lá levou você de mim. Não é egoísmo, eu prometo. É apenas uma singela saudade de me despedir de você hoje a noite, de devolver o abraço afetuoso e apertado, tão singular e tão preciso. É uma forte lembrança que bate no peito como se a qualquer momento eu fosse vomitar toda a minha vida ao seu lado e todas as nossas despedidas e chegadas. É apenas um chocalho que tem dentro de mim e que insiste em me incomodar, fazendo-me recordar a cada milésimo de segundo do nosso último sorriso, do nosso último beijo, do nosso último abraço. Das suas mãos em meu cabelo, do seu beijo na testa e dessa sua coragem indiscutível de morrer.

No dia que você foi embora, eu pensei em correr pro aeroporto e fugir da sua ausência presente que ficou na cidade, no bairro, no apartamento apertado, na sala colada na cozinha e no último quarto do corredor. Em vez disso eu dei meia volta e escrevi um livro inteiro sobre você, sobre nós e sobre o quanto é importante superar a partida de alguém. Não importa como for. Vai "comigo", Dex.

Dani Fechine (baseado na IDEIA da música Oitavo Andar - Uma Canção Sobre Amor de Clarice Falcão)

25 julho 2013

(amor) e ódio

Era uma terça-feira nebulosa, nublada, muitas nuvens e pouco céu. Em dias como esse andar pelas ruas frias da Irlanda parecia a alternativa mais óbvia e fria para Emily. Afinal, quem ela poderia encontrar numa cidadezinha pequena e "desconhecida" da Irlanda?
Gerry. Claro.
- Emily, o que faz aqui? (ele me perguntou um pouco menos assustado que eu).
- (Vim esvaziar a cabeça. De você. Escolhi esse vilarejo a dedo, como quem escolhe a melhor roupa para um jantar romântico [não sendo eu, claro]. Mas parece que você sempre me encontra e reencontra. Ou adivinha).
Ah, vim a trabalho, Gerry.
- E como você está, Em? Me parece que os últimos meses não foram tão fáceis. Ou foram diferentes, arrisco.
- (Não está nada bem. O mundo parece que desabou desde que você se foi, desde que você deixou aquele bilhete embaixo do abajur como se eu merecesse ver a sua letra ridícula e de quem estava com pressa, dizendo que não quer me ver sofrer. "Adeus". Era tudo que eu queria ouvir [muito menos ler] de alguém que viveu uma vida ao meu lado e depois como num acender/apagar de um abajur enferrujado desaparece sem mostrar a cara. Nem sequer uma mensagem de voz, uma ligação - que seria uma atitude um pouco menos estúpida. Foi muita covardia da sua parte. Eu queria dizer que você escolheu um dos piores dias para acabar com a mina vida. Se o senhor-artista-de-televisão-ocupado-com-as-garotinhas não se lembra, eu posso refrescar um poucos sua memória. Dia 6 de dezembro. Isso te lembra alguma coisa? Ah! Talvez fosse o meu aniversário ou quem sabe o NOSSO aniversário de mil anos de "estar juntos" (como você mesmo dizia em todos os cartões das flores meio murchas que sua secretária me mandava porque ela se lembrou disso, não você). Talvez você nem esperasse que eu chegaria em casa com alguma surpresa ou com algumas passagens para um vilarejo escondido na Irlanda. Talvez você não esperasse de mim o que eu sempre esperei de você. Talvez a Irlanda fosse fria demais ou monótoma demais ou pequena demais. Ou talvez eu fosse uma companhia um tanto chata. Porque até o abajur com sua lâmpada quase queimada teve a audácia e o privilégio de receber um bilhetinho dizendo que "acabou". Ele deve ter apagado e acendido as luzes algumas vezes numa rapidez que eu até imagino que você se assustou. Até porque você detesta assombração. Mas fica calmo, Gerry. Ele já estava meio ruim. Assim como eu também. E eu quero te pedir desculpa se eu me tornar uma assombração. Mas foi você que pediu distância. Eu fiz o máximo que eu pude. Atravessei o Atlântico e você nem notou. Você não é mesmo um homem que se possa ser digno dessa palavra, Gerry. Mas ainda assim, obrigada. Obrigada por me livrar de você. Estou vazia. Vazia dos sentimentos asquerosos que você expeliu em mim. Estou vazia e fria. Seca. É só uma pena você ter escolhido a pior maneira para isso. Foda-se. Você e o seu bilhete escrito na comanda do bar da esquina.)
Estou ótima, Gerry. Mas estou com pressa. Preciso ir, tenho uma pilha de livros para avaliar. A cidade é pequena, a gente e vê no bar mais próximo, não tenho dúvida. Bom te ver. Tchau!
- Tchau, Em. Saudades suas.
- (Canalha!) Então eu aceno e desapareço de vista. Pra sempre.

13 julho 2013

Seco (a), por favor

A forma como você bateu a porta denunciou todo o seu silêncio durante a longa noite de 30 minutos. Deve ter sido o vinho suave que eu te ofereci e que na verdade era seco que você queria. Você sabe que não foi o vinho. Mas eu prefiro achar que foi. E se eu te disser que. Que o que? Que não foi o vinho. Diga. Foi o vinho e uma livraria inteira que havia naquela taça; foi essa sua nudez facial, esse seu olhar indiferente achando que um vinho sempre resolve tudo. O vinho seco até que ajudaria um pouco. Eu bati a porta querendo escancarar o mundo; querendo que no próximo passo a vida fosse mais doce (e banhada a vinho seco) e fosse mais colorida e mais a meu favor e ao mesmo tempo mais escura mais a minha cara mais silenciosa mais indecisa e sem pontuação. Eu bati a porta da sua casa porque era preciso. Era a mínima reação plausível após uma noite regada a vinho suave. Mas você disse que não foi o vinho. Não foi só; foi esse seu modo burguês de falar, essa puxada na calça quando você se senta acompanhada de uma expressão como se não aguentasse mais o meu silêncio ou qualquer outra coisa que eu estivesse fazendo em excesso; você revira os olhos numa feição de impaciência que, sinceramente, só cabe em mim. Mas aí então você sorri, diz que entende tudo e pede desculpa por algo que nem mesmo você, com essa cara lavada, sabe o motivo. Não foi só o vinho. Foi essa mania de achar que um pedido de desculpa cachorro-dando-a-patinha-pra-brincar sempre é solução.

Lembra-se daquele dia nublado que você bateu a porta? (É, ele também já bateu a porta). E bastou o primeiro passo para a tempestade cair? Lembro; e eu dei meia volta; eu te abracei; eu te falei que foi um sinal; e eu te pedi desculpas. E o que eu fiz? Você me deu o guarda-chuva preto meio enferrujado. E você foi como se não houvesse mais nada que te impedisse de ficar. Você sempre só precisou disso. De um guarda-chuva. Ou um “guarda-tudo”. Alguma coisa prática e manual. E eu nunca fui prática e manual. Eu sempre precisei de mim, de pessoas humanas e nada automáticas e de um vinho seco para os momentos que você batesse a porta.

Quando fui eu que bati e dei o primeiro passo, olha que surpresa, caiu uma tempestade. Eu não dei meia volta muito menos te abracei. Mas foi um sinal. Talvez fosse São Pedro me avisando que a história nunca deve se repetir. Eu entendi que ele queria que eu tomasse um bom banho de chuva pra tirar toda essa automatização que você causa nas pessoas. Toda essa coisa que não é humana. Era São Pedro chorando de felicidade porque eu preferi a mim do que a você.

E olha que na verdade eu bati a porta no desejo de você abri-la, me puxar pelo braço e dizer que tem um vinho seco naquela adega pequena da cozinha. Aí eu volto. Você me pede desculpas, eu aceito e a gente enche as taças.                                                                                                               
Dani Fechine   

04 julho 2013

Era (quase) amor

Não foi a sua aparência meio destrambelhada, nem essa sua voz que ecoou dentro do cinema na fila da frente. Não foi o fato de você ter pisado na barra do meu vestido longo – o que me fez perceber que eles não precisam ser tão longos assim. Não foi (muito menos) esse teu jeito confortável, digamos assim, de se vestir. Foi o sorriso que você me deu achando que eu estava tão apaixonado quanto você por todas aquelas mentiras ficcionais do filme que a tela produzia. Você sorriu pra mim como se eu entendesse esse seu linguajar expressivo. Como se eu te conhecesse. Como se aquele lugar vazio ao seu lado fosse meu.

Não. Eu não amo filmes de ficção. Fico mais com as comédias românticas baseadas em fatos reais. Mas estava ali, porque eu até gosto um pouco de mentiras que são de mentiras. E uma coisa que você não sabe é que eu guardei aquele bilhete de entrada, porque nunca alguém havia sorrido daquela forma sem que eu pedisse ou ajudasse a fazê-lo. Foi o seu olhar sincero, achando que a gente se parecia em alguma coisa. Foi essa simplicidade ímpar que iluminava a sala. Pareceu-me amor. Mas era quase. Com certeza, com tanta bagagem de ficção científica, você não acreditava em amor a primeira vista, muito menos em destino. Mas eu, com meus romances e minhas histórias reais, estava esperando um cavalheiro (não um príncipe) descer de seu cavalo branco e pedir a minha mão. Você poderia ser esse cavalheiro. E poderia vir a pé mesmo, até gosto de caminhar um pouco.

Era uma espécie de empatia, de atração dos campos magnéticas ou atração cósmica. Era quase amor. Mas havia um pouco mais de mistério, curiosidade de desvendar o outro. Poderia, inclusive, ser apenas isso. Mas não. Olhares não se cruzam dessa forma e sorrisos não são compartilhados com frequência nessa sintonia. Poderia ser cuidado. Pressentimento. Intuição. Uma forma (meio complicada) de se comunicar. E tinha tantas poltronas vazias, porque tão distante? Não. Não havia de ser nada. Mas era. E não foi aquele filme chato que me fez pensar tanto. Aquelas lutas mais mentirosas do que ex-namorado. Aquela ficção fajuta. Foi a realidade que acontecia em frente à tela, que por sinal até se assemelhava a alguns dos romances que já li.

Foi por querer tanto que a sua sinceridade escapulisse, foi por querer tanto que fosse carinho (ou amor), que eu saí da sala antes das letrinhas finais. Saí como alguém que recebe uma ligação de emergência. Mas sem a ligação. Era urgente mesmo. Muito. Era amor. Quer mais urgência que isso? Fugi, corri, procurei o local mais escondido daquele cinema, porque amor, moço, é coisa séria, e no mínimo dá um medo tremendo. Deixei a sala antes das palmas, afinal, eu sabia que você iria esperar aquela cena depois dos créditos. E como toda mulher realista eu sabia que nenhum cavalheiro de armadura viria me seguir. Dito e feito. Nenhum cavalheiro de armadura resolveu me surpreender com suas “frases feitas e de efeitos” de contos de fadas. Mas você sim. E não adiantava mais fugir. Quando o coração da gente acelera, já era. Ou morre ou se entrega. E com uma vida tão longa pela frente, era melhor se entregar. Mas antes que eu falasse  que era amor e que o seu sorriso se encaixava no meu, você não pestanejou:  – Moça, é amor sim. Eu percebi quando eu te vi saindo com esse ar de desespero, com esse jeito de quem não quer sentir o frio na barriga novamente e com essa feição de quem sabe que se é amor, não adianta fugir. Moça, eu sei que é amor. O filme ainda não acabou, os créditos ainda não subiram e consequentemente a cena final ainda não apareceu. Mas eu vim aqui te entregar o livro que você deixou cair e te dizer que eu larguei os momentos finais do último filme da trilogia pra te dizer que a poltrona vazia estava sim reservada pra você. 

Dani Fechine

08 março 2013

Metade completa

Naquele dia, se abraçaram como se fosse o último, riram como se não fosse mais o fazer, brincaram como se aquele momento se eternizasse e se beijaram como se fosse o último beijo de fim de tarde. Naquele dia deixaram de ser um, pra ser meio a meio. Aquele dia marcado na agenda, marcou também o coração (que parou de bater por um instante). Morreram e reavivaram de outra forma. Aquele dia nasceu como um outro qualquer, mas terminou como aquele filme com seu final reflexivo, criativo, inesperado e infiel ao livro. Aquele dia em que se olharam pouco, foi o dia em que se viram mais. Nas palavras. Se traduziram em versos, em risadas e em suspiros de quem já está com saudades do amanhã que (parece) que vai nascer. Naquele dia chuvoso, eles puderam sentir o que tão tarde sentirão. Daquele dia em diante eram metade um, metade o outro. Deixaram de ser a unidade, deixaram de ser os falatórios do dia seguinte, e deixaram de ser o problema carregado em suas próprias costas. Mas deixaram as fotos, as lembranças, as conversas, as mensagens trocadas, as vozes de "boa noite", o pedido de "até logo" e o grito de saudade. Deixaram consigo. Guardaram. E sentem até hoje o último suspiro. Gravaram as frases, as fotos declaratórias e guardaram, inclusive, aquele dia tempestuoso. Naquele fim de tarde deixaram os sonhos se romperem. Foi o dia em que passaram do futuro construído, para um passado bem feito. Passaram do presente atordoado para uma folha em branco, um amanhã estranhamente complicado de se escrever. Deixaram, com toda longevidade existente, as mãos que um dia se cruzaram. Deixaram voar os desejos que um dia puderam esclarecer e sonhar um pouco mais. Foi como empinar uma pipa e deixá-la voar por algum tempo até ficar presa em algum telhado ou poste de iluminação. Foi como abrir a gaiola de uma passarinho e ele não querer voar. A liberdade, pra ele, estava ali dentro, e o amor e o carinho do lado de fora não seriam os mesmos. Impetuosamente deixaram a Lua, com toda sua beleza divina, nascer sozinha na imensidão do mar. Lá na linha do horizonte. Aquela bola laranja e grande. Deixaram surgir sem mais os seguir. Naquele dia tão confuso e assimétrico, continuaram os mesmo de ontem, ainda que com todo amor do mundo.
Naquela noite meio nebulosa, voltaram pra casa como saíram um dia: amigos no papel, amores no coração

Dani Fechine